A CFMOTO 1000MT-X, é, para já, o expoente máximo da marca chinesa no setor das duas rodas. Mais do que uma evolução da 800MT-X, é um afirmar da sua identidade e, simultaneamente, entrar no restrito grupo dos modelos que estabelecem as referências no segmento Aventura. Sabendo que a história da CFMOTO não vai ficar por aqui, este é mais um alerta à concorrência de todo o Mundo, sobre as capacidades deste e de outros fabricantes da República Popular da China.

- Texto: Alberto Pires
- Fotos: CFMOTO/Rui Jorge
O caminho faz-se caminhando, sobretudo quando se tem claro onde se quer chegar. A designação MT surgiu em 2017, com a Sport Tourer MT 650, modelo que a CFMOTO escolheu para elevar o estatuto da marca. O design assinado por Gerald Kiska envolvia um motor que a CFMOTO já produzia para a Kawasaki, montado no modelo Versys, adicionando-lhe componentes provenientes de marcas reputadas como a Kayaba, Continental, Bosch e Metzeler, criando as condições objetivas para que os motociclistas a integrassem no grupo das grandes.

Em 2021, com a introdução da 800MT, faz uma aproximação ao segmento Aventura, evoluindo dois anos depois o conceito inicial, mais estradista, com a CFMOTO 700MT, modelo que pelas suas qualidades ainda é bastante procurado. A imersão no ‘off road’ dá-se em 2024, com a 450MT, uma aposta cujo sucesso está bem expresso ao ocupar o terceiro lugar do ranking nacional das motos mais vendidas em 2025. Convém salientar que as duas primeiras posições são ocupadas por duas scooters com 125cc!
Em 2025 a abordagem Adventure enriquece a gama, através de propostas que acentuam o seu espaço, com a nova 700MT ADV e a 800MT-X a definirem de forma mais evidente o seu meio ambiente favorito.

Chegou agora o momento da CFMOTO 1000MT-X elevar a aposta, subir ao topo da capacidade e confrontar as referências existentes com todo o seu potencial, recorrendo à mesma estratégia que a trouxe até aqui. Design contemporâneo, amplitude de utilização, equipamentos mecânicos referenciais e eletrónica de última geração!
A imagem sedutora da CFMOTO 1000MT-X
Esta CFMOTO 1000MT-X, desenhada pelo estúdio Modena 40 em colaboração com o centro de design da CFMOTO situado em Rimini, é elaborada visualmente e permite várias leituras em função do ângulo em que é vista. De frente é imponente e rica nos detalhes. O grupo ótico quase passa despercebido nas formas que o rodeiam, mas a sua complexidade merece atenção. Sucede o mesmo com o guarda-lamas, absorvido que está no formato de onda envolvente criado pelas abas laterais que acondicionam o radiador, que desaparece apesar da sua largura.

A parte inferior encarrega-se do milagre final, consegue acomodar o formato singular de um depósito com 22,5 litros, esconder os coletores de escape e catalisador, garantir a proteção de uma zona sensível de uma moto e conferir ainda unidade estética ao conjunto. Brilhante! No último terço é escorreita, simples, e nem o generoso silencioso de escape destoa.
A diferença começa no motor
A CFMOTO 1000MT-X é muito mais que uma evolução da 800MT-X, apesar das semelhanças. O motor de 946,2 cc é novo, inteiramente desenvolvido e fabricado em casa, e foi otimizado para que o seu comportamento se adequasse ao espírito de utilização desta MT-X. Os valores declarados podem por isso ser mal interpretados. Com 105 Nm de binário às 6.250 rpm e 112 cv às 8.500 rpm, poderíamos pensar num eventual comportamento pontudo, ou menos suave, mas não é o caso.


Na realidade é muito suave, desenvolvendo de forma progressiva desde as 2,500 rpm sem hesitações nem fulgores quando se aproxima das 9.500 rpm, o início da linha vermelha. Diga-se, até, que depois das 9.000 rpm demora o suficiente para não sermos surpreendidos com o corte de ignição, e se queremos energia em aceleração não é na proximidade desses regimes que a encontramos.
Ciclística de luxo
O conjunto ciclístico desta CFMOTO 1000MT-X é um dos orgulhos da marca, funcionando quase como mostruário do seu standard de qualidade. O quadro é muito semelhante ao da 800-MT-X, apenas mais reforçado na parte inferior onde assenta o motor, e pesa apenas 14 quilos. A forquilha telescópica de 48 mm de diâmetro é Kayaba, com afinação em compressão, extensão e pré-carga, assim como o amortecedor traseiro.

Quanto ao curso, estão disponíveis duas versões: uma com 230 mm tanto na frente como na traseira, e outra com 190 mm de deslocação em ambas as rodas. Estes 40 mm de diferença implicam distintas alturas livres ao solo, 240 mm na mais alta e 200 mm na mais baixa. Se estas possibilidades já permitem que o condutor escolha a que melhor se ajusta ao tamanho das suas pernas, pode ainda afinar esse detalhe escolhendo um banco mais alto 1,5 cm que o original, ou mais baixo 2,5 cm. Os seja, a amplitude possível é de 8 cm! De notar que tanto os punhos como todas as opções de banco são aquecidos.
As rodas de 18 polegadas na traseira e 21” na frente recorrem a aros com raios de fixação tradicional, que permitem a montagem de pneus tubeless Pirelli Scorpion, incorporando um sistema de monitorização de pressão (TPMS). A excelência prolonga-se ao nível da travagem, com pinças radiais na frente a morderem dois discos flutuantes de 320 mm, e uma pinça Brembo de um pistão na traseira, para um disco de 260 mm. Tem ABS em ambas as rodas, que podem ser desligados em função do mapa de motor.

A presença da eletrónica, ou de sistemas que a ela recorrem, é quase omnipresente. São quatro os modos de condução, pré-programados, Rain, Standard, Off-Road e All-Terrain, complementado por um Master que só pode ser ajustado através da aplicação CFMOTO Ride. Neste modo tudo é personalizável. A injeção eletrónica está entregue a um sistema Bosch MSE 9.0, na frente o ABS entra em consideração com a inclinação e o controlo de tração é dinâmico. O quickshifter é bidirecional com ‘rev match’ nas reduções, e a embraiagem é deslizante.
Primeiro estranha-se, depois usufrui-se!
O primeiro contacto com a CFMOTO 1000MT-X não foi amistoso, e a razão era objetiva. Calhou-me em sorte uma unidade das altas, e só conseguia tocar com as pontas dos pés no solo, e já era a esticar. Por comparação, na versão baixa conseguia dobrar a frente de ambas as botas, oferecendo muito mais estabilidade. Acresce à dificuldade em manter essa horizontalidade os declarados 222 quilos em ordem de marcha. Este valor é calculado obrigatoriamente com todos os fluidos e com 70% da capacidade do depósito de combustível, e deviam ser uma realidade, já que o indicador dos possíveis 22,5 litros de combustível estava bastante acima de metade. Ou seja, todos os movimentos abaixo de 5 km/h implicavam concentração máxima.

A embraiagem da tem um acionamento constante, e a força que exige é adequada tendo em conta o esforço a que vai ser sujeita. O triângulo de condução não é muito flexível, mas a posição que impõe inicialmente é adequada. Surpreendente é o estreito ângulo de pernas que oferece, contribuindo para o conforto e, já agora, para facilitar o movimento do corpo e atenuar o impacto da altura do banco, no pára-arranca inicial. Só por isso já se justifica a opção deste formato do depósito de combustível! O banco não é largo mas filtra bem as irregularidades, como se percebeu logo no empedrado inicial.

Como primeiros ajustes, os espelhos regulam-se facilmente, são generosos na imagem que oferecem e o nível de vibração é insignificante. O ecrã frontal da CFMOTO 1000MT-X é regulável em altura, em sete posições, e apesar de ter dois manípulos giratórios laterais é fácil ajustá-lo usando apenas um, e em andamento. Distorce a imagem ligeiramente nos lados mas situa-se abaixo do campo de visão.

O choque inicial vai, no entanto, para a dimensão e posição do painel TFT colocado na vertical, táctil e com possibilidade de ajuste na inclinação. São 8 polegadas, com fundo negro, e apesar do espaço disponível as informações são apresentadas em tamanho XL. Ou seja, perfeitamente adaptado para quem tem mais de 50 anos e precisa de óculos para ler ao perto.


Os primeiros quilómetros com a CFMOTO 1000MT-X, curiosamente em pisos variados, não assinalaram nenhum particular cuidado. A caixa de velocidades revela um funcionamento limpinho do ‘quickshifter’, sendo a troca de relações suave e com um curso reduzido do seletor. A aceleração acompanha este registo, sem vibrações e um binário tão cheio quanto plano.

Entrada em força terra adentro
O primeiro embate com o seu abrangente potencial de utilização deu-se pouco depois. Tratava-se da primeira incursão em ‘off-road’, e uma excelente oportunidade para experimentar o modo All Terrain. Neste modo o ABS está desligado em ambas as rodas, assim como o controlo de tração, e apenas a resposta do acelerador é personalizável.

Para quem tiver pouca ou até nenhuma experiência em pisos com buracos em redor das pedras, garanto que escusa de procurar uma alternativa asfaltada. O peso da CFMOTO 1000MT-X não desaparece, mas o curso das suspensões e a forma como digere as crateras, regos e consistências de piso, garante-nos em pouco tempo que não vamos ter que pedir ajuda. O centro de gravidade é baixo, sente-se estável, e mesmo tendo a rapidez de direção própria do segmento em que se insere, vai para onde queremos ir. O ABS desligado coloca nas nossas mãos a responsabilidade de gerir a progressividade da travagem da roda dianteira, ou a conveniência do bloquear da traseira.

Boa contribuição também a proporcionada pelo amortecedor de direção, ajudando a manter as mãos agarradas aos punhos. Os Pirelli Scorpion ajudam quem ainda está a descobrir este ambiente, e dois dos companheiros de sacrifício, com experiência endurista, mostraram-me até onde é possível ir. A indicação da pressão dos pneus disponível no painel ajudou-os até a reduzir a pressão para um valor mais eficaz. É sempre bom ver exigência, sabendo-se o que quer!

A possibilidade de desligar o controlo de tração revelou-se útil para ajudar a curvar com a traseira, e o tato do acelerador, em conjunto com a disponibilidade do motor da CFMOTO 1000MT-X, não nos castiga aquando das hesitações. Boa contribuição também a do quickshifter, que não dos obriga a agarrar o punho esquerdo com menos dedos, e da embraiagem deslizante, a soltar na justa medida a roda traseira aquando das reduções.


Gostei imenso do comportamento geral neste ambiente, e a surpresa continuou num troço bastante mais delicado, estreito e com curvas apertadas, em declive. Nestas condições a menor altura da versão com menor curso – e até com o banco mais baixo – teria ajudado bastante, mas não tinha outra solução para além de apelar à sua inércia e ao seu equilíbrio ciclístico para, com calma, cumprir o percurso. No final, já não parecia tão difícil!
Surpresas em grande na Rota Norte
O percurso em asfalto, percorrendo algumas das estradas do lindíssimo nordeste transmontano – recomendamos os surpreendentes 777 kms da Rota Norte – permitiu evidenciar a capacidade estradista turística da CFMOTO 1000MT-X. É muito agradável rodar calmamente, mesmo em piso irregular, apreciando as paisagens montanhosas transmontanas, sem vibrações, perdendo até a noção da relação engrenada. Estamos sentados em cima de algo grande, mas que não é volumoso e deixa-se levar. Conduz-se por instinto, numa espécie de câmara lenta sensorial, acompanhados por uma sonoridade repousante. São bons os momentos que proporciona neste ambiente.

Já num troço sinuoso, com bom piso e pequenas retas, a CFMOTO 1000MT-X mostrou que não renega os momentos mais despertos, incentivando-nos a manter a escala do conta rotações no último terço e a trocar de caixa como se estivéssemos numa 125 a dois tempos. Apesar das dimensões sentimo-nos ágeis, e o ‘quickshifter’ brilha, com um ‘rev match’ nas reduções magistralmente apurado. As pinças Brembo radiais e os discos de 320 mm flutuantes, uma escolha digna de qualquer desportiva, sobressaem sobretudo pela sua potência e progressividade.

Se o ABS em curva entrou em funcionamento não me apercebi, o que é bom sinal, sobretudo porque tenho a certeza que espremi a manete direita sem receios, por vezes já bem inclinado. Os Pirelli aguentaram-se muito bem, sentia-se a presença do controlo de tração mas a ação era suave, tanto a aparecer como a desaparecer. Apenas em asfalto mais degradado é que interrompia bruscamente, acompanhado pela pancada da suspensão, o que é aceitável.

Por último em estrada muito aberta, com configuração de autoestrada sem portagens, sobressaiu a proteção aerodinâmica oferecida pela CFMOTO 1000MT-X. Para a minha estatura, em redor do 1,70 m, justifica-se colocar o pequeno ecrã frontal na posição mais elevada. São quatro centímetros que fazem diferença, e seguramente que para os mais altos a escolha do ecrã mais alto se justificará também. No meu caso já se nota bem o efeito no capacete, e o tronco usufrui dos pequenos defletores que fazem a ligação do farol ao ecrã. Excelente a proteção dos punhos, nunca incomodaram na condução off-road, e vão garantidamente proteger de forma eficaz as mãos do frio.
Economia, conforto e acessórios
Quanto às pernas, estão naturalmente protegidas pelas formas da dianteira e pela quase ausência do incómodo provocado pelo tradicional depósito de combustível. Espremendo-se o motor percebe-se que foi criado para ser omnipresente até às 9.000 rpm, fazendo mais 500 rpm apenas para nos alegrarmos. Em sexta, às 4.500, roda-se a 120 Km/h, de forma suave e poderosa, e quando queremos aumentar o ritmo usamos a caixa apenas por mero entretenimento. O consumo médio deste teste, enérgico e sem preocupações relativamente ao impacto provocado pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, foi de 5,4 L/100 km.
A lista de acessórios é apropriada para a diversidade de utilização possível. O destaque na componente de turismo vai para o conjunto de três malas em alumínio, de acabamento excelente tanto no exterior como no interior. Estão disponíveis dois bancos com diferentes alturas, um ecrã mais alto e, a pensar numa utilização em ‘off-road’, uma proteção de cárter que cobre também a parte inferior do depósito, e os imprescindíveis ‘crash bars’. Para os que gostam de uma sonoridade mais vincada, seguramente vão apreciar o silencioso de escape da Akrapovic, que ajudará também a baixar o peso do conjunto.
A CFMOTO 1000MT-X está disponível em duas combinações cromáticas, tendo como base o cinzento e o verde-escuro mate que podem ser testas em qualquer concessionário da marca. As qualidades evidenciadas estão em linha com o nível geral de equipamento e o patamar de reconhecimento atingido pela marca. O que verdadeiramente surpreende é o seu PRVP de 10.490 €, um convite que se torna difícil de recusar por todos os que procuram uma Adventure entre os 750 cc e os 900 cc! Além disso, existe a possibilidade de adquirir a CFMOTO 1000MT-X sem entrada e sem juros…
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