Esta é uma abordagem diferente do Portugal de Lés-a-Lés 2025. Longe de ser uma reportagem exaustiva do evento organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal é, isso sim, uma visão bastante pessoal de quem teve uma participação… diferente. Afinal, há naturais e inegáveis diferenças entre uma motociclista e uma estátua, entre uma princesa e uma salteadora! Uma crónica na primeira pessoa que me atrevo a partilhar.

- Por: Mara Silva
- Fotos: Luís Carvalho e M.S.
O Portugal de Lés-a-Lés é o evento moto turístico que consegue a proeza de juntar mais amantes das duas rodas. Todos os anos são centenas de participantes que se inscrevem para usufruir de uns dias de excelentes paisagens, boa gastronomia e diversão.
Este ano, a encantadora cidade de Penafiel, conhecida pela sua história, belas paisagens e gente acolhedora, foi a escolhida para o prólogo e arranque do Lés-a-Lés 2025. É, para mim, o melhor dia, com um ambiente indescritível.





A entreajuda, o companheirismo, a partilha de histórias, o entusiasmo, a energia que se vive… não há igual. Revêem-se amizades (algumas só aqui as vemos), contam-se novidades, partilham-se planos de viagens…
Claro que o percurso, do Lés-a-Lés 2025 como de outros anos, é meio caminho andado para o evento ser um sucesso, mas, sem dúvida, que as pessoas que compõem esta caravana são essenciais. Quando me refiro a pessoas, falo da equipa que dá ‘o litro’ para que nada falhe, mas também dos participantes com a sua adrenalina contagiante.
Controlar com diversão
O Moto Clube do Porto (do qual, orgulhosamente, faço parte) é o único moto clube que faz postos de controlo desde a primeira edição, em 1999. Este ano não foi excepção, sendo convidado para assegurar três postos de controlo no Lés-a-Lés 2025. E este ano eu estava incluída na equipa dos postos de controlo do MCP.

Recebi o convite de forma animada, mas depressa o receio veio. Nunca tinha feito nada do género. E agora? E se não estou à altura? E se algo corre mal? Cada dia que passava o receio aumentava, mas o entusiasmo também. A equipa formada para os postos de controlo do MCP no Lés-a-Lés 2025 era fantástica: eu, a Tuxa, a Paula Ruivo, o Carlos Ruivo e o João Pimentel. Uma coisa era certa: a diversão seria garantida.
Tínhamos a nosso cargo três postos de controlo (um em cada etapa), só no dia do prólogo podia descansar. E foi isso que fiz… aproveitei para fazer, descontraidamente, o passeio de abertura. O ‘road-book’ alertava logo na primeira página para não levarmos pertences de valor, afinal de contas estávamos na terra do Zé Telhado.

Reza a lenda que, José Teixeira da Silva, nascido no lugar do Telhado, integrado numa família humilde, se tornou militar. Com a Revolução da Maria da Fonte, em 1846, foi um dos líderes da revolta popular. Chegou a receber o grau de Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada.
No entanto, quando terminou a Revolução da Maria da Fonte, a sua família entrou em graves dificuldades financeiras. É a partir desse momento que realiza um grande número de assaltos por todo o norte de Portugal. Fica conhecido por ‘roubar aos ricos para dar aos pobres’, um género de Robin dos Bosques português.
Em 1859 foi preso e partilhou a cela com o escritor Camilo Castelo Branco (que lhe presta homenagem nas ‘Memórias do Cárcere’) na Cadeia da Relação do Porto e de quem se tornou amigo. Ora, estava aguçada a curiosidade sobre o que nos reservava o Lés-a-Lés 2025.
Passado o pórtico inicial, nem um quilómetro feito e tínhamos paragem para visitar o que foi considerado o melhor museu de Portugal, em 2010. Está instalado no palacete dos Pereira do Lago e foi um dos últimos edifícios recuperados pelo arquiteto Fernando Távora. Quem está de fora não tem ideia da grandeza (quanto à beleza e também em tamanho) deste edifício. O museu tem várias salas temáticas, onde permite ao visitante adquirir conhecimento sobre a identidade da terra.
Lés-a-Lés 2025 começou com… roubos
Sem pressas, segui viagem até ao Castro do Monte Mozinho (dizem que foi o maior castro romano da Península Ibérica). A viagem do Lés-a-Lés 2025 seguiu e eis que a pandilha do Zé do Telhado nos apareceu à frente… Foram de tal forma profissionais na sua arte de roubar que deixaram os moçoilos do MC Conquistadores só de boxers (e botas de mota, vá lá)… Até as motas (só as dos ricos) foram roubadas…
Continuei viagem, com a minha mota e a minha singela roupa, por Entre-os-Rios, pela N108, com o Rio Douro a agraciar-nos a vista. Passámos por Quintandona, uma aldeia de xisto em plena Rota do Românico. A menos de uma hora do Porto, esta aldeia com o seu pelourinho, espigueiros, lavadouro público e ruelas estreitas transformam este lugar num local de encantar. Visitar Quintandona é entrar num mundo de paz, de silêncio, onde se consegue ouvir o nosso respirar e o chilrear dos pássaros, tantas vezes difícil de ouvir nas grandes metrópoles.
O passeio de abertura do Lés-a-Lés 2025 estava a ser fantástico e levou-nos ao Mosteiro de Paço de Sousa, onde está sepultado Egas Moniz. Aqui, tínhamos uma sopa seca à nossa espera e, para os mais gulosos, uma Torta de S. Martinho. Para quem não quis uma sopa seca, teve um caldo de Pessalhos no Oásis seguinte. Que bem que soube…
Trocar o blusão por vestido de princesa
E foi de barriga e coração cheio que chegávamos ao fim deste passeio de abertura, com a promessa que o melhor estava por vir. A primeira etapa do Lés-a-Lés 2025 já nos reservava o nosso primeiro controlo: na Torre de Vilharigues. Classificada como Imóvel de Interesse Público, não se sabe a origem desta Torre Medieval. Pensa-se que foi construída em finais do século XIII, por ter elementos arquitetónicos defensivos introduzidos no reinado de D. Afonso III.




Reza a lenda que a batalha de Toro, em 1476, opunha as tropas portuguesas e castelhanas. Entre os valentes guerreiros que se tornaram notáveis, conta-se Duarte de Almeida, a quem estava confiado o estandarte real português.
A luta foi dura, mas a superioridade dos espanhóis subjugou os portugueses que abandonaram o pavilhão real. No entanto, Duarte de Almeida, num ato de bravura heroica – e alguma loucura, digo eu! – rodeado de espanhóis armados, empunha de novo a bandeira, e defende-a com honra e glória. De imediato, um castelhano de espada em punho, corta-lhe a mão direita. Contudo, o português empunha com a esquerda o estandarte confiado à sua lealdade. Os espanhóis decepam-lhe também a mão esquerda.

Duarte de Almeida desesperado, mas indiferente à dor, toma o estandarte nos dentes e resiste sempre, acabando por ser levado, já moribundo, para o acampamento castelhano. Ao fim de muitos meses, voltou à pátria, e foi viver para o castelo de Vilharigues, ficando conhecido como o Decepado, graças a um ato de heroicidade admirado até pelos próprios inimigos. Em Portugal (quase) ninguém sabe quem ele foi nem que entregou a própria vida para salvar Portugal, mas depois deste posto de controlo do Lés-a-Lés 2025 muitos ficaram a ‘conhecer’ o Decepado.

Assim, enquanto as lindas donzelas recebiam os ‘guerreiros’ participantes do Lés-a-Lés 2025, o Decepado (ainda com as suas mãozinhas) protegia a pátria com grande fervor e sob um calor abrasador… Que só as maravilhosas vistas da paisagem e a simpatia das belas donzelas ajudava a suportar.
Alguns corajosos (mas poucos…) tentavam enfrentar o Decepado, mas a sua bravura afastava qualquer inimigo. E num dia que começou de forma bem madrugadora, já o sol ia alto, para lá do meio-dia, quando acabou a ‘batalha’ e as donzelas e os bravos guerreiros puderam ir refrescar-se para outros lados. O rumo era o Mosteiro de Alcobaça que se engalanou para nos receber no final da primeira etapa. Dia muito cansativo, um escaldão nos ombros, mas de sorriso no rosto por ter corrido bem.
O dia mais duro… por não fazer nada!
O segundo dia do Portugal de Lés-a-Lés 2025 ligava Alcobaça a Portalegre, ao longo de 275 quilómetros. Já perto do final da etapa, estava o nosso posto de controlo, em Castelo de Vide, na Casa da Inquisição.
A Inquisição Portuguesa foi estabelecida em 1536 e terminou em 1821. Existem alguns registos que indicam que foram queimadas vivas em autos-de-fé 1175 pessoas. Foram presas, torturadas e condenadas a vários tipos de penitências cerca de 30 mil pessoas. No entanto, estes números são os oficiais, pensa-se que estarão certamente abaixo da realidade. Esta Casa recria os cenários da época, com figuras (feitas em silicone) que parecem reais. Retrata a prisão, as torturas, o tribunal de uma forma tão realista que é impossível não nos arrepiar.

A Casa da Inquisição, em Castelo de Vide, não é um simples museu, é sim “uma experiência sensorial”. E se é para causar impacto, nada melhor que ser real…
Trajados a rigor misturámo-nos, nos cenários, com as figuras da época… Eu escolhi sentar-me no tribunal (afinal, já estou habituada) e, na mesma sala mas na outra ponta, estava a Tuxa. Éramos sete pessoas naquela sala: cinco de silicone e duas reais. Estávamos imóveis!

As mãos estrategicamente colocadas para não se ver o verniz das unhas. O vestido comprido colocado de forma a cobrir as botas da mota. Os olhos ‘vidrados’ mirando um ponto, para não piscarem… A respiração, quase em apneia, para não chamar a atenção…
O cenário recriava a condenação de uma herege e a ambiente era pesado… Fui a primeira a ir para o meu sítio. Estava tão imóvel que a senhora do museu olhava para as câmaras e dizia que não me via em lado nenhum… O mote estava lançado.

Quem entrava na sala comentava: “Isto é assustador de tão real!” ou “As figuras parecem verdadeiras”. Houve até quem se recusasse a entrar, com medo. Nós mantínhamo-nos estáticas…
Quando aparecia algum visitante sozinho e virava-se de costas (para nós) para ler a descrição da cena, eu tossia… As reações foram hilariantes. Os saltos que deram naquela sala muitos eram dignos de participar nos Jogos Olímpicos.
Os gritos e as dores de estar parada
De vez em quando, ouvíamos gritos do andar debaixo: era o Carlos Ruivo a assustar os mais incautos. Quando chegavam à nossa sala, alguns vinham desconfiados. Entravam a dizer: “Quem é que se vai mexer?” Mas nem nós sabíamos que conseguíamos a arte de não mexer durante tanto tempo…
Foram feitas apostas à nossa frente: uns diziam que éramos todos bonecos, outros diziam, que éramos reais.

Tive um senhor que esteve 5 minutos a olhar fixamente para mim… Mas sou do Norte, não fraquejo com facilidade! Ele saiu da sala sem saber se eu era real ou não. Em outro momento, um homem dizia que éramos figuras, quando ele saiu, rodei a cabeça e olhei de frente para a mulher… Ela saiu a afirmar que eu era real e o melhor? Foi o homem dizer que ela estava a ver coisas. Desculpem…. Ahahahah
Nós mantínhamos a nossa missão de estátua… Imóveis… Também houve os mais aventureiros: “Vamos apalpar todas as estátuas para ver quem é verdadeiro” … Já eu estava preparada para me transformar em padeira de Aljubarrota e aviar meia dúzia de ousados à chapada (não tinha pá), quando a Paula Ruivo entra na sala e diz: “É proibido tocar nos bonecos”. Ufa… Esta boneca agradeceu!
Mas nem sempre foi fácil a execução deste posto de controlo, muitas vezes me desmanchei a rir. Muitos dos participantes perguntavam-nos se fazíamos aquelas recriações todos os dias. Ahahah… Mal eles sabiam que éramos as donzelas da Torre de Vilharigues.

O engraçado era quem nos conhecia, não nos reconhecer… Por diversas vezes ouvi, “parece mesmo a Mara, é incrível” ou então “Não é a Mara? Parece ela… Mara? Ohhh Mara” (em tom tão alto que se ouviu em Alfena) Resultado? Gargalhada na certa.
Ou então, já para o fim do horário do posto de controlo, em que nos doía tudo e mais alguma coisa, estava bastante gente na sala e entraram os dois portugueses mais bem vestidos deste lés a lés (de kilt). O burburinho era o mesmo: quem será real… Só ouço um deles dizer: “Vou contar até três e levantamos o kilt e vemos quem reage” … Não contive a gargalhada. Com pena minha, que tive a oportunidade de saber se usavam o kilt de forma tradicional e não aproveitei.
As estátuas que ganharam vida
Foram seis horas longas e dolorosas fisicamente, mas tão ricas em divertimento que repetia já, se fosse preciso. Este posto de controlo na Casa da Inquisição ficou na nossa memória (e corpo) mas também na memória dos participantes do Lés-a-Lés 2025.

Nesse dia ao jantar, a dúvida ainda persistia em muitas pessoas. Estávamos na fila para o jantar e um grupo murmurava se éramos nós, quando eu aceno e sorrio, foi gargalhada geral entre todos… A estupefação ainda permanecia e os parabéns multiplicavam-se pela nossa performance. Nem nós sabíamos que conseguíamos ficar estátuas e caladas tanto tempo…
Foi com a sensação de dever cumprido que fomos descansar. Afinal de contas, ainda nos faltava o terceiro posto de controlo.

O último dia do Lés-a-Lés 2025 amanheceu nublado e mais fresco. O nosso posto era em Juromenha, com uma vista fantástica. Quem encontrámos ali? O Bando do Robin dos Rabiosques constituído pelo Robín, que perguntava a todos os homens: “a bolsa ou o rabiosque?”, o Frei Truca Truca, a Mariconete, a ArCUeira e a Little John.


Escondidos atrás das árvores, saltávamos para a frente das motos apanhando desprevenidos quem por ali passava. Apesar dos sustos, muitos quiseram inscrever-se neste bando, fazendo filas para serem aceites e marcados. E foi em ambiente de diversão e gargalhadas mil que finalizamos o nosso último posto de controlo deste Lés-a-Lés 2025.
Mas, afinal, como é estar num posto de controlo?
Ser ‘controladora’”’, não é fácil. Não nos permite fazer a maior parte do percurso. Obriga-nos a estar longas horas no mesmo local, faça frio, chuva ou calor. Muitas horas sem comer e, muitas vezes, no meio do nada. Exige trabalho prévio de estudo porque, afinal, os postos de controlo não se decidem num dia. São semanas a decidir o que vamos fazer, quais as roupas que temos de arranjar, qual o tema… O trabalho em equipa é fundamental.

É saber partilhar tarefas, ideias e responsabilidades. É aproveitar a criatividade de cada um para obter excelentes resultados. É saber comunicar, respeitar e cooperar entre todos. Não tenho dúvidas que foi a dedicação, colaboração e esforço de cada um que fizeram toda a diferença. Isso e todos os participantes do Lés-a-Lés 2025 que por nós passaram, contribuíram para o sucesso destes postos de controlo.
Estar dentro da máquina do Lés-a-Lés 2025 é isto: a liberdade da criatividade, a entreajuda, a partilha, o sacrifício, mas também o conhecimento de novos lugares, culturas, hábitos, usos e costumes… É permitir juntar a liberdade da mota, o vento a bater na cara, o nervosismo das curvas com o convívio, as longas conversas, a diversão. O Lés-a-Lés é isto: vibrante e contagiante… Por isso um grande bem-haja a todos e beijinhos da estátua mais real que já viram!

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