Será que Elspeth Beard foi a primeira mulher a dar a Volta ao Mundo de moto? E que importância tem esse facto na vida da pioneira britânica? Depois de revelar algumas peripécias de uma jornada ímpar na primeira parte da entrevista, há mais histórias e aventuras para descobrir. Que isto de andar de moto sozinha em redor do planeta nos anos ’80 tem muito que se lhe diga…

- Por: Paulo Ribeiro
- Fotos: Delfina Sordo
Numa era em que ser o primeiro em qualquer coisa tem uma importância quase inversamente proporcional à da real valia façanha, Elspeth Beard garante “nunca ter corrido pelos recordes. Isso é uma verdadeira aberração para quem gosta, pura e simplesmente, de viajar. Se fui a primeira a dar a Volta ao Mundo? Não sei, nem sequer representa uma preocupação”, garante de forma assertiva enquanto deixa escapar mais uma das suas gargalhadas. Seca e sonora como a resposta que se segue. “É sempre discutível dizer quem foi a primeira… Afinal”, continua Elspeth Beard de forma pertinente, “deve considerar-se uma viagem contínua? Deve ser usada sempre a mesma moto? Quantos continentes deve cobrir? Quantos países deve abranger?”.

Historicamente é atribuída essa honraria à francesa Anne-France Dautheville que, em 1973, foi de França ao Alasca, passando por países como o Canadá, EUA, Japão, Índia, Paquistão ou Afeganistão, Irão, Turquia, Bulgária, Jugoslávia, Áustria e Alemanha antes do regresso a França, ao longo de 20.000 quilómetros feitos com uma Kawasaki de 100 cc emprestada por um amigo. Em 1975 dá a volta à Austrália com uma BMW R75 e mais tarde, em 1981, a aventura passou pela travessia da América do Sul, numa Honda XL250.
Sem pensar em recordes
Mas Elspeth Beard garante que “nem sequer é importante ser a primeira ou a única ou… O que é importante é que fiz a MINHA viagem. Além do mais, e apesar de ser britânica, não gosto de títulos. A verdadeira questão é que, quando fiz a minha viagem, não era disso que se tratava. E acho que, hoje em dia, quando as pessoas fazem viagens, têm de ter um título. Procuram uma distinção, bater recordes. Ser o primeiro, o mais velho, o mais novo, seja o que for, o maior número de países, maior número de milhas…”

A bem da verdade e por uma questão de rigor jornalístico, Elspeth Beard conquistou e manteve por muitos anos o recorde de motociclista mais jovem a dar a volta ao mundo. Afinal, quando se lançou à aventura que levou a BMW R69/6 a atravessar 20 países ao longo de mais de 56.000 km, tinha 23 anos, terminando com 25! E estamos a falar de uma mulher, sozinha com a sua moto, no início da década de 1980, através de alguns países com mentalidades muito fechadas.

“Essa não é, nem foi a questão. Isso não é importante e não foi por isso que viajei e essa é a grande diferença” faz questão de sublinhar Elspeth Beard que, aos 66 anos, deixa um conselho às raparigas que começam agora a andar de moto e sonham com a liberdade ímpar de uma grande viagem. “Comecem com pequenos passos, andando na sua zona de conforto, mas indo sempre um pouco mais longe. Um passo de cada vez. Felizmente já não há o estigma dos anos ’80 quando diziam que as mulheres não podiam conduzir motos grandes. Na verdade, isso pode gerar alguma falta de confiança, mas não pode limitar os sonhos”.
O exemplo vivo de Elspeth Beard
Agora, com cada vez mais mulheres a conduzir, a viajar, o exemplo cria mais vontade de fazer o mesmo. Afinal, se ela pode eu também posso! Panorama bem diferente do que se vivia em Londres em 1970/80 onde, recorda Elspeth Beard “não conhecia outras mulheres que andassem de moto. Se calhar atá havia, mas os tempos eram outros e não existiam redes sociais”. Sem o ensejo de esconder-se atrás de um ecrã digital, Elspeth Beard recorda tempos bem diferentes. “Naquela altura entrar numa loja de motos para comprar peças era um exercício exigente… para os nervos”, recorda na aprazível conversa no espaço da NorthRoad.

E com um esclarecedor encolher de ombros continua: “Eles (os homens) olhavam e comentavam, riam-se e mandavam umas bocas. Era uma espécie de piada naquele meio, mas nada disso me preocupava. Não foi fácil… mas não me importava muito. Estava a fazer as minhas coisas e levava a vida serenamente. Estava a estudar arquitetura, no terceiro ano de um curso de sete anos”.
Mas aí, num instante, o bater de asas de uma paixão arrebatadora mudou a vida de Elspeth Beard. Porque nem sempre o racional consegue controlar o emocional.
Movida pela paixão… desfeita
Algo que a Vida nos ensina prende-se com a volatilidade, a imprevisibilidade que rodeia cada dia. Onde cada decisão pode, irremediavelmente, mudar o rumo do destino, obrigar a ponderar e repensar o futuro. Acontece a todos e aconteceu a Elspeth Beard. “Estava a terminar a primeira fase do curso de arquitetura, os três anos de bacharelato, e, a cerca de dois ou três meses do final, terminei com um rapaz por quem me apaixonei nesses anos de estudante”.

Apanhada numa encruzilhada de emoções fortíssimas numa altura crucial da vida académica, Elspeth Beard fez… o inesperado! “Estava realmente infeliz, com o coração partido, e por estive muito mal nas provas finais. Por isso tenho um diploma de conclusão do terceiro ano, que é… muito mau!”. Colocando tudo em causa, completamente perdida, sem saber mesmo se queria continuar com o curso de arquitetura, Elspeth Beard estava mesmo à beira do abismo quando decidiu dar o passo mais radical. Afinal, por vezes, a solução está mesmo ao virar da esquina…

“Mudei toda um percurso de vida por uma desilusão amorosa, mas, foi engraçado, porque ao perder uma paixão descobri outra paixão ainda mais forte. Não sabia o que fazer, não sabia se devia continuar a estudar arquitetura ou não, e não sentia (sobretudo depois do desapontamento no final do 3.º ano do curso) se a arquitetura era a minha vocação. Se era o que queria fazer o resto da vida”. Mas Elspeth Beard, dona de grande pragmatismo, aplicou a maior bom-senso que conseguiu na busca da melhor saída da crise.

“A verdade é que não podemos parar, nunca. É preciso continuar em movimento, mesmo se estava quase a entrar numa depressão. Talvez hoje em dia fosse mais fácil resolver, com psiquiatras e medicamentes. Mas um dia acordei e disse: Foda-se, vamos lá! Senti que precisava de escapar daquela prisão. Basicamente estava a tentar fugir. De Inglaterra e do Alex. Nem sequer sabia o que queria mesmo fazer”. E por isso, Elspeth Beard tomou a decisão que haveria de mudar-lhe a vida.
Abdicar do anunciado conforto de uma vida boa
“Foi nesse preciso momento que decidi. Vou viajar. Foi uma espécie de afirmação perante ele, perante os meus pais, mas sobretudo para mim mesma”, continua Elspeth Beard aproveitando as mãos longas e os dedos esguios, mais próprios de cirurgião ou pianista do que de uma calejada motociclista.

Momento de rebeldia que ajudou a ‘acordar um monstro adormecido’. As motos já tinham entrado na vida e no sangue de Elspeth Beard. E como bem se sabe, depois de instalado, não há forma de eliminar o ‘vírus’. Mesmo que isso tenha abalado fortemente a estrutura familiar. “Foi particularmente forte para os mues pais que esperam muito de mim, como também de minha irmã mais velha e de um irmão mais novo. Para eles, a educação era muito importante. Especialmente para as mulheres, o que eu sei que soa óbvio agora. Mas, há 45 anos, não era assim tão óbvio. Mas eles acreditavam muito na minha educação e da minha irmã”.

Assim, Elspeth Beard e a irmão frequentaram as melhores escolas que o dinheiro podia pagar. “Eles conseguiram atingir um nível de vida muito elevado, mesmo tendo começado sem nada, mas por força de um trabalho muito árduo ao longo de toda a vida”. Médicos de formação, estiveram ligados ao sistema nacional de saúde do Reino Unido (NHS), o que o pai, especializado em psiquiatria, aliava ao trabalho no consultório privado.

“Era um homem brilhante, altamente inteligente e tornou-se um psiquiatra muito conhecido, publicando muitos artigos científicos. E sempre quis o melhor – ou o que considerava melhor! – para os filhos”. Por isso apresentou três opções a Elspeth Beard: “Deveria ser médica, como primeiríssima opção pois claro; dentista (não sei de onde saiu esta) ou advogada”. A resposta foi rápida, inequívoca e surpreendente. “Ia para uma faculdade de artes e isso foi o fim do mundo para ele. Afinal a filha ia ser ‘artista’. Foi um verdadeiro terramoto ainda que tenha acabado no curso de arquitetura, que era assim como que o lado respeitável da arte”.
Um livro que demorou 35 anos a ser publicado
Momento de mudança que os pais de Elspeth Beard acabariam por aceitar, ultrapassando o desapontamento inicial de quem via as artes como um verdadeiro desperdício depois de uma tão completa edução inicial. “Na realidade ele nunca aprovou verdadeiramente, até porque tinha uma visão muito, muito estranha. Era um homem com tanto de extraordinário quanto de excêntrico”. Mas o pior ainda estava para vir!
O sofrimento por amor que levou Elspeth Beard a abandonar o curso de arquitetura e lançar-se na maior viagem da sua vida, gerou outras dores. “Eles acharam que tinha perdido o rumo, que tinha tomado a pior decisão possível e estavam naturalmente muito preocupados. Pensaram que estava a tomar um caminho errado, muito errado”. E se o pai “nunca disse nada sobre a viagem antes de partir”, já a mãe fez “tudo o que podia para me impedir de partir”.


Olhando serenamente para o passado, Elspeth Beard acredita que o pai “estava bastante orgulhoso do que estava tentando fazer. Mas ele não podia dizer nada. Porque a minha mãe era perfeitamente contra”. O que acabaria por se refletir no momento do regresso com enorme indiferença. “A minha mãe fingiu que nada tinha acontecido e eles nunca reconheceram a minha viagem, nem viram isso como qualquer tipo de conquista. Nada! Aliás, ao regressar foi como se nunca tivesse ido. E até pensaram que eu me tornaria uma pessoa normal”, conta a viajante com mais uma das suas gargalhadas secas e sonoras.

Um regresso à normalidade que viu Elspeth Beard de regresso à faculdade, terminando o curso de arquitetura e enveredando na segunda maior aventura da sua vida. “Comprei uma velha torre de abastecimento de água num leilão, a Munstead Water Tower, em Godalming, no condado de Surrey, e passei sete anos a ultrapassar a burocracia para a transformar na minha casa, a cerca de 30 milhas de Londres”.


Projeto de grande intensidade e empenho pessoal que acabou por fazer passar para segundo plano a viagem em redor do mundo. Até porque uma nova paixão – que vamos desvendar na terceira parte desta entrevista – também a fez querer esquecer essa aventura. Que, no entanto, ficaria a remoer durante várias décadas até ganhar alento para publicar o livro ‘Lone Rider’, 35 anos depois de terminar a maior viagem da sua vida.

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