Elspeth Beard (3). O coração destroçado e um livro… 35 anos depois

Autor:  Paulo Ribeiro

Setembro 2, 2025

Elspeth Beard foi a primeira britânica a dar a volta ao mundo de moto. E, bem vistas as coisas, talvez se possa mesmo considerar como a primeira mulher a conseguir tal façanha. O importante mesmo foi fazer a SUA viagem, que começou depois de um desgosto amoroso e terminou com nova paixão arrebatadora.

Elspeth Beard
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  • Texto: Paulo Ribeiro
  • Fotos: Delfina Sordo

Há quem diga que a primeira mulher a ‘dar a volta ao mundo’ foi a francesa Anne-France Dautheville, em 1973, e não Elspeth Beard. Algo a que a britânica não dá grande valor, mesmo se a lógica apresentada na segunda parte desta recheada entrevista o justifique plenamente. Cada uma cumpriu o seu sonho, mesmo se de formas e com objetivos diferentes. E com histórias naturalmente diferentes.

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Para Elspeth Beard “o importante mesmo foi fazer a MINHA viagem. Ter vivido o que vivi, conhecer o que conheci e ver o vi. O resto pouco me interessa. Foram momentos inesquecíveis mesmo se houve algumas coisas menos boas pelo meio. E sobretudo no final…” Aqui chegada, Elspeth Beard refreou o discurso, baixou os olhos, deixando adivinhar um pensamento que não estava no ‘script’. Um sentimento doloroso perpassou o rosto marcado pela vida logo seguido de um suspiro profundo. Não de quem quer esquecer, mas de quem assumiu a coragem de o ultrapassar. E continuar a viver.

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Insistimos para que desvendasse o segredo, mas com muitas cautelas, com receio de abrir feridas antigas. Novo suspiro e um olhar de frente antes de começar a desfiar memórias de uma história sofrida. “Dois anos naquela fase da vida é muito tempo. São muitas mudanças, muitas emoções para alguém tão jovem. Note-se que os tempos eram outros, em tudo diferentes dos dias que correm. E quando cheguei a Londres pensava que iria recuperar a vida normal. Mas na verdade, nunca mais foi o mesmo”, recorda Elspeth Beard que volta a inspirar profundamente para continuar uma revelação que, manifestamente, ainda mexe com os sentimentos.

A dor da indiferença

“Os meus pais praticamente ignoraram esse período. Nunca quiseram falar da viagem ou desses anos. Acho que o problema foi porque poucas pessoas faziam esse tipo de viagem. Aliás, havia muito menos pessoas a viajar, fosse de moto, automóvel ou avião. Mesmo os meus amigos não conseguiam entender e, simplesmente, não tinha ninguém com quem pudesse falar sobre isso. Senti-me muito deprimida e foi realmente muito duro porque ninguém entendia o que eu tinha passado. Os meus pais realmente não queriam saber e nem os meus amigos estavam interessados em falar sobre isso.”

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Algo que Elspeth Beard precisava partilhar, desfiar vivências e emoções. Falar para poder prosseguir a vida que todos tinham sonhado para ela. Mais do que ela própria. “Tinham sido dois anos incrivelmente intensos… Dois anos onde cada minuto de cada dia era utilizado para tentar sobreviver ou lidar com coisas desconhecidas. Há muitas informações que gostaria de transmitir até porque estava completamente mudada como pessoa”.

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Momentos duros para Elspeth Beard, sentindo-se “muito separada, completamente afastada das pessoas e do mundo. Foi um verdadeiro carrossel de emoções. Mais: Uma enorme montanha-russa! A decisão de partir para esta viagem deveu-se, em boa parte, a uma enorme desilusão amorosa. Saí com o coração partido, mas regressei… apaixonada”.

As paixões de Elspeth Beard

A rotura com Alex, o namorado que deixou para trás ao arrancar no seu périplo, fez com que Elspeth Beard tenha “partido com o coração destroçado. mas, na verdade, regressei verdadeiramente com um novo amor. Robert. Um holandês que conheci quando estava viajando”. Uma história de curiosas semelhanças entre “duas almas perdidas em busca do seu destino”.

“A verdade é que Robert passou por algumas dificuldades em ajustar a sua vida na Holanda e emigrou para a Austrália. Mas por não encaixar decidiu voltar. Mandou todas as suas coisas para casa e decidiu regressar de moto”, recorda Elspeth Beard enquanto vai usando os dedos como espécie de índice. Para não falhar pitada da história.

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“Conhecemo-nos em Katmandu, no Nepal, e voltamos a encontrar-nos na Índia, viajando juntos pelo Paquistão, Irão, Turquia e por aí fora até à Holanda. Aí ficou muito complicado, porque tudo o que tínhamos era um ao outro. Porque ele era a única pessoa que eu tinha que podia entender o que eu tinha passado. O que nós passamos. Era complicado relacionar-nos com outras pessoas porque ninguém conseguia entender. Se começássemos a falar sobre estar no deserto e ter um furo ou uma avaria, em não ter água ou fazer isto ou aquilo, as pessoas, nessa altura, não conseguiam entender”.

Uma curta paragem para ganhar fôlego e Elspeth Beard continua: “Claro que, agora, as pessoas que nunca tiveram essas vivências podem entender um pouco melhor, porque têm televisão, imagens, internet e conhecimentos desses locais. Há pessoas que já fizeram isso antes”. No entanto, sendo uma pioneira, Elspeth Beard, recorda que “nessa altura talvez houvesse outros viajantes, pessoas que nos entenderiam, mas era praticamente impossível encontrá-los até porque não existia internet e outras facilidades atuais. Agora é possível (e fácil) aos viajantes encontrarem-se e ter coisas semelhantes para conversar, experiências para trocar”.

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Com memórias tão intensas e um pragmatismo próprio de quem sempre desbravou o seu caminho, Elspeth Beard reconhece que, “claro que havia pessoas que viajavam pelo mundo, mas só conseguíamos saber através de eventuais artigos em revistas de motos. E para encontrá-los a hipótese era procurar o seu nome numa lista telefónica, daquelas verdadeiras, com centenas de páginas em papel fino, ou até escrever uma carta, sim uma carta em papel, com selo e carimbo, para tentar chegar à fala com eles”.

Histórias escondidas numa caixa de sapatos

As histórias de viagens, os sentimentos de quem arrisca conhecer Mundo e as vivências de quem tem a estrada por leito são o combustível que aquece a alma dos viajantes. São momentos únicos e experiências singulares. Que, no caso de Elspeth Beard, ficaram guardadas. Escondidas durante mais de três décadas numa caixa de sapatos, dentro de um móvel da cozinha.

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Notas e apontamentos, fotos e recordações, protegidos dos olhares alheios de quem não conseguia entender esses sentimentos. E se, hoje em dia, a intensidade e imediatismo da comunicação leva a que qualquer viagem seja divulgada aos sete ventos, a verdade é que, caso de Elspeth Beard foi preciso esperar 35 anos pela publicação do livro ‘Lone Rider’.

“A questão”, retoma a britânica, “é que, quando voltei, ninguém estava interessado na minha viagem. Também não tinha feito a viagem para ser conhecida ou para lançar livros. Eu fiz por mim mesmo! E como ninguém estava interessado, guardei tudo numa caixa e continuei com a minha vida. Comprei a torre de água, tive um filho, etc, etc… E foi apenas em 2000 que a coisa voltou a ser falada”.

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Elspeth Beard 18 - MotoX

Uma espécie de segredo que Elspeth Beard nunca se esforçou para esconder mesmo se “nunca tinha falado sobre a minha viagem e ninguém sabia que eu tinha feito isso, além de amigos e familiares. Até que um dia um dia, o meu amigo Paul estava a conversar com Andy e mencionou que eu tinha feito essa viagem. E ele pediu-me para escreve um pequeno artigo sobre a viagem para colocar no nosso site. Essa foi a primeira vez que a história apareceu na internet, com aquela foto a preto e branco de quando voltei que, aparentemente, se tornou icônica ou o que quer que seja”. Mas nada tinha preparado a intrépida viajante para o que vinha a seguir…

Não ao estrelato em Hollywood

Curiosamente foi essa foto, amplamente difundida pela internet sem que Elspeth Beard fizesse a mínima ideia que valeu um inusitado contacto. “Em 2014, um agente em Hollywood encontrou a minha história na internet, e enviaram um e-mail porque queriam escrever para a minha história para fazer um filme. Iria ser uma estrela de Hollywood (risos e mais risos). Aí eles convidaram para ir a Hollywood onde conheci guionistas e produtores e descobri toda a máquina do cinema”.

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Sem tocar na caixa de memórias há 35 anos, Elspeth Beard “queria que houvesse um registo preciso da minha viagem real. Não que Hollywood se apoderasse disso e fizesse algo sem nexo, sem as verdades vividas ao longo de dois anos. Aliás, senti que queriam fazer um filme sobre uma mulher andando ao redor do mundo e só queriam anexar o meu nome para conferir veracidade e consistência. Acabei por sentir que não seria a minha história e disse: Obrigado, mão não!”

No entanto esta viagem acabou por ter o condão de despertar memórias adormecidas desde o regresso a Londres, e levou Elspeteh Beard a começar a escrever em 2015. “Pensei que, afinal, talvez as pessoas estivessem interessadas no que eu fiz. E durante os dois anos que demorei a escrever, percebi que era um processo muito interessante, porque nunca tinha percebido o quanto a minha viagem tinha moldado o resto da minha vida e mudado a forma de ser e de estar na vida”.

Até à publicação de ‘Lone Rider’, em 2017, Elspeth Beard percebeu realmente a importância ‘daquela’ viagem na sua vida. “Só escrevendo o livro percebi, por exemplo, que não teria tido coragem de comprar a torre de água, por exemplo. Porque quando a comprei num leilão não tinha dinheiro para isso. E, não menos importante, era a necessidade em obter as licenças e a permissão para convertê-la em uma casa pelo que precisava conseguir mudança de uso para habitação. Acontece que no poder local, disseram, porque ninguém tinha convertido uma torre de água, que não sabiam como lidar com isso e não dariam a aprovação para convertê-la numa casa”.

Problema sério? Isso é estar no deserto sem água…

“Mas na verdade isso não era um problema. Ou pelo menos não via isso como um verdadeiro problema, talvez depor causa de todas as experiências e de todos os problemas que tudo o que tinha lidado na minha viagem de volta ao mundo. Esses sim, eram problemas reais, como tentar sobreviver no deserto, com avarias mecânicas e sem água”. Dona de uma filosofia de vida que prefere ‘antes quebrar que torcer’, Elspeth Beard viu-se “obrigada a apelar até ao Governo depois de todas as recusas da autarquia e dos serviços locais que não queriam ser responsáveis por aprovar algo que nunca tinha sido aprovado antes”.

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Após um ano e meio de luta intensa, conseguiu finalmente a autorização para transformar a torre de água na sua casa, numa obra emblemática na carreira arquitetónica. Um estilo diferente, ousado sem fugir aos materiais e traços originais, num equilíbrio que, afinal, projeta os sonhos de uma vida. “Esse é o meu estilo e as pessoas vêm ter comigo porque querem algo diferente”. Se nunca ter tido necessidade de publicitar o seu trabalho, Elspeth Beard reconhece que o grande trunfo “fazer aquilo em que realmente se acredita. Seja numa viagem ou no trabalho. Agora, depois de fazer isso ao longo 30 anos, as pessoas, quando querem uma abordagem diferente ou alguém pense fora da caixa, procuram o meu trabalho”.

Portugal ainda é genuíno

Pronta para descobrir Portugal a convite da North Road, Elspeth Beard recorda a primeira vez que esteve no nosso País, fazendo o Caminho entre a Sé do Porto e a Catedral de Santiago de Compostela. “Foi um bom passeio e uma surpresa enorme perante tanto verde e tanta exuberância da paisagem. E de um sentimento de genuinidade. Disso gostei imenso, até porque lembrou-me como era a Europa antes de ‘ser estragada’, procurando a uniformização, tentando fazer com que todos os países sejam iguais. Portugal ainda mantém um carácter distinto e único o que valorizou esta viagem”.

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Encantada com o verde intenso do Minho e com a omnipresente vista do mar, Elspeth Beard entende que “Portugal sente-me mais agarrado à sua identidade do que muitos outros países, o que é muito bom. É que a União Europeia é grande a muitos níveis, mas tentar tornar todos os países iguais, ou pelo menos alinhados, essa uniformização é uma asneira. Além disso, o que torna a Europa realmente grande é o facto de sermos todos tão diferentes e não devermos tentar ser iguais. Devemos celebrar as nossas diferenças. Devemos orgulhar-nos das coisas que nos tornam diferentes”.

Apontando os exemplos de Espanha, França ou mesmo a Grã-Bretanha nessa “dualidade entre as diferenças naturais e a pressão de homogeneização ditada, ao fim e ao cabo, pelo dinheiro”, Elspeth Beard defende “a diferença entre as pessoas e a forma como pensam”.

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Por isso mesmo ficou “encantada com o norte de Portugal, bastante rural, recordando imagens da juventude”, algo que a encanta. “É bom sentir as diferenças entre os diversos lugares e preservá-las dentro das possibilidades”. Filosofia que aliás transporta na sua abordagem à arquitetura, preservando os valores e a história dos locais.

“Aliás”, remata Elspeth Beard, “quando se viaja – e pode não se perceber isso de imediato – mas estamos sempre a aprender. Acabamos influenciados pelas vivências das nossas viagens. Seja numa volta ao mundo ou numa saída de fim de semana. E essa é a maior magia de viajar”.

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