Elspeth Beard é um nome bem conhecido dos viajantes. Sonhou pilotar caças, mas acabou por concretizar outra paixão e tornou-se arquiteta. Pelo meio foi, simplesmente, a primeira britânica a dar a volta ao mundo de moto. Estávamos nos anos ’80 do século passado e esta era uma verdadeira aventura. Sobretudo para uma mulher. E sozinha!

- Por: Paulo Ribeiro
- Fotos: Delfina Sordo
Quando visitou Portugal pela primeira vez, Elspeth Beard prometeu regressar. Percorreu, a pé, o Caminho de Santiago, entre as catedrais do Porto e de Compostela, e enquanto caminhava, jurou que voltaria… de moto. As paisagens, de tão variadas e irresistíveis, e as gentes, de tão acolhedoras e simpáticas, despertaram um sentimento de paixão como só os viajantes sentem.
Despojada de preconceitos, sem ideias feitas ou estereótipos, interagiu com as populações. Sentou-se à mesma mesa e aceitou o colchão para descansar das exigências de um dia de caminhada. “Foi uma viagem diferente, mais lenta do que de moto, mas tão ou mais enriquecedora. O tempo, a calma, ajuda a fazer parte da paisagem, a apreciar cada metro de caminho e a entender as pessoas. A perceber os modos de vida e as suas crenças”.

Ficou a vontade de voltar. E Elspeth Beard voltou em 2019. Ainda que não fosse para a desejada volta motociclística, mas a convite do Lisbon Film Festival. “Foi voar, passar um dia em Lisboa, participar numa animada conversa no palco e fazer um passeio noturno. Foi muito interessante, com muitas centenas de motos a circular pelas ruas da cidade, de madrugada”. Mas a possibilidade de descobrir paisagens, a gastronomia e as gentes, haveria de surgir mais tarde…
Regresso a Portugal… só com mulheres
Voltou agora porque surgiu um convite diferente e entusiasmante. Elspeth Beard estava a fazer um périplo pelos Estados Unidos dando a conhecer os seus livros, em 2018, quando encontrou Bill Kniegge na Carolina do Sul, um dos sócios da Blue Strada Tours, associado da conhecida empresa portuguesa NorthRoad. “O convite surgiu a meio da conversa porque ele disse que fazia tours na Europa e eu contei-lhe que em 2015, tinha comprado uma casa em ruínas em Itália. E que, quando a casa estivesse reconstruída, queria fazer passeios de moto no norte de Itália”.

A partir daí Elspeth Beard manteve o contacto regular com Bill até que surgiu a possibilidade de fazer um tour em Portugal apenas com mulheres motociclistas. Algo que é normal ver agora, mulheres a conduzir motos ao longo de grandes viagens, e que era extremamente raro nos anos ’70 do século passado.
Elspeth Beard sorri levemente, primeiro, e solta uma gargalhada logo depois enquanto recorda o quão “incomum era ver uma rapariga de 23 anos a querer conhecer o mundo e a viajar sozinha”. Mas a britânica estilhaçou preconceitos e começou a andar de moto em 1977, com 16 anos, com uma Husqvarna e logo depois com a primeira moto de estrada, uma Suzuki.
“Eram motos muitos diferentes da atualidade. Depois comprei uma pequena moto de 100 cc, mais tarde as 250 cc e a BMW R60/6, em 1979. O que foi quase um escândalo porque na altura as mulheres não andavam em motos grandes. É certo que algumas circularam em motos mais pequenas e scooters, mas não eram encorajadas a utilizar máquinas de grande cilindrada e pesadas. Era um meio machista a começar pela imprensa especializada que via o motociclismo como coisa de homens, e continuando nas lojas de equipamentos”.

A inexistência de um simples casaco de corte feminino ou botas com números de senhora eram obstáculos de peso, mas não intransponíveis. “Os casacos eram apertados onde não deviam e largos onde não fazia falta. Estava tudo no lugar errado. E as botas eram muito grandes, enormes para quem usava um 37 ou 38 no máximo! Por isso costumava colocar folhas de jornal, para que não escorregassem o tempo todo. Isto é, não havia que arranjar desculpas para não andar de moto, para dar uns passeios. Agora é muito fácil encontrar um bom par de botas no tamanho mais confortável, mas naqueles tempos era realmente complicado se não mesmo impossível”.
Na verdade, aquilo que parecia uma contrariedade enorme para outras mulheres, desanimando-as de andar de moto, era apenas mais um desafio para Elspeth Beard. “Só queria andar de moto e por isso aceitava as condicionantes sem muitos problemas. Nunca me incomodou particularmente porque o importante era ter um casaco que evitasse que ficasse completamente molhada e gelada”.
Claro que os tempos eram outros e, recorda Elspeth Beard, “naquela época, as pessoas olhavam e diziam: Oh! olha aquela pobre menina, andando de moto. Claro que sabia que estava longe de ser a rainha da elegância com aquelas roupas, mas, sinceramente, foi algo que nunca me preocupou minimamente. Eu não andava de moto para ser elegante, mas sim porque adorava andar de moto. Eu só queria desfrutar da condução e da sensação de liberdade de uma moto”.
O momento de loucura de Elspeth Beard
Longe de poder ser considerada uma mulher normal para os padrões da época, Elspeth Beard desafiava constantemente os cânones pré-estabelecidos por uma sociedade que tardava em dar passagem ao futuro. “Na verdade, se era raro ver uma mulher andar de moto, ir sozinha dar a volta ao Mundo era coisa de loucos. Claro que, hoje em dia, é mais fácil, bastante mais acessível, com sistemas de navegação, telemóveis sempre conectados…”

“Naquela época não havia telefones portáteis, as ligações nem sempre eram fáceis, e mesmo as câmaras fotográficas eram de película. E ninguém queria perder essas fotos! Agora, com a internet disponível em todo o lado e com a evolução tecnológica, é possível colocar de imediato todas as histórias nas redes sociais, mostrar ao mundo o que se está fazendo”.
E à pergunta que todos fariam, se são muitas as diferenças entre viajar naquele tempo e agora, Elspeth Beard não tem dúvidas. “Estou muito grata por ter viajado quando viajei. E sem tecnologia! Fico mesmo feliz por ter viajado sem tecnologia porque foi uma verdadeira aventura. Agora, olhando para trás, sinto-me como uma verdadeira exploradora. Um sentimento que vivi na época, quando estava lá fora, explorando o mundo, fazendo algo que ninguém mais tinha feito, ultrapassando limites”.
“Mas, afinal, isso não foi um ato de heroísmo premeditado. Simplesmente porque “não sabia o que era toda essa tecnologia, não existia GPS e simplesmente tinha de lidar com o que havia. Também não sabemos como será daqui por 10 anos, pelo que temos de aceitar o momento em que estamos e utilizar as ferramentas disponíveis. Era o que era, e olhando para trás… era bem divertido.”
“Claro que era mais fácil perdermo-nos e ter de perguntar às pessoas o caminho certo” recorda divertida Elspeth Beard. Que não esconde que teve alguns momentos de receio até porque “ninguém, nem a família nem os amigos, sabia por onde andava. Sem telefone estava completamente sozinha. E se algo acontecesse… Era como estar num trapézio sem rede!”
Algo que a aventureira britânica vê como a grande diferença para as viagens da atualidade. “Agora, pelo contrário, é impossível estar sozinho” diz Elspeth Beard que recorda “um desafio muito grande, onde se surgisse um problema, um acidente ou um problema mecânico era a única pessoa que o podia resolver. Isso foi realmente um desafio muito grande, e que levou a grandes mudanças pessoais. Aprende-se muito sobre nós próprios, sobre as capacidades e os limites pessoais. E percebi que podia fazer qualquer coisa, que não havia um problema que não pudesse resolver”.
Jornada de emancipação
Uma viagem de mais de 56 mil quilómetros, entre 1982 e 84, que foi uma jornada de emancipação para Elspeth Beard que reconhece que, “ao sair de casa, com 23 anos, não sabia muito sobre nada. Saí com o poder da juventude e aprendi mais em dois anos de viagem do que em 20 anos na Grã-Bretanha. Foi uma experiência de vida em tudo, foi realmente uma mudança de vida. Cresci muito interiormente e ganhei uma confiança, uma crença em mim mesmo, que passei a acreditar que podia fazer qualquer coisa. Não havia nada que eu não pudesse fazer depois de lidar com tantos problemas ao longo do caminho”.

Aprender a lidar com os desafios e relativizar os problemas, abordar cada situação da melhor forma e encarar as pessoas de frente, ajuda a enfrentar o Mundo. Algo que ninguém pode ensinar, mas que é necessário aprender. Como o fez Elspeth Beard enquanto descobria que, “também por isso viajar é tão bom, oferecendo desafios que nunca encararia de outra forma, aguçando sentidos e tornando-nos mais fortes”.
E por isso continuou sempre a viajar. Pela América do Sul e por África. E também por isso tirou o ‘brevet’ de avião para descobrir, voando, a Austrália e o, ainda e sempre, misterioso continente africano. E foi de moto de Kathmandu para Lhasa, entre o Tibete e a China. E levou 23 motociclistas a dar a volta ao Mundo, em 2003 recorda Elspeth Beard.
A prisão das redes sociais
Claro que as facilidades aportadas com o incremento da tecnologia alteraram profundamente a forma como se viaja. Mudanças que Elspeth Beard compreende, mas que não mudam a maneira como encara cada viagem. “Viajar é experimentar o mundo, as culturas, as pessoas. E quando se está tão obcecado a olhar para o telefone, a fazer vídeos ou fotos, a tratar do canal no YouTube ou do blog, não se está realmente a imergir no país e nas pessoas. Nem se pode aprender sobre essa cultura ou vivenciá-la quando se está de olhos postos noutra coisa”.

Salvaguardando a vida privada e manifestamente pouco adepta das redes sociais, garante que faz “apenas dois ou três post’s por ano mesmo tendo Instagram e Facebook” e tão pouco se mostra muito preocupada com a possibilidade de aumentar as vendas do seu livro ‘Lone Rider’. “Isso sim, pode ser considerado um contributo para os viajantes… se o quiserem ver como tal”.

No entanto Elspeth Beard está perfeitamente “consciente que a tecnologia mudou a forma e o espírito de viagem. Claro que tem um lado positivo ao dar às pessoas a confiança e o conforto para viajar, para arrancar. E isso é fantástico, haver muito mais pessoas a viajar viajam agora, muito mais pessoas que experimentam o mundo”. Mesmo se, acrescenta a britânica, “ficar sem a certeza se conseguem aproveitar tanto quanto poderiam, de conseguem ter a melhor experiência da viagem, porque são um pouco obcecados com suas redes sociais, o número de likes e as interações”.
Mulher prática, capaz de ver a resposta antes do problema, Elspeth Beard deixa um conselho – em jeito de desafio – aos viajantes dos tempos modernos. “Que viagem com um telefone, ok, mas dos antigos, sem acesso às redes sociais e outras ferramentas. Se necessitar fazer um telefonema urgente, ligar à família, então o telefone está lá. E isso é algo que gostaria de ter tido… Mas, hoje em dia, quando alguém tem um furo ou uma pequena queda num qualquer canto do mundo, está de imediato nas redes sociais. E só depois pensam na resolução do furo, se o souberem fazer”.

Mas, como não havia a possibilidade de pedir ajuda a alguém a milhares de quilómetros nada como saber reparar este e outros problemas mecânicos. “O telefone daria jeito em caso de acidente, sobretudo com ferimentos ou uma queda numa ravina onde ninguém poderia ver. Para ligar à família? Arranjava moedas ou pedia uma chamada a cobrar no destino para falar com os meus pais, uma ou duas vezes por mês, sem dia nem hora certa”.
E nem sempre era tão fácil como isso recorda Elspeth Beard. “Por vezes só conseguia encontrar uma central telefónica internacional nas cidades grandes e muitas vezes era preciso marcar a chamada de um dia para o outro. E era preciso acertar com a hora que os pais estavam em casa… Depois, num pequeno cubículo e com ligações muito más, falava uns quatro ou cinco minutos, coisas básicas como ‘estou bem, estou viva e sigo viagem’ e pagava uma fortuna”.
O conjunto de malas fabricado na garagem
E se, nos dias que correm, reparar um furo é brincadeira de crianças, na época em que Elspeth Beard se entretinha a dar a Volta ao Mundo a coisa era bem mais complicada. Um simples furo, sobretudo num pneu tubeless, que agora pode ser consertado em poucos minutos obrigava a desmontar a roda, sacar o pneu, retirar a câmara de ar, aplicar o remendo, confirmar que estava bem colado e voltar a montar tudo. Ahh, e não havia botijas de ar comprimido pelo, quando se furava a muitos quilómetros da civilização, um simples furo podia gerar uma verdadeira epopeia.
Seguindo a máxima de que ‘a necessidade aguça o engenho’, Elspeth Beard dotou-se dos conhecimentos básicos, frequentando oficinas e aprendendo tudo o que podia. “Ao ponto de aprender a soldar, o que deu muito jeito em várias ocasiões. Como na Austrália onde fiz um conjunto de malas de transporte para continuar a viagem. Ora como não havia à venda, tive mesmo de improvisar, copiei de outra moto igual que tinha um conjunto parecido, e fazê-lo”.

“Se é complicado? Antes de partir não sabia muito sobre a moto pelo que comprei um manual da Haynes e algumas ferramentas básicas. E, sempre disse, quem sabe ler e consegue segurar uma chave inglesa pode ser mecânico. Basta ter um pouco de inteligência e é fácil. Quer dizer, agora com todos os sistemas eletrónicos é mais complicado. Mas isso era algo que não existia”, recorda Elspeth Beard com sorrisos de boa disposição, a meio de uma grande entrevista que segue com o desvendar de um segredo…
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