Cucciolo em Portugal. Mobilidade Para todos

Autor:  Paulo Ribeiro

Setembro 27, 2026

O nome Cucciolo em Portugal, de tão famoso, ficou como sinónimo para todas as bicicletas motorizadas que, após a Segunda Guerra, facilitaram a mobilidade a toda uma população escassa de meios económicos. Agora, o livro O Motor Ducati Cucciolo em Portugal – Mobilidade Para Todos oferece uma visão histórica e rigorosa de um fenómeno que marcou a história do motociclismo mundial. Uma pesquisa de José Barros Rodrigues repleta de detalhes que ajudam a perceber melhor o mercado lusitano de duas rodas em meados do século passado.

Cucciolo em Portugal
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  • Texto: Paulo Ribeiro
  • Fotos: Ducati, Museu do Caramulo

Historiar e perceber a importância de um modelo na evolução da mobilidade foi o ‘leit-motiv’ para escrever as façanhas do motor Cucciolo em Portugal, abrangendo desde o momento do nascimento à presença em competições nacionais, passando mesmo pela importância na melhoria dos resultados de escolaridade. Sim, que este foi um fenómeno verdadeiramente transversal na sociedade portuguesa, numa época em que as dificuldades de deslocação de pessoas, para os campos, fábricas ou escolas, eram tidas como um obstáculo ao desenvolvimento.

Uma explicação básica mas lógica que ajuda a distinguir as máquinas que nascem de um plano industrial das outras daquelas que nascem de uma necessidade. A história do motor Cucciolo em Portugal e não só, está claramente inserida no segundo grupo e começa num momento particularmente difícil da História Mundial. Em 1943, com a Itália já ao lado dos alemães e o país a desfazer-se, Aldo Farinelli, um advogado que era também jornalista técnico e apaixonado por motos, começou a trabalhar com a SIATA (Società Italiana per Applicazioni Tecniche Auto-Aviatorie), uma pequena oficina de Turim, num motor pequeno que pudesse ser montado numa bicicleta qualquer.

Cucciolo em Portugal
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Junto dele, o engenheiro Aldo Leoni contribuiu para o desenvolvimento do inovador conceito técnico, com o primeiro protótipo a circular pelas ruas de Turim no outono de 1944, em plena guerra. Ainda sem designação comercial, ganhou nome nessa altura graças ao som produzido pelo escape curto e atarracado, semelhante a um latido seco, como o de um cachorro, que levou a SIATA a chamar-lhe Cucciolo, cachorrinho em italiano.

Antevisão de uma nova era

Conciliando a visão pragmática da formação académica em Direito com a apaixonante veia mecânica, Farinelli percebeu que, acabada a guerra, haveria milhões de pessoas sem carro, sem dinheiro e sem transportes públicos funcionais. O que, em termos práticos, apontava para a necessidade de um veículo económico, tanto na aquisição como na utilização, e acessível a todas as franjas da sociedade. É que não faltaria a necessidade de andar, faltaria, isso sim, com que andar.

Mas o sucesso do motor Cucciolo em Portugal como em toda a Europa que se reerguia assentou nas opções técnicas, com tanto de lógico como de ousado para a época. Ao contrário da generalidade da concorrência, o motor monocilíndrico de 48 cc apresentava uma configuração a 4 Tempos, face às rivais, com blocos a 2 Tempos, mais leves e baratos de produzir, mas mais gastadores, barulhentos e sujos. O trunfo derradeiro assentava num consumo a rodar um único litro de gasolina para cada centena de quilómetros.

Cucciolo em Portugal
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Inicialmente vendido como kit, com um bloco compacto e relativamente leve que se aparafusava ao quadro de qualquer bicicleta existente, transformando-a numa bicicleta motorizada. Em maio de 1945, a SIATA reabriu uma fábrica nova na Via Leonardo da Vinci, em Turim, construída em tempo recorde sobre as ruínas da antiga. A produção arrancou a 25 de julho de 1945 e era vendido ao preço de 4 000 liras, o equivalente a cerca de 140 euros atuais. No dia seguinte, a revista Motociclismo anunciou-o com uma frase que ficou: “Nasceu um cachorrinho em Turim.”

A importância de um fenómeno

O Cucciolo é um caso raro de produto que acerta no momento exato. A procura foi de tal ordem que a SIATA se revelou incapaz de a satisfazer, num momento que levou a Ducati a entrar no fabrico das duas rodas.

Em 1945, a Ducati de Bolonha era uma empresa conhecida por mecânica de precisão e produtos radioelétricos, fabricando válvulas e condensadores, emissores e recetores. A fábrica de Borgo Panigale tinha sido gravemente bombardeada em outubro de 1944, e a reconstrução foi a oportunidade que os irmãos Ducati agarraram para se reinventarem. Acordaram o fabrico do Cucciolo pagando ‘royalties’ à SIATA e converteram parte do departamento eletrotécnico para o novo setor. Em março de 1946 saíram os primeiros dez motores Tipo 1, produzidos sob concessão SIATA, apresentados na Feira de Milão em setembro desse ano.

A produção passou de 15 unidades em 1946 para mais de 25 000 nos anos seguintes. Em 1952, com 200 000 Cucciolos já vendidos, a Ducati lançou finalmente o seu próprio ciclomotor completo, retirando os pedais e acrescentando uma caixa de três velocidades. Em Itália venderam-se mais de 250 mil unidades em dez anos. A produção terminou quando a linha 65 foi descontinuada, em 1958.

Determinante para a Ducati, o Cucciolo foi a porta de entrada nas duas rodas e o início da sua recuperação como empresa, sendo graças a ele e aos seus derivados que a marca passou a ser tão conhecida na mecânica como já era na eletrónica. A partir foi a história de sucesso que se conhece, com marcos históricos como a Ducati 851, a Monster ou a Panigale.

O Cucciolo em Portugal

A entrada do motor Cucciolo em Portugal deu-se como a resposta a um problema de mobilidade, num País que, no pós-guerra, era essencialmente rural, disperso e desprovido de transportes públicos. A maior parte das pessoas deslocava-se a pé ou de bicicleta, muitas vezes em distâncias que hoje consideraríamos absurdas para um trajeto diário.

A grande mudança foi, contudo, no campo legislativo, com a eliminação da necessidade de carta de condução para velocípedes com motor de cilindrada inferior a 50 cm³, promulgada em dezembro de 1949, a abrir em Portugal aquilo a que a imprensa especializada da época chamou uma verdadeira “revolução social”. De repente, qualquer pessoa podia legalmente motorizar a sua bicicleta, sem escola de condução, sem exame, sem licença, sem o custo proibitivo de um automóvel.

A resposta foi imediata e dois anos depois desse despacho, circulavam já em Portugal cerca de 10 000 bicicletas motorizadas, num fenómeno que atravessou transversalmente toda a esfera social do país. Levava crianças à escola, operários às fábricas, agricultores aos campos e profissionais liberais, médicos ou enfermeiros aos locais onde exerciam as suas profissões. A imprensa da época notava mesmo efeitos menos óbvios como a redução do absentismo laboral e o impacto positivo na assiduidade escolar infantil, dois indicadores que medem bem o que uma solução de mobilidade acessível faz a um país, bem patente na história do motor Ducati Cucciolo em Portugal.

Tudo isto e muito mais pode ser aprendido no livro de José Barros Rodrigues, ricamente ilustrado com imagens da época, incluindo muitas das publicidades publicadas em jornais e revistas da época, e vendido através da especializada Livraria Ascari.

Cucciolo em Portugal
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Nesta vaga de bicicletas motorizadas, o Cucciolo em Portugal foi uma das referências técnicas mais prestigiadas, sendo o motor a 4 Tempos, fiável e poupado, o padrão pelo qual os outros se mediam, tendo convivido com muitos outros motores auxiliares de origem italiana e europeia, e com produções e adaptações locais. Portugal esteve, nesse aspeto, ao nível da Europa Ocidental: generalizou o mesmo fenómeno que se vivia em Itália ou em França, chegando a utilizar o motor italiano mas também a produzir alternativas nacionais.

Nas páginas da História motorizada

Uma das respostas mais evidentes à necessidade de mobilidade para todos surge assim através do motor Ducati Cucciolo em Portugal, demonstrando que a democratização da mobilidade é possível quando coincidem três condições. À tecnologia adequada ao contexto, barata, simples, de fácil manutenção, eficiente em consumo e capaz de se adaptar ao que as pessoas já tinham (a bicicleta), juntou um enquadramento legal favorável, com a dispensa da carta para cilindradas pequenas a ser determinante, e a um preço ao alcance do salário comum.

Ducati Cucciolo WDW 2026 - MotoX

Por tudo isto, a história do Cucciolo em Portugal representa, mais do que uma peça de museu, uma demonstração histórica de que a mobilidade acessível a todos não se resolve só com veículos melhores, mas sim com uma conjugação de fatores coincidentes. Quando o veículo, o preço e a lei apontam no mesmo sentido como aconteceu em Portugal, em 1949, levando a um sucesso traduzido em mais 10 000 bicicletas motorizadas vendidas em dois anos.

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