MotoGP. Os portugueses que lideram o Mundial

Sabia que há mais portugueses no Mundial de MotoGP para além de Miguel Oliveira? E que também ganham corridas? Mais. Que chegam ao Grande Prémio de Portugal na liderança do campeonato? Confuso?… Conheça a história de quem descobriu as motos há apenas 3 anos e rapidamente chegou ao topo da competição.

  • Texto: Paulo Ribeiro
  • Fotos: PR, Oli, Gresini Racing

Na busca das melhores histórias, MotoX confirmou a veracidade da sabedoria popular que diz que os portugueses estão em toda a parte. Diz-se até que quando Neil Armstrong pisou a lua foi calorosamente recebido por uma comitiva lusitana… Incertezas históricas à parte, a verdade é que, efetivamente, a gesta portuguesa tem incontáveis momentos de superação e glória. Da arte de bem fazer como de memoráveis conquistas.

Quem não ouviu falar de Afonso Henriques a correr os sarracenos à espadeirada ou da mítica padeira de Aljubarrota com a pá do forno a despachar espanhóis à força toda. Ou de Vasco da Gama, Gago Coutinho e Sacadura Cabral, Carlos Lopes ou Rosa Mota, Amália ou Fernando Pessoa, Egas Moniz ou José Saramago, António Damásio ou Siza Vieira…

Os exemplos poderiam continuar por muito mais linhas, mas poderia escassear o tempo e a paciência para ler o que aqui nos traz.

Miguel Oliveira também navegou contra ventos e marés para chegar ao topo do Mundo. A travessia até aos triunfos em MotoGP foi longa e atribulada, mas, lá chegado, cravou a Bandeira Nacional de forma inabalável no seio da caravana mundialista. E ajudou, sem sombra de dúvida, a tornar mais conhecida em Portugal a grande competição do motociclismo internacional.

Despertou paixões patrióticas, mesmo naqueles que de motos sabem apenas que têm duas rodas. E reforçou o interesse nos que ainda não haviam vislumbrado todo o potencial de uma importantíssima ferramenta de comunicação e marketing a nível planetário.

Ainda que por outros caminhos, mais portugueses chegaram ao mais alto patamar do desporto de duas rodas. E, tal como #MO88, também ganham! Ao Autódromo Internacional do Algarve chegam, para a quarta prova da temporada, na liderança do Mundial de MotoGP e vão aproveitar a passagem por Portimão para ganhar mais. Imagem, clientes e, a médio prazo, faturação. De quem falamos?…

Propomos uma viagem até Aveiro, não para provar os famosos ovos moles ou para um passeio pela ria, mas para conhecer uma empresa familiar de nome Oli. Diminutivo do apelido Oliveira que criou e gere os destinos de uma casa com mais de 400 colaboradores diretos e que se dedica ao fabrico de autoclismos, sendo uma das mais importantes do mundo nesta área. É esse mesmo Oli que se vê, com destaque, nas carenagens da Ducati Desmosedici da Gresini Racing MotoGP e nos fatos de Enea Bastianini e Fabio Di Giannantonio. E que depois da experiência em Moto3 e Moto2, não se encolheu perante o grande desafio de MotoGP.

Um amor em crescimento contínuo

Não há aqui uma questão de paixão! Nada que se compare a uma atração quase irracional pelo desporto motorizado, um amor cego daqueles que consome muito dando quase nada em troca. Quem o garante é António Ricardo Oliveira, administrador da empresa aveirense, para quem “existe, isso sim, uma ligação histórica entre empresas do grupo, como é o caso da italiana Valsir, à competição, a equipas e a marcas como a Ducati, sendo que o fácil acesso da Oli às equipas deriva também desse histórico”.

Aliás, deve aqui fazer-se um parêntesis, para entender a lógica desta relação. “A Oli não abordou de imediato essa experiência no patamar mais alto. Começou por fazer um teste, há 3 anos, em Moto3 e Moto2, tentando entender qual era a reação do nosso público e o ‘feedback’ junto dos clientes. As sensações foram positivas, apesar de ser um ano limitado pela pandemia. Muitas iniciativas e ideias ficaram por concretizar, mas, ainda assim, os resultados foram animadores”.

Claro que, como em qualquer relação em fase de consolidação, o entusiasmo foi crescendo e surgiu, de forma quase natural, o desafio para a presença em MotoGP. Mas, como em qualquer pedido de casamento onde não impera uma paixão sôfrega e alucinada, havia ponderações a fazer.

A vontade da Aprilia em ter sob controlo absoluto a equipa que faz correr Aleix Espargaró e Maverick Viñales, deixou a Gresini Racing descalça para 2022. Num ano marcado pelo desaparecimento do mentor da formação de Faenza e campeão mundial de 125 cc, em 1985 e ’87, o espírito de Fausto Gresini ditou a continuidade.

“O desejo de manter a presença em MotoGP levou a que sondassem os patrocinadores, que já estavam com eles nas outras categorias, para juntarem-se a esse projeto e canalizar apoios para a categoria maior. Durante alguns meses foram discutidos muitos pormenores com a equipa e sobretudo com Carlo Merlini, (Diretor Comercial e de Marketing) conseguindo um acordo interessante para todos. E que, felizmente, está a ter enorme sucesso desportivo”.

Ligações poderosas e a descoberta do novo ‘amor’

A ligação à Valsir, empresa englobado no gigante Silmar Group (mais de 3000 empregados, 30 fábricas e 900 milhões de euros de faturação) potenciou a decisão da entrada no ‘Continental Circus’. “Uma decisão consensual, mas que nunca poderia ser tomada unilateralmente, porque o outro sócio detém 50% do capital” esclarece o responsável da Oli. Que logo recorda “a natural influência da longa ligação da Valsir ao desporto motorizado, na decisão de entrar no motociclismo, há três. Mas, depois, começamos a trilhar o nosso caminho, percebendo que tipo de ações podíamos executar, construindo a partir daí o nosso caminho e a nossa própria experiência”.

Uma experiência que começou em 2019, com Sam Lowes em Moto2 e Gabriel Rodrigo e Ricardo Rossi, em Moto3, quando o Mundial de Velocidade estava ainda longe da projeção que goza atualmente em Portugal. Foi o ano em que Miguel Oliveira chegou a MotoGP e começou a dar nas vistas.

Em 2020, a Gresini Racing, já com maior apoio da Oli, marcou presença em Moto3 (Rodrigo e Jeremy Alcoba) e Moto2 (Nicolo Bulegà e Egar Pons), mas a afirmação chegaria em 2021. “Com os pódios em Moto2 (três de Fábio Di Gannantonio, incluindo triunfo em Jerez de La Frontera) e Moto3 (dois para Alcoba, incluindo Portugal, e um para Rodrigo) foi percetível o salto qualitativo em termos de exposição e mediatismo”.

Mas nada que preparasse os responsáveis do maior fabricante de autoclismos do sul da Europa para o que estava para vir…

Risco assumido e pago a dobrar

O reforço da aposta para 2022 “foi, naturalmente, um risco ponderado. Um salto que sublinha aquilo que queremos ser enquanto empresa, uma organização evolutiva e em crescimento acelerado, disposta a competir para se destacar entre os melhores do mundo”. Reforço na amplificação do projeto internacional, “assente na força crescente das filiais e pela dinâmica de exportação para novas latitudes e crescimento de importadores estratégicos”.

Ainda assim, António Ricardo Oliveira, não disfarça “a grande surpresa, pela positiva, da enorme visibilidade que tem o MotoGP, onde quase todas as equipas, vençam ou não, têm mais tempo de antena do que as equipas ganhadoras em Moto2 ou Moto3”. Mas as diferenças não se ficam por aí e “a forma como as equipas se coordenam, como trabalham com os departamentos de marketing, é outro campeonato”.

E que campeonato! “Sobretudo depois das vitórias, onde a marca conseguiu um mediatismo que não esperava e que nunca tinha tido”. Sucesso que fortaleceu o amor, perdão, a relação com as corridas. E se “antes via os GP aos domingos”, agora garante “não perder pitada desde sexta-feira. E com muito mais atenção e entusiasmo”. Tanto mais que, depois de entrar a vencer no Qatar e ganhar nos Estados Unidos, chegar ao Grande Prémio de Portugal na liderança do Mundial só pode ser um motivo de enorme orgulho para uma empresa portuguesa.

O indisfarçável brilho nos olhos do jovem empresário não deixa margens para dúvida. As emoções do desporto motociclístico estão definitivamente entranhadas. Mas logo se recompõe e ganha a frieza suficiente para colocar o negócio em primeiro lugar. “É uma aposta e um investimento que procura a projeção e afirmação no mais forte campeonato do motociclismo, uma ligação a MotoGP que pesa quando abordamos fornecedores ou clientes. Identificam imediatamente que estão frente a uma empresa que se pode permitir um esforço desta magnitude. Além disso, todos gostamos de ganhar e estar com quem ganhar. Depois das vitórias, há cada vez mais clientes que querem ir aos GP, que querem criar espaços nos showrooms com imagens das motos e dos pódios. Sensações de vitória, de sucesso, que aliadas a uma marca, a uma parceria, transmitem e reforçam sensações positivas a todos”.

Forte ligação familiar

Curiosamente, tal como a Gresini Racing, a Oli é uma empresa de forte pendor familiar. Facto bem patente da quantidade de apelidos Oliveira visível no organigrama da empresa e que foi “uma chave importante nesta parceria porque, com outra marca ou outro tipo de empresa, talvez não se tivesse construído uma relação tão forte em tão curto espaço de tempo”.

Ao recordar a história da parceria, António Oliveira não consegue reter um sorriso sentido. “Devido às indefinições com a Aprilia e a todas as dificuldades que atravessava, a equipa tardou na escolha da moto devido a dificuldades na negociação com a Ducati, num processo que se alongou bastante, atrasando naturalmente a definição de patrocinadores. Mas o forte desejo do Fausto Gresini em garantir a equipa MotoGP, espelhado em todos os membros da equipa, permitiu um diálogo muito próximo para acertar a parceria, na forma e no modo. Se tivesse sido em empresas com estruturas de decisão muito pesadas, tanto de um lado como do outro, não teria sido possível avançar em tão curto espaço de tempo e com tanta coisa por definir. Uma relação que facilitou o entendimento e que agora dá outro gozo”.

Vitórias de capitalização acrescida

Mas, como qualquer empresário bem sabe, todo o investimento deve ser rentabilizado sob pena de transforma-se em mera despesa, que nada acrescenta para a empresa. Uma capitalização que visa o reconhecimento, o reforço do nome no mercado, e que “passa por levar convidados ao Grandes Prémios, concebendo ações baseadas no que aprendemos nos anos anteriores em Moto2 e Moto3. Proporcionar aos clientes a experiência de um GP, com a visita ao paddock, às boxes e o contacto com a equipa e pilotos, garante experiências únicas, por vezes irrepetíveis”.

No caso da visita a Portugal, houve lugar a mais ações incluindo um ‘show case’ nas instalações da fábrica, onde os colaboradores puderam apreciar de perto a Ducati Desmosedici com o logótipo da Oli e privar durante alguns momentos com Fabio Di Giannantonio. “Evento que só foi possível porque a equipa tem uma postura muito aberta e familiar e que permitiu a aproximação entre todos os colaboradores da empresa, fortalecendo laços”.

Reforço de imagem interior a que se agrega a visibilidade acrescida do ponto de vista comunicacional e que terá continuidade nas provas de Espanha e Itália. “Além de serem as mais próximas, representam também mercados com uma quota significativa do volume de exportação que foi, em 2021, de 77% dos 71 milhões de faturação da empresa”. Um retorno que nem sempre é de fácil avaliação imediata, mas garante retorno efetivo para a marca. “Veja-se o caso da Indonésia onde o importador fez questão de realçar essa parceria aos seus clientes, revestindo assim a marca de uma dimensão global. São esses pontos que fazem pensar na continuidade e ter vontade de o fazer”.

A torcer por Bastianini em Portimão

O acrescido sentimento de incerteza que envolve todo o planeta e as expetativas face ao evoluir da situação económica aconselham naturais cautelas. Mesmo se “a intenção é, mantendo-se a estrutura da parceria, continuar com a Gresini, que tem sido parceiro excecional. Será sempre a primeira escolha, independentemente do sucesso desportivo, numa associação entre a Oli e o MotoGP onde a parceria com a Gresini tem feito todo o sentido”.  

Mas António Ricardo Oliveira é ponderado e sabe que nada é eterno. “Neste momento estamos plenamente satisfeitos com a equipa, que tem sido inexcedível, e além disso tem tido sucesso que nos deixa ainda mais contentes. Mas, sem saber os planos da Gresini Racing, e tendo percebido a diferença entre estar nesta categoria e nas outras, queremos manter-nos na categoria, podendo tomar outras opções”.

Uma visão racional bem dentro de um desporto onde imperam paixões que fica bem patente na última questão. Quem gostaria de ver ganhar o GP de Portugal? A rapidez da resposta não deixa margem para dúvidas. “Enea Bastianini, claro”. Mesmo face a um piloto português? “As coisas não se podem colocar de forma tão simplista, mas a verdade é que, entre um piloto português e uma empresa portuguesa, com enormes responsabilidades sociais… gostaria que o Miguel Oliveira ficasse em segundo. Já agora, se não fosse pedir muito, com o Fabio Di Giannantonio a completar o pódio. Até porque, se acho difícil o Bastianini vir a ser campeão, ficarei contente enquanto se puder manter em primeiro…” Porque a razão é assim mesmo e, por vezes, consegue falar mais alto do que o coração!

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