Será a QJ Motor SRK 800 a resposta definitiva à mais importante questão entre os fabricantes de motos? Num mercado europeu muito segmentado, em que a uniformidade está longe de ser a regra, por força de diferentes climas, tradições, paixões e regras de utilização, a pergunta do milhão de euros é a seguinte: que tipo de moto devo produzir para ter sucesso num mercado extremamente exigente na qualidade, sensível ao snobismo da imagem de marca e que valoriza conceitos tão abstratos e efémeros como o estilo, o bom gosto ou a classe?

- Texto: Alberto Pires
- Fotos: Roger Rovira e Nicki Martínez
É uma tarefa difícil, de alguma forma desanimadora para uma marca chinesa — asiática, para os mais esquisitos —, sobretudo quando este esforço se destina a um continente que detém apenas 25% da quota de mercado mundial. Há atalhos, como a compra de uma marca que já tenha desaparecido ou esteja em vias disso, que ajudam a ultrapassar a fase inicial do reconhecimento, mas esta é uma opção valorizada sobretudo pelos mais experientes, trazendo por vezes na bagagem os motivos que a levaram a desaparecer. A razão para encarar este desafio prende-se com o facto de a Europa ser a referência para quase todos os mercados, e o que por cá for atingido multiplicará as possibilidades de sucesso nos restantes continentes.

O crescimento da gama da QJ Motor reflete este compromisso, sendo notória a evolução dos modelos ao longo dos vários segmentos, seguindo uma lógica racional de integração na nossa escala de valores. A qualidade geral dos acabamentos que se pode apreciar também nesta QJ Motor SRK 800, os componentes provenientes de marcas reputadas e as opções eletrónicas de última geração, são o ponto de partida que transforma o custo de aquisição num atraente argumento de venda. E os 6 anos de garantia complemetam estes argumentos, sendo um enorme certificado de qualidade.

Seguindo estas ideias, nota-se que a QJ Motor SRK 800 é atraente, compacta e bem acabada. Disponível em duas combinações cromáticas, branco/cinza e preto, respira confiança em linhas desportivas, acentuadas pelo ondular das formas do depósito e banco e pelos elementos dourados. O quadro em alumínio abraça o motor e o dourado das saídas de escape vem na continuidade da forquilha invertida. As jantes de seis braços desdobrados e o formato do silencioso de escape rematam o conjunto da melhor maneira. O banco do condutor e passageiro integram-se muito bem no espírito, sendo este último dotado de formas que ajudarão a limitar os candidatos a pendura.


O depósito da QJ Motor SRK 800 é largo na parte dianteira mas adequado na zona dos joelhos, o guiador é largo, as manetes são ajustáveis e os espelhos fluem para as extremidades. O painel de instrumentos, de formato octogonal com cantos suaves, assenta no topo do farol dianteiro e, apesar de algo afastado, encaixa perfeitamente na dianteira. A iluminação é integralmente em LED, com um design bem conseguido na frente e escorreito na traseira, sendo os indicadores de mudança de direção estreitos e afunilados para o exterior.
Ciclística excelente e motor omnipresente
Ao ser criada para equipar a versão desportiva SRK 800RR, a ciclística da QJ Motor SRK 800 torna-se referencial quando avaliada num contexto ‘naked’. O quadro é em dupla trave em alumínio, com suspensão dianteira Marzocchi invertida com 41 mm de diâmetro e 110 mm de curso e, atrás, ancorada num braço oscilante de alumínio, uma unidade também Marzocchi igualmente com 110 mm. São ambas reguláveis em pré-carga, compressão e extensão.

No capítulo da travage, mantém-se bem visível a qualidade que exala da QJ Motor SRK 800. Na frente, uma bomba de travão radial Brembo, dois discos de 320 mm com pinças Brembo de quatro pistões fixadas radialmente. Na traseira, um disco de 260 mm assistido por uma pinça Brembo de dois pistões. O sistema cornering ABS da Bosch é desconectável. Os pneus, nas medidas 120/70 e 180/55, são Pirelli Angel GT, incorporando o sistema de monitorização da pressão dos pneus.






O motor de quatro cilindros é o elemento de maior destaque desta QJ Motor SRK 800. É uma unidade nova, com 778 cc, com injeção eletrónica Magneti Marelli MQ11, debitando 95 cv às 11.000 rpm e com o binário máximo de 75 Nm às 8.500. Dispõe de 3 mapas de gestão do motor — Rain, Normal e Sport — e foi concebido para ter uma curva muito plana e generosa em médias. A QJ Motor SRK 800 tem controlo de tração, que pode ser desligado, e ‘quickshifter’ bidirecional. Ainda ao nível da eletrónica, a presença de um pouco habitual ‘cruise control’.
Entusiasmante em pista
O teste dinâmico à QJ Motor SRK 800 começou na pista de Castellolí, em Barcelona. Não sabendo para que lado eram as curvas, e tão-pouco como reagiria nas diferentes condições, acabou por ser uma agradável surpresa. O primeiro destaque vai para o funcionamento da caixa de velocidades, precisa e com um curso curto no pedal, com o acionamento bidirecional rápido do ‘quickshifter’ a brilhar. Quanto maior era a rotação, mais eficaz era o seu funcionamento, e mesmo trocando de caixa em ângulo não havia sinal da menor perturbação.

Já nas reduções mais aflitivas, sobretudo para os ganchos, em que se podia descer até à segunda velocidade, as duas últimas relações custavam a encaixar, julgo eu que por precaução para não exceder a rotação. Nessas situações acabava por aconchegar a embraiagem, numa espécie de efeito deslizante manual. Essa necessidade resultava da excelente capacidade de travagem da QJ Motor SRK 800 proporcionada pelas pinças Brembo de quatro pistões, oferecendo a bomba radial potência e progressividade suficientes para gerir a procura do ângulo de ataque à curva sem receios, sem que tenha percebido a contribuição do cornering ABS.

O comportamento do motor adequa-se ao espírito de uma ‘naked’ que se pretende entusiasmante e abrangente. Se os 95 cv às 11.000 rpm estão razoavelmente abaixo da referência das mais desportivas do segmento, o seu binário máximo de 75 Nm às 8.500 também não traduz o que se sente no punho direito em pista. As recuperações a partir das 5.000 rpm são fortes e constantes, permitindo gerir de forma controlada as saídas de curva sem receios, e isso sobressaiu ao serem muito poucas as vezes que o controlo de tração se fez anunciar.

O painel de instrumentos, muito bem colocado para condução desportiva, dentro do campo de visão sem estorvar nem obrigar a desviar o olhar, de algum modo fartou-se de me enganar. Os caracteres demasiado pequenos, mesmo os fundamentais como a numeração da faixa do conta-rotações, levaram-me a trocar de velocidade muitas vezes ainda antes de atingir as 11.000 rpm: o fundo mudava de branco para vermelho vivo ao passar as 9.000 rpm, faltando 2.000 rpm para chegar aos 95 cv! O corte de rotações só acontece às 11.750 rpm e garanto que não é necessário procurá-lo, já que começa nitidamente a perder energia um pouco antes.

O acerto ciclístico que nos foi apresentado — o novo asfalto de Castellolí deve conseguir cumprir as tolerâncias de uma mesa de bilhar — evidenciou a excelente qualidade das suspensões Marzocchi e a afinação definida pelo tetracampeão espanhol de SBK Javier del Amor. O indício mais relevante foi o facto de os pneus Pirelli Angel GT, de vocação turística e pensados para aguentarem muitos quilómetros, terem possibilitado uma condução desportiva sem avisos mal-humorados.
Julgada no tribunal da estrada
Se a pista é o lugar onde se descobrem as limitações e sobressaem as virtudes, em estrada o que se valoriza é a interação entre a moto, o ambiente e o espírito de quem a conduz. A QJ Motor SRK 800 deu a conhecer outras facetas igualmente surpreendentes. O motor, que já se tinha revelado cheio, afinal é mesmo muito cheio e isento de vibrações. Roda-se em ambiente urbano a partir das 2.000 rpm em qualquer velocidade, e acelera-se sem que pareça que alguma coisa se soltou no seu interior. Levando o exercício ao extremo, decidi arrancar em sexta velocidade. Para meu espanto, avançou calmamente, com um cheirinho de embraiagem e de acelerador.

As suspensões que equipam a QJ Motor SRK 800 são multifacetadas. À eficácia em pista adicionam também conforto em estrada, digerindo até com alguma surpresa troços em mau estado sem que a fatura na direção seja elevada. É precisa na entrada em curva, estável nas curvas rápidas e maneável nas zonas mais tortuosas. Nos troços rápidos, o motor da QJ Motor SRK 800 voltou a animar-se, sobressaindo novamente a rapidez da caixa de velocidades; mas quando se baixava o ritmo, a menor prontidão e suavidade do funcionamento do ‘quickshifter’ nas reduções acentuou-se, havendo espaço para melhoria neste aspeto.

O que não era relevante em pista, a leitura de algumas das informações no painel da QJ Motor SRK 800, mostrou-se irritante em estrada. Ao pretender saber quantos quilómetros tínhamos percorrido, apercebi-me que não conseguia ler o que estava escrito. Apesar de ter apenas 5 polegadas, há espaço suficiente para aumentar o tamanho dos números, tanto da quilometragem percorrida como da pressão dos pneus e, já agora, do relógio e da escala do combustível, que tem direito a apenas um micro triângulo no canto inferior direito do painel.

O conforto de utilização está a bom nível: os espelhos são progressivos na regulação e oferecem uma imagem suficiente, as manetes reguláveis permitem adaptar a sua distância ao tamanho das nossas mãos e são suaves no acionamento. O guiador é bastante largo e o triângulo formado pelos punhos, banco e poisa-pés é confortável para qualquer ambiente.
Detalhes que contam na QJ Motor SRK 800
Só perto do final do ensaio da QJ Motor SRK 800, contando já com as duas sessões de 20 minutos em pista, é que comecei a sentir o banco, o que é razoável para uma extensão total do teste que rondou os 150 quilómetros. Já no que diz respeito ao som emitido pela bonita panela de escape, o que era metalicamente melodioso em pista começou a tornar-se cansativo em estrada, sobretudo nos momentos mais tranquilos. Em contrapartida, apesar dos 32 ºC que se faziam sentir, a extração do ar quente do motor era feita com eficácia, nunca tendo sentido a sua influência.

Quanto aos consumos da QJ Motor SRK 800, a marca homologou 4,7 litros para cada cem quilómetros. Não será difícil atingir esse valor, de tal forma é generoso e suave este quatro cilindros.

A QJ Motor SRK 800 revelou-se uma excelente naked, polivalente e eficaz, entusiasmante em pista e cordial em ambiente urbano. A este quadro alegre e harmonioso soma-se um PVP de 7.490 €, sendo a cereja no topo do bolo os 6 anos de garantia. E para quem já conhecia a QJ Motor SRK 400, vai descobrir a porta de entrada num novo universo. Se ficou curioso, marque já um test-ride e dê-nos a conhecer o ‘feedback’ da nova QJ Motor SRK 800. Algo me diz que vai gostar!
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