Sabe quem foi Gertrude Eisenmann? A resposta é, muito provavelmente, negativa, pelo que o melhor mesmo é ler este artigo e descobrir a história por detrás desta britânica. Mas, para melhor enquadramento, lembremos que 2024 foi um ano histórico para o motociclismo, com o primeiro Campeonato do Mundo Feminino.
Depois de algumas temporadas de competições oficiais para mulheres, como a Taça da Europa Feminina entre outras, o FIM Women’s Circuit Racing (WCR) World Championship, categoria integrada no calendário do Mundial de Superbikes, consagrou a primeira campeã mundial. Nem mais nem menos do que a mesmíssima Ana Carrasco que, em 2018, bateu os seus colegas masculinos no Mundial de Supersport 300, tornando-se oficialmente a primeira mulher a conquistar um título mundial de motociclismo. Mas, e Gertrude Eisenmann?

- Texto: Alex Ricci
- Fotos: Arquivo e FB Madalena Simões
Se o nome de Carrasco fica para a história na mesma categoria WCR onde, em 2025, corre a portuguesa Madalena Simões, ela, no entanto, não foi a única mulher famosa na história a competir no mais alto nível no motociclismo. A primeira a fazê-lo dignamente tem uma história que remonta ao início do século passado e responde pelo nome de Gertrude Eisenmann.

Nascida em Stepney, Inglaterra, em 1875, era filha de Hannah Rodda, fruto de uma relação secreta com o médico britânico Geoffrey Pearl, a quem a mãe, de apenas vinte anos, serviu como empregada doméstica. De acordo com a certidão de nascimento, Gertrude Eisenmann nasceu no Arun View Hotel, em Littlehampton, Sussex, e cresceu na seio da família de seu suposto pai. Após a sua morte, viveu com outras mulheres da família, numa quinta em Suffolk.
Entretanto, a sua mãe, Hannah, casou-se três vezes, a última das quais com um alto funcionário turco, convertendo-se ao Islão. Pearl morreu em 1884, deixando o futuro de Gertrude Rodda, “a distinta filha de Hannah Robinson”, devidamente salvaguardado. Os curadores da fortuna foram instruídos para investir 5.000 libras na educação de Gertrudes e, aos vinte e um anos de idade e após o seu casamento, ela começaria a receber dividendos das poupanças.




Em 1891 vivia em Brighton com a mãe, que tinha regressado à Grã-Bretanha depois de um período na Índia, mas pouco tempo depois, Gertrude Eisenmann mudou-se para Hamburgo para aprender alemão e lá começou a participar em corridas de bicicleta.
A 15 de outubro de 1898, um artigo escrito pelo seu punho e intitulado ‘Ciclismo nos distritos alemães’, apareceu na revista Die Radlerin, para a 27 de agosto de 1900 participar no Hadersleben – Schnelsen onde terminou em terceiro lugar geral entre oito participantes. O tempo gasto, de 8 horas 59 minutos e 40 segundos, valeu-lhe uma média horária de 27,8 km/h mas também o desmaio por exaustão após a linha de chegada. Apenas o vencedor não apresentou nenhum problema físico particular após os 250 quilômetros da prova.
O ‘despertar’ de Gertrude Eisenmann
Nessa altura, Gertrude conheceu Max Eisenmann, treze anos mais velho, com quem se casou em 26 de julho de 1901 em Fulham, Inglaterra. Apaixonados pelos desportos motorizados que começavam a dar os primeiros passos e autênticos atletas, dedicaram-se às corridas de carros e motos. Eisenmann, de uma família judia alemã, vendia bicicletas em Hamburgo desde 1895, depois motos a partir de 1905 e automóveis a partir de 1907.

O casal participou no ‘desfile das flores’ de Hamburgo, em 1903, com um automóvel conduzido por Gertrude Eisenmann, como apontado pelas crónicas da época: “O carro era conduzido pela Sra. Eisenmann que, habilmente, o passeou em segurança pelas ruas repletas de espectadores. O povo de Hamburgo já se habituou a esta imagem, porque não passa um dia sem ver esta senhora a conduzir o seu carro.” (Allgemeine Automobil-Zeitung No. 33 Volume II de 16 de agosto de 1903).
Gertrude Eisenmann começou então a participar em corridas de motos, com uma NSU. E logo na primeira corrida, de 835 quilómetros para ligar Estugarda a Kiel, foi registada com a segunda maior velocidade média entre todos os participantes. Marca ainda mais relevante quando contou que tivera de parar três vezes para aspirar o óleo do tanque com a boca antes de o soprar para o motor, porque a bomba de óleo não funcionava.
Em março e abril de 1905, ela foi um dos noventa e dois participantes numa ‘viagem’ de 3.000 km organizada pela revista Deutschet Motorradfahrer. Os pilotos foram divididos em grupos e Gertrude Eisenmann foi a vencedora do grupo dela. Pouco depois, venceu novamente os 600 quilómetros Eisenach-Berlim-Eisenach com a NSU, atingindo a média de 42 km/h, um recorde assinalável num tempo em que as estradas eram verdadeiros caminhos de terra bastante difíceis.
Sucessos que lhe valeram a escolha por parte da marca Neckarsulm como figura publicitária e, a 2 de agosto de 1905, Gertrude Eisanmann venceu a corrida de Kesselberg na Classe 1, destinada a veículos de duas rodas com motores de até três cavalos e meio de potência.
Quem duvida da rapidez das mulheres?
Nesse mesmo ano, Gertrude Eisenmann escreveu na revista Das Motorrad: “Os muitos elogios com que fui agraciada são claramente exagerados”. A britânica nunca teve dúvidas da rapidez com que as mulheres andam de moto. Afinal, dizia, “ninguém se surpreende quando um pato nada…”
Mudando para os carros, Gertrude Eisanmann participou em corridas e aventuras de longa distância, acompanhada de seu ‘terrier’ Dickey. Em agosto de 1906 iniciou a “Viagem Turística para Carros Pequenos” na Classe III, com uma Minervette, terminando em primeiro lugar e ganhando a medalha de ouro. No 1º Prinz-Heinrich-Farth, em 1908, foi uma das três mulheres inscritas e, em julho de 1913, alinhou numa prova de regularidade com um Horch de 8 cv onde ganhou a medalha de prata.






Gertrude Eisanmann contou as suas corridas, como a prova Hamburgo-Frankfurt e voltou com artigos animados e, nos anos seguintes, também tirou fotos para documentar as suas reportagens. Foi membro dos Ladie’s Automobile Clubs of Great Britain and Ireland e, em 1914, participou na sua última competição, o Alpenfahrt com um Horch de 10 cv.
Em 1926, o jornalista Alex Büttner prestou homenagem a Gertrude Eisanmann juntamente com outras mulheres que se distinguiram no automobilismo, na ADAC Motorwelt: “Quase parece um conto de fadas que, mesmo naquela época, uma senhora tenha tido a ousadia de cometer a ‘loucura’ de conduzir veículos motorizados de três e duas rodas: Sra. Gertrude Eisenmann – Rodda – Hamburgo, que é provavelmente a atleta mais antiga a ter competido de moto e de automóvel. […] O que ela realizou, como mulher no automobilismo alemão, só pode ser devidamente valorizado por quem conduzia um carro ou moto na época. As suas conquistas destacam-se de muitas das grandes vitórias de pilotos masculinos no nosso tempo.”
A história não pode parar
Gertrude Eisenmann tornou-se instrutora de equitação e também participou em competições equestres. Morreu a 15 de janeiro de 1933, em Hamburgo, com a idade de 57 anos e foi anunciado publicamente que sua morte tinha acontecido de forma inesperada, devido a um ataque cardíaco um dia depois de participar de um torneio organizado pelo Uhlendorf Riding Club. A neta Gertrude Parschalk afirmou, no livro dedicado à avó, que Gertrude Eisenmann cometeu suicídio por medo de represálias dos nacional-socialistas. A empresa do seu marido judeu, Max, foi arianizada em 1938/39 e o negócio de Hamburgo, assumido por um empresário chamado Alfred Kruse.

Quase um século depois da audaciosa história de Gertrude Eisenmann, ficando famosa entre os apaixonados dos desportos motorizados, começamos finalmente a festejar os triunfos de outras mulheres. A inspiradora história, tal como a de Becci Ellis, serve para mostrar que, neste desporto, como em todos os outros, as mulheres podem e devem competir, ultrapassando preconceitos e estilhaçando tabus.
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