O Portugal de Lés-a-Lés 2025 foi o último de Manuel Marinheiro enquanto presidente da Direção da Federação de Motociclismo de Portugal. Do evento que, de 7 a 11 de junho ligou Penafiel a Faro guardará boas memórias, tal como das anteriores 11 edições. Um ciclo de 12 anos à frente dos destinos da FMP, durante os quais Portugal recebeu corridas de vários Campeonatos do Mundo, viu pilotos portugueses atravessarem fronteiras para disputar competições das mais diversas modalidades e assistiu a uma evolução em geral do motociclismo no nosso País. Mas o ‘Lés’… é um caso à parte!

- Por: Paulo Ribeiro
- Fotos: Luis Carvalho, Delfina Sordo e arquivo
Num lugar especial no álbum de memórias ficará o Portugal de Lés-a-Lés, de estrada ao Off-Road passando pelo mais recente Classic, palcos dos maiores desafios e estórias infindáveis, pelas paisagens descobertas e gentes conhecidas, pelos momentos de incerteza e conquistas estrondosas. Uma coisa é certa. Manuel Marinheiro deixa a presidência da Direção da FMP, mas não deixa o Lés-a-Lés. Onde promete “continuar a participar, sempre disponível para ajudar no que for necessário” mesmo se o Portugal de Lés-a-Lés 2025, o 27.º, foi a último enquanto responsável máximo do organismo que rege o motociclismo em Portugal.
Foram anos – uma dúzia! – de descobertas muito significativas e a primeira, a mais importante mesmo, foi “a amizade! Ganhar amigos, muitos amigos, pessoas que nem conhecia e agora posso considerar que são meus amigos. Nomeadamente entre os elementos da equipa organizativa. A verdadeira amizade não se compra, ganha-se, e num ambiente de excelente camaradagem, de solidariedade, de diversão, sem títulos ou honrarias, há algo que nos une a todos que é o gosto de andar de moto. Em segundo lugar, o Portugal de Lés-a-Lés, permitiu descobrir imensos sítios do nosso belo País, locais que desconhecia e que são apaixonantes”.
“Até porque, nesses quatro dias, temos a mente liberta para apreciar sítios diferentes onde nunca fomos bem como uma gastronomia tão diversificada numa área tão pequena como é a nossa. Não menos importante são as gentes. As diferentes formas de ser e de estar, de receber ou de falar. Tudo isso, em resumo, torna esta numa das experiências mais enriquecedoras em termos de descoberta de paisagens, gastronomia, pessoas, afinal de tudo o que gostamos na vida”.
Política no Portugal de Lés-a-Lés?
Mas o Portugal de Lés-a-Lés 2025 é um evento que representa muito mais. É de uma abrangência enorme e transporta em si a imagem e a responsabilidade de cada motociclista perante a sociedade. E oferece uma oportunidade única em que poucos reparam ao longo dos dias de festa. “A atividade motociclística é, naturalmente, transversal a toda a sociedade e, dessa forma, é normal ter participantes das mais diversas áreas, de atores a desportistas, de cantores a políticos. A presença de presidentes de Câmara, secretários de Estado, deputados ou responsáveis de vários organismos, é muito importante”.

“E para aferir a real medida dessa importância basta referir um exemplo. O Professor Rui Ribeiro, que durante seis anos presidiu à Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), não era motociclista, não andava de moto nem sabia o que era o Portugal de Lés-a-Lés. Pois bem, a partir do momento em que aceitou o convite para estar presente no evento, em 2021, ficou completamente rendido às duas rodas e passou a andar de moto nos trajetos diários.”

Desta forma aquele responsável “conseguiu perceber muito melhor quando pedíamos coisas tão simples como observar as juntas de dilatação, que não era um problema para os carros, mas era para as motos, tal como os buracos ou o tipo de pavimentos. E começou a compreender muito melhor o perigo das pinturas de sinalização horizontal, as marcas brancas no solo sem qualquer tipo de componente antiderrapante”.
As vantagens do convívio na estrada
Vantagens inegáveis de quatro dias de contato muito direto, num ambiente descontraído como é o do Portugal de Lés-a-Lés, que permite criar e aprofundar relações de proximidade em torno daquilo que nos une. “Contactos que levaram a FMP a ser convidada de forma regular para marcar presença em campanhas, fóruns e debates, o que foi positivo em termos de visibilidade das motos e, sobretudo, em termos de segurança dos motociclistas” acrescentou Manuel Marinheiro. Que dá outros exemplos deste xadrez político gerado ao longo dos quilómetros da aventureira travessia do mapa continental.

“Veja-se o caso do presidente do IPDJ com quem é possível resolver questões que, no dia a dia, são bastante mais complicadas por questão de agenda. Ou com a Secretaria de Estado do Desporto. Uma maior proximidade que permite conhecerem os nossos problemas, a realidade do motociclismo e que tem levado mesmo a que amigos de outras federações tenham pedido para ir ao Lés-a-Lés juntamente com o meu grupo porque, por vezes, é a melhor forma de desbloquear a reunião que tanto aguardavam com o secretário de Estado ou os responsáveis do IPDJ”.
Sem fugir às responsabilidades
Uma tarefa presidencial a que Marinheiro não só não se furta como a enfrenta de forma decidida e serena. “O facto de ser presidente da federação responsável pelo Portugal de Lés-a-Lés aumenta naturalmente a responsabilidade porque os problemas que não podem ser resolvidos pela equipa – que é extremamente competente em cada uma das suas áreas e liberta de muitas dessas preocupações – terminam em mim. O que, sinceramente, nunca me incomodou até porque, por força da formação, em advocacia, resolver problemas e encontrar as soluções mais adequadas é o meu dia a dia”.

Aliás, garante o também vice-presidente da FIM Europa, “a responsabilidade maior são as decisões que é necessário tomar, em conjunto com a Direção ou a Comissão de Mototurismo neste caso, o que não rouba qualquer pitada de prazer. Uma das coisas mais entusiasmante no Portugal de Lés-a-Lés é a organização, a logística e todos os desafios que só servem para reforçar o orgulho em liderar esta equipa”.

Uma equipa que como se viu no Portugal de Lés-a-Lés 2025, apesar de extensa, “não é grande para cobrir todas as necessidades, obrigando a desdobrar-se e a quem se deve todo o mérito de ser considerado como um evento exemplar, atraindo cada vez mais participantes estrangeiros. E muitos, entre portugueses e estrangeiros, que querem repetir a experiência. Quando se descobre o Portugal de Lés-a-Lés volta-se sempre e isso é um motivo orgulho muito grande. Reencontrar e falar com os motociclistas que regressam sempre. Porque este é um ponto de encontro onde há amigos que só encontras uma vez por ano”.
Descobrir Portugal de Lés-a-Lés e conhecer… a sua moto
Como dirigente sempre preocupado com a questão da sinistralidade rodoviária, Manuel Marinheiro ressalta outro detalhe que a muitos parece passar despercebido. “Há uma componente muito importante, mesmo para os motociclistas muito experientes, que tem a ver com a evolução da condução e com o conhecimento da moto. E isso não significa que se passe a andar mais depressa, mas sim a curvar melhor, a ter menos cansaço e a saber gerir o esforço físico, para obter um maior prazer de condução e maior diversão”.

Uma componente pedagógica importante em termos de motociclismo a que se junta a possibilidade ímpar de “conhecer um País lindíssimo, que permitiu descobrir todos os anos coisas novas, em termos de paisagens, de restaurantes, hotéis. E isso é importante para os motociclistas como para os habitantes locais, sendo um evento de forte componente económica para as aldeias, vilas e cidades que atravessamos, garantindo a quem tem um café, uma bomba de combustível, um restaurante ou um hotel, alguns dos dias em que mais faturam durante todo o ano”.
Claro que, “independentemente da sempre importante questão económica, o mais interessante é sermos recebidos com o coração onde quer o Portugal Lés-a-Lés vá. É uma enorme emoção passar pelas escolas com as turmas todas bater palmas e a acenar nos pátios, porque, claro está, é impossível dar aulas com a longa caravana a passar…!”
Reflorestar Portugal de Lés-a-Lés
Responsabilidade social que começa pelos participantes no Portugal de Lés-a-Lés, a maior aventura mototuristica da Europa, evento sem paralelo em todo o Mundo, e que se revela nas mais variadas facetas. “O Portugal de Lés-a-Lés tem crescido em dimensão e passamos a ter as variantes Off-Road e Classic, sendo reconhecido internacionalmente e estando no calendário de eventos de mototurismo da FIM. Isso aumentou as obrigações com a segurança e com a logística para que todos se sintam realmente bem. Por isso fomos alterando e inovando, como aconteceu com a questão dos almoços”.

“A caravana do Portugal de Lés-a-Lés parava, sentava-se à mesa e comia-se bem, mas, por vezes, em demasia. Nos primeiros anos fomos muito criticados porque gostamos de estar à mesa e conversar, mas está longe de ser a melhor solução conduzir de barriga cheia. Por isso, a melhor solução para quem está sete, oito ou nove horas a conduzir é ir fazendo pequenas paragens para hidratar e comer algo leve, o que até criou uma saudável competição entre os parceiros da federação para ver quem oferece o melhor Oásis”.
Mas para além da sempre importante questão da segurança, sobretudo quando se fala de uma caravana com mais de 1000 motos na estrada, há outros pontos que visam a responsabilidade social como é o caso da campanha de sensibilização Reflorestar Portugal de Lés-a-Lés. Lançada após os grandes incêndios de 2017, enquadrada no 3.º Portugal de Lés-a-Lés Off-Road, “esta ação foi e continua a ser de extrema importância no capítulo social e ambiental, alertando para a importância da reflorestação com árvores autóctones para minimizar os riscos de incêndio e proteger os solos da erosão acelerada”.

Além dessa incomensurável vantagem, “permitiu cimentar o contacto com o ICNF que é a entidade responsável por grande parte do nosso território, sendo necessária autorização para atravessar certas áreas. São boas relações, baseadas no conhecimento e respeito máximo, que se estendem ao Todo-o-Terreno e ao Enduro, tanto na campanha de sensibilização como nas limpezas de floresta. Aliás, um dos critérios de escolha na atribuição de provas de ‘off-road’ é a limpeza e proteção da floresta e é normal os clubes logo, no dia a seguir à prova, os clubes organizadores publicarem fotos da limpeza das serras e caminhos”.
Descobertas fora de estrada
Numa opinião que é partilhada com milhares de motociclistas, Manuel Marinheiro reconhece que “é imprescindível ter esta responsabilidade social e manter esta louvável iniciativa tanto mais que somos os principais interessados em manter reduzida a pegada ambiental. Gostamos de andar pelas serras, em caminhos mais limpos, e a parte mais triste é quando temos de passar em áreas ardidas. É triste, mas precisamos de ter essa consciência da importância que a defesa da floresta também passa por todos os motociclistas. E uma das formas mais eficaz de combater os incêndios é, além da prevenção e alertas rápidos feitos pelos motociclistas, manter esses caminhos abertos através da passagem das motos”.

Tanto mais que, continua sempre de gás, “é necessário ter consciência de que Portugal é um dos únicos países da Europa onde ainda é possível fazer um evento destes e isso traz-nos mais responsabilidade para cuidar da natureza e dos solos para podermos atravessar estradas em áreas protegidas e andar fora de estrada num País tão bonito como o nosso”. Pragmatismo particularmente visível no Portugal de Lés-a-Lés Off-Road, “evento cada vez mais difícil de organizar porque no Alentejo, por exemplo, havia o costume de abrir e fechar os portões das propriedades à passagem. No entanto, como muitas foram compradas por estrangeiros que as fecham a cadeado, é cada vez mais complicado atravessar estas zonas”.

Um evento que surgiu em 2015 para grande satisfação de Manuel Marinheiro, endurista apaixonado, e que se justifica como “uma forma de agradar a gregos e troianos já que as partes em terra batida existentes no Lés-a-Lés de estrada não eram do agrado de todos e como havia cada vez mais pedidos para um evento fora-de-estrada, avançamos com o Off-Road. Que agora reúne muitos motociclistas que fazem os dois, com motos e espírito diferente, até porque, além de ser um conceito diferente em muitos pontos, é mais exigente em termos de preparação física e das aptidões de conduções em todo o tipo de terrenos”.
Das ‘quatro rodas’ que ficaram pelo caminho ao Classic
Ainda surgiu a possibilidade de criar uma travessia em tudo semelhante para veículos de quatro rodas, o Portugal de Lés-a-Lés Quad-UTV. Mas para lá dos maiores problemas causados pelo facto de serem veículos maiores e deixarem uma pegada ecológica mais forte, “o problema das matrículas para circular na via pública acabou por inviabilizar a ideia. É que, enquanto estão em competição, sob alçada da FMP, têm uma matrícula especial para competição, emitida pelo IMT mas que apenas é válida 48 horas antes e até 48 horas após a corrida”.

“Ora isso criava tantos problemas legais que o evento acabou por não se realizar. Juntá-los com as motos? Era particularmente complicado porque o Portugal de Lés-a-Lés é um evento não competitivo e tentamos que os participantes se respeitem ao máximo. Ora, se numa competição estão lá para ser o mais rápidos possível e para ganhar, aqui estes veículos levantariam demasiado pó colocando questões de bem-estar e segurança pelo que, por questões práticas e não por desconsideração, optamos por não o fazer”.

No entanto, sem estes problemas, foi avante o Portugal de Lés-a-Lés em versão Classic, uma inovação que resultou da atenção dada aos participantes, tentando sempre ir de encontro aos seus desejos e ambições. E que voltou a ser ponto de partida para nova aventura, “com muitas particularidades, mesmo para quem está no mundo das motos há muito tempo, e ao preparar o Classic sabíamos que eram motos antigas e uma das nossas preocupações era como organizar a equipa de mecânicos porque pensávamos ter mais motos avariadas”.
Mas, curiosamente, aconteceu exatamente o contrário! Não porque as motos não avariem, talvez até avariem mais, mas porque “há uma relação muito particular dos motociclistas com a moto. Ele quer repará-la, porque foi ele que a preparou, recuperou e não chama os nossos mecânicos”.
Desafios de futuro e um passado cheio de estórias
São propostas diferentes, mas igualmente atrativas, criadas e solidificadas durante a presidência de Manuel Marinheiro. Agora, que deixa o cargo na Federação de Motociclismo de Portugal, garante que continuará a marcar presença, “como outro qualquer participante”. E, conhecedor do que fala, lança um desafio: “O Portugal de Lés-a-Lés 2025 mostrou que este evento está cada vez melhor e convido quem nunca participou a participar. E, claro, espero continuar a ver quem já participa e vai, naturalmente, continuar a participar”.




Claro que continuará também a viver intermináveis estórias “em cada Portugal de Lés-a-Lés, um evento que é uma autêntica festa em andamento, com mais de 2000 pessoas em digressão pelo País ao longo de quatro dias”. E a testemunhar situações quase hilariantes como “a de um assessor que, depois de provar o Lés-a-Lés foi obrigado, ao segundo dia, a regressar a Lisboa para manter o cumprimento da agenda enquanto o seu superior estava connosco na estrada, levando a mesma moto. No ano seguinte, quando o convidei, muito educadamente recusou o convite porque… já estava inscrito e não ia deixar o Lés-a-Lés a meio!”
Entre muitas outras estórias, “como a de um chefe de gabinete que só ia experimentar no primeiro dia porque tinha um evento familiar marcado e ficou de tal maneira entusiasmado que quase foi preciso mandá-lo embora para ir ter com a família”, há também momentos reveladores das capacidades de todos os elementos envolvidos na organização.
“No arranque da campanha Reflorestar Portugal de Lés-a-Lés tivemos dificuldades em arranjar árvores em quantidade suficiente para plantar em vários locais do País. Através de um amigo das motos, consegui arranjar uma reunião com o ICNF e convenci-os a ajudarem a arranjar as árvores. O problema foi quando disse que era para daí a dois dias! Perguntaram se não tinha um pedido mais simples (risos) e só depois de um dos nossos elementos ter dito quais eram as árvores autóctones e em que viveiro existiam em quantidade suficiente conseguimos desbloquear a situação”.
Quando nem uma pandemia parou o Portugal de Lés-a-Lés
Momentos que contribuem para o um estreitamento de relações muito importante, quando se percebe que, afinal, “trabalhamos em conjunto para a defesa da natureza”. São estas estórias que fazem quebrar o gelo com as pessoas e ter relações cordiais com as instituições, “falando a mesma linguagem e facilitando conversações e autorizações à posteriori”. Entre as maiores dificuldades para colocar em marcha uma edição do Portugal de Lés-a-Lés contam-se as vividas em 2020, ano em que a pandemia Covid-19 ditou o encerramento quase total do Mundo.

Para Manuel Marinheiro, “foi, sem dúvida, o Portugal de Lés-a-Lés mais complicado de organizar, mesmo se os participantes não sentiram nada de transcendente para lá de um pelotão mais pequeno que o habitual, até porque os maiores stresses aconteceram antes do evento. E precisamente pelas dificuldades e obstáculos que foi necessário superar, foi dos que deu mais gozo organizar”.
Até porque, continua “com a caravana já na estrada, houve movimentos de protesto e proibições bacocas, sem sentido atendendo ao respeito absoluto pela legislação sanitária em vigor. Houve a necessidade de encontrar soluções e isso é algo que é mais complicado de gerir quando se viaja de moto, com uma grande caravana atrás em movimento. Mas com diálogo, bom senso e boa vontade tudo se resolveu da melhor forma, com o Portugal de Lés-a-Lés a decorrer da melhor forma”.

Partilha este artigo!







