Marcando a estreia de Miguel Oliveira na BMW M1000RR, a habitual sessão de treinos de pré-época no circuito andaluz de Jerez de La Frontera terminou com nota bem positiva para a formação da Rokit BMW Motorrad WorldSBK. O português e Danilo Petrucci somaram umas boas centenas de voltas e fizeram aquilo que era esperado, com tempos já deveras interessantes. Mas, acima de tudo, foram muitos os dados recolhidos para análise e que equipa e pilotos irão agora processar para os treinos que ainda faltam antes do inicio da época. Nova passagem por Jerez de la Frontera, visita ao AIA, em Portimão, e a semana que antecede a primeira prova da época, em Phillip Island, na Austrália.

- Texto: Fernando Pedrinho
- Fotos: WorldSBK / David Clares, MotoX.pt
Muito se falou já da estreia de Miguel Oliveira na BMW M1000RR mas, com os pilotos remetidos a um silêncio contratual que perdurará até ao final do mês de Dezembro, MotoX apurou mais dados sobre as sensações transmitidas pelos pilotos aos seus chefes de equipa através das respetivas ‘entourages’, no final de uma sessão que viu Alex Lowes rubricar o melhor tempo com a bimota KR998 Rimini da equipa oficial, marcando 1’37.825

Isto depois de uma evolução paulatina que viu Michael Van den Mark, o mais familiarizado com as máquinas bávaras, obter o quarto tempo mais rápido da sessão, enquanto tanto Petrucci como Oliveira na BMW M1000RR entraram no segundo ’38, sendo respetivamente o quinto (1’38.470) e o oitavo (1’38.890) na tabela de tempos. O que pode ser considerado um resultado particularmente positivo para quem nunca tinha pilotado uma verdadeira moto de Superbike calçada com um tipo de pneus que eram absoluta novidade para o piloto luso.
M88 concentrado nos pneus de corrida
Na declaração aos meios de imprensa, o diretor técnico da BMW Motorrad, Christian Gonschor, estava naturalmente satisfeito. “Os três pilotos somaram mais de 400 voltas ao traçado, sem quedas, com muita confiança e com os pilotos a adaptarem-se muito bem às motos” referiu o alemão, mostrando-se contente com o facto de “no final do segundo dia termos visto os três a rolarem no segundo ’38 com pneus de corrida e de qualificação”.

Isso foi uma aspeto importante para os homens da BMW, como frisou Christian, “pois necessitam entender o funcionamento da moto com estas borrachas mais macias de qualificação. Contudo, há que salientar que o Miguel Oliveira na BMW M1000RR concentrou-se essencialmente em rolar com os pneus de corrida, pelo que a evolucão na rapidez de um dia para o outro é ainda mais notável, pelo que mal podemos esperar por voltar a Jerez de la Frontera”.
Otimização de A a Z
O trabalho no segundo dia abrangeu os mais variados aspetos técnicos da afinação e de pilotagem, ampliando o à-vontade de Miguel Oliveira na BMW M1000RR, como frisou Christian Gonschor. “Continuámos o trabalho do dia anterior, com a afinação da parte hidráulica – suspensões e travagem – e boa parte do dia foi focada na eletrónica – a equipa acolheu Christopher Lambert como o novo responsável por esta parte, vindo da Provec, que representa os interesses da Kawasaki, e agora Bimota by Kawasaki, no mundial de Superbike – com principal atenção na desaceleração da moto como ajuda do travão motor e na saída de curva com apoio do controle de tração”.

“Por fim, ainda olhámos para a otimização ergonómica, já que os dois pilotos têm altura e peso distintos e, no caso do Oliveira na BMW M1000RR, conseguimos uma boa solução para o ter confortável em cima da moto e viu-se que ele desfrutou do prazer de pilotar durante a parte da tarde. Ou seja, saímos daqui com quase tudo o que tinhamos para ver na lista de tarefas relacionadas com os pilotos”.

Christian confirmou ainda que Michael van den Mark trabalhou exclusivamente no modelo de 2026 e “nas áreas que, tal como em 2025, tentámos melhorar ainda mais, ou seja, eletrónica, motor e aerodinâmica. A volta que ele efetuou com o pneu de qualificação demonstra que estamos no bom caminho”.
Shaun Muir afina pelo mesmo diapasão
O diretor da equipa SMR, Shaun Muir, que representa os interesses da BMW no campeonato afinou pelo mesmo diapasão quando se dirigiu aos media. “Se observarem os tempos que o Danilo e o Miguel alcançaram e compararem o do Michael, acho que efetuámos um trabalho fantástico”, revelou o britânico. O homem que se estreou no britânico de Superbike – BSB – em 2002, com a Honda e o apoio da Hydrex, confirmou que o transalpino preocupou-se essencialmente com a adaptação à potente travagem da M1000RR – herança deixada por Toprak – e às características de travão motor da moto, considerando que Petrucci efetou um trabalho de adaptação muito bom.

Já sobre Miguel Oliveira na BMW M1000RR, a transição dos pneus Michelin – de MotoGP – e a aprendizagem dos Pirelli de Superbike, foram como se esperava o principal ponto da agenda de trabalhos, uma vez que o seu colega de equipa leva já cinco anos de familiaridade com as borrachas da casa milanesa.
Curiosa é a afirmação de Muir sob a surpresa ao aperceber-se da rapidez de Oliveira na BMW M1000RR, mostrando agrado com o pacote eletrónico da máquina germânica e, principalmente, das características do travão motor.
Bruta e mais ao gosto de Danilo
Sem se poder extrair muito dos pilotos de forma direta, foi com aqueles que mais próximos estão deles que se pode saber algo mais sobre como a nova formação da equipa germânica viveu estes dois dias de aprendizagem da tetracilíndrica de Munique. Um deles foi precisamente o gestor de carreira de Danilo Petrucci, Alberto Vergani, que revelou ao nosso colega Riccardo Guglielmetti alguns pontos bem interessantes.
Em primeiro lugar o contentamento do natural de Terni em constatar a rapidez de Miguel Oliveira na BMW M1000RR, cujas referências no mundial de Superbike são bem mais escassas que as do italiano. Petrucci considera isso como um fato importante e que ajuda a manter a fasquia bem elevada dentro da equipa.

Por outro lado lado, o caráter mais mais selvagem da BMW obriga a maior agressividade na pilotagem. A Ducati Panigale V4R, em contrapartida, exigia uma aproximação mais suave, o que constrangia a explosividade de Petrucci. Ainda assim, algo confirmado por Toprak ao longo da época, a versão de 2025 era bem mais fácil de pilotar que a do ano anterior.
Primeira opção da Ducati
Para aqueles que já viam Miguel Oliveira a pendurar o fato para se dedicar à família após o encerramento do capítulo MotoGP, há sempre uma história que pode ajudar a compreender como o piloto nacional é visto dentro de ambos os ‘paddocks’ – MotoGP e Superbike – e que ajuda a desmistificar o derrotismo que se vive quando nem tudo corre bem. E recorde-se que as Yamaha foram, simplesmente, a pior moto da grelha de MotoGP deste ano.
Poucos sabem que a Aruba.it Ducati tinha como primeira opção para o lugar de Álvaro Bautista, precisamente Miguel Oliveira. Ou seja, se o sonho de se manter entre os protótipos se tivesse desvanecido mais cedo, o mais certo era termos o piloto de Almada a correr de vermelho com a moto da casa de Bolonha. Houve um momento em que os responsáveis da equipa comunicaram a Miguel que a resposta teria de ser imediata, dado que os contratos teriam de ser fechados nessa semana. Perante o pedido de adiamento de Oliveira, a Ducati não recuou e acabar por recrutar o valenciano Iker Lecuona.

Gorou-se o sonho de Miguel Oliveira correr com uma Ducati – nunca consegui esquecer o quão próximo ele teve de ser um recruta da Gresini MotoGP – mas a BMW aproveitou a deixa e contratou o luso, esperando garantir uma equipa mais equilibrada para o ataque decisivo ao título de construtores que ainda lhe falta, e que a queda de Toprak Razgatlioglu na corrida ‘Tissot Superpole’ de Jerez de la Frontera – quando Nicolò Bulega tocou no turco e o colocou fora de corrida – tirou o pão da boca à casa sedeada na Petuelring 130, de Munique.
Ascensão de Ivo Lopes cada vez mais longe
Tal como havíamos dito há pouco tempo, a ascensão como piloto regular do Mundial de Superbike por parte de Ivo Lopes está cada vez mais longe. Para já, na lista provisória dos 22 participantes oficiais publicada pela DORNA esta semana, não consta a presença da Petronas MIE Honda. Já desde há algum tempo que sabemos do drama que se abate sobre a ‘alma matter’ da equipa verde turquesa, Midori Moriwaki. De tal modo que a continuidade da equipa está em causa, não obstante os muitos esforços que estão a ser desenvolvidos para manter em atividade.

O apoio da petrolífera malaia da Petronas parecia estar garantido – com a obrigatória presença de pilotos da Malásia nas equipas de Superbike e Supersport – e a possibilidade de Ivo Lopes tomar o lugar que havia sido de Tarran Mackenzie e, depois de Tito Rabat, estava em aberto.
Sandro Moretti, o diretor da equipa, curiosamente, um advogado de formação, nunca escondeu a admiração que nutre pelo piloto da Amadora e sempre que houve um oportunidade lá o vimos a alinhar com uma das CBR1000RR-R Fireblade da única equipa satélite da Honda. Até ao início da temporada – no final de Fevereiro – ainda falta algum tempo e, como se diz por este retângulo à beira mar plantado, a esperança é a última a morrer.
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