Exatamente uma década depois do lançamento da TRK 502, no Salão de Milão 2016, chega ao mercado a Benelli TRK 902. Sem laivos revolucionários ou de promessas estratosféricas, é antes mais uma forte aposta num segmento cada vez mais importante no mercado nacional. Vem servida com forte imagem de família e exibe trunfos importantes, dos componentes de elevada qualidade ao preço ultracompetitivo, passando por um motor de eficácia comprovada. E, para absoluta adaptação aos desejos de todos os clientes, vem servida em dose dupla.

- Texto: Paulo Ribeiro
- Fotos: Alberto Cervetti/Benelli
Se há mérito que não se pode retirar à família TRK foi o de conseguir cativar muitos novos motociclistas, recrutados entre os que deixaram de conduzir há uns anos e queriam regressar até aos que subiam de degrau vindos das 125 cc. Em comum, a economia e a facilidade, embrulhadas num agradável invólucro, a mesma receita que deixa antever o sucesso da Benelli TRK 902 agora apresentada. Perdão: apresentadas, no plural! Sim porque na realidade são duas as Benelli TRK 902, a Stradale e a Explorer. Ou vice-versa, depende do gosto de cada um, tal como acontece com a Benelli TRK 702.


Duas máquinas substancialmente diferentes, ainda que partindo da mesma base mecânica, de componentes adequados a vocações distintas, condizentes com o nome de batismo. Olhando para as duas Benelli TRK 902 lado a lado facilmente se compreendem as diferenças que as apartam. Roda dianteira de 19 polegada, maior curso da suspensão (840 mm contra 820 mm) e maior altura livre ao solo (215 mm contra 190 mm), piscas embutidos nas proteções de mãos, ‘crash-bars’, proteção do cárter em alumínio, faróis de nevoeiro e descanso central na mais aventureira Xplorer. Rodas de 17”, para-brisas maior e ajustável eletricamente, piscas incorporados nas carenagens laterais e pneus diferentes para a Benelli TRK 902 Stradale.


Detalhes que marcam a estética diferenciada entre as duas versões, da mesma forma que alteram o comportamento. A começar, de forma óbvia, pela dimensão da roda dianteira e do curso das suspensões. A explicação encaixa nos objetivos intrínsecos de cada versão. Por um lado, proporcionar uma menor altura ao solo e maior à vontade para condutores de todas as estaturas, e um comportamento mais desportivo na Benelli TRK 902 Stradale. Por outro lado, oferecer uma imagem mais ousada e um nível de equipamento capaz de entusiasmar almas aventureiras, já a imaginar as fotografias da Xplorer com paisagens africanas em pano de fundo.
A irmã desportiva ou a irmã viajante?
Gémeas dizigóticas, partilhando mais de 50% do ADN, deixando assim bem evidentes as semelhanças familiares. Que começam no motor de dois cilindros paralelos, com duas árvores de cames à cabeça, oito válvulas e 904 cc (92 x 68 mm) disponibilizando 93,2 cavalos às 9000 rotações por minuto e um binário de 90 Nm às 6500 rpm. No entanto, como boas gémeas falsas que são, são donas de caracteres algo diferentes.

De resposta mais pronta, a Benelli TRK 902 Stradale revelou maior eficácia numa condução de pendor mais desportivo, mais cheia em baixas em qualquer um dos três modos de motor (Sport, Normal e Rain), o que é pago com vibrações acrescidas logo a partir das 4000 rpm. Por outro lado, foram notórias algumas falhas pontuais na afinação da injeção eletrónica, entregue a um duplo corpo de 46 mm de diâmetro e ignição Bosch Motronic ME17, detalhe em vias de absoluta resolução conforme comentaram os pilotos de ensaios da marca de Pesaro.

Um comportamento que, apesar dos técnicos italianos garantirem que não existe qualquer diferença a nível de configuração do motor ou da eletrónica, apresenta algumas variações em relação à Benelli TRK 902 Explorer. Buscando um maior conforto turístico, a entrega da potência é feita de forma mais progressiva neste caso, quiçá excessivamente, notando-se uma apatia até às 4500/5000 rpm altura em que desperta da letargia e mostra uma atitude mais alegre.

Com menores vibrações e maior linearidade, aconselha a utilização até por volta das 9000 rpm, faixa em que também o ‘quick-shifter’ instalado de série ajuda a tirar o melhor partido de uma caixa de velocidades com um escalonamento que parece desenvolvido a pensar numa utilização onde encaixa melhor a Benelli TRK 902 Xplorer. E que nem sequer é penalizada quando se recorre à manete de embraiagem ajustável, com assistência mecânica para maior suavidade e, graças ao sistema deslizante, preparada para uma utilização mais abusiva, aguentando as reduções mais abrutalhadas sem bloquear a roda traseira.
‘Sapatos diferentes’ adaptados a cada palco
Rodas onde reside mais uma diferença significativa entre estas falsas gémeas. De 17 polegadas em liga de alumínio na Benelli TRK 902 Stradale, contribuem para um comportamento mais incisivo nas mudanças de direção, com uma agilidade maior como comprovamos nas recurvadas estradas italianas das Dolomitas. Atitude que conta com o elevado patrocínio da menor distância entre eixos (1510 mm vs 1545 mm) e dos pneus Pirelli Angel Pilot GT (120/70 x 17” e 180/55 x 17”). Garantia de grande rapidez nas viragens e boa leitura do asfalto, levando a tocar no asfalto com o extensor do descanso lateral de forma natural e segura.
Já no caso da Benelli TRK 902 Xplorer, a jante dianteira de 19” de diâmetro e raios tangenciais para permitir a montagem dos Pirelli Scorpion Rally STR (110/80 x19” e 150/70 x 17”) obriga a arredondar mais as curvas. E a rapidez que perde nos ganchos é convertida na serenidade de condução, sem que isso represente menor velocidade em curva, apenas uma atitude diferente. Neste caso, o entusiasmo pode ser traduzido à letra no restolhar do descanso lateral pela estrada…

E note-se que para tirar o melhor partido do equipamento pneumático, aumentar a segurança e a durabilidade, ambas as versões estão equipadas de série com o sistema TPMS que permite o controlo da pressão e da temperatura dos pneus. Apenas um dos (importantes) detalhes de uma lista recheada de equipamento, que inclui ainda o prático ‘cruise-control’, facilmente ajustável entre os 30 e os 140 km/h de 4ª a 6ª velocidade, tomadas USB e USB-C, punhos e assento com aquecimento em três níveis, e controlo de tração desconectável através de botão específico.

Claro que, pensando na tranquilidade, outro equipamento obrigatório para uma máquina tão ambiciosa como a Benelli TRK 902 é o Cornering ABS, um ‘must’ em termos de segurança, que intervém de forma muito suave. Tão suave que passou praticamente despercebido nos muitos ganchos na estrada até aos 1808 metros de altitude do Passo Lavazè, na ligação das províncias de Trento e Bolzano. Um comportamento eficaz, evitando sustos e aqueles típicos ai-ai-ai de quem se apercebeu que entrou depressa de mais em curva, e que surge como importante reforço da competência do excelente sistema de travagem da Brembo.


Os dois discos dianteiros de 320 mm, com pinças monobloco de 4 pistões e fixação radial, oferecem uma potência muito elevada, apta a todas as solicitações, que é entregue de forma linear e muito facilmente controlável graças á montagem de uma bomba radial. E assim transmitindo acrescida sensibilidade à manete de travão das Benelli TRK 902, ajustável e com uma dimensão apta a todas as mãos.

Atrás, o disco de 260 mm e pinça de 2 pistões cumpre o que normalmente lhe é pedido, ajudando na correção em curva e deixando antever conforto acrescido em situações de viagem com carga e passageiro, minimizando os movimentos longitudinais.
Mais diferenças entre as duas Benelli TRK 902
Por falar na dinâmica da Benelli TRK 902, sublinhar que este é outros dos pontos em que existem diferenças significativas entre as duas versões. Isto apesar de o ‘hardware’ ser igual, com uma forquilha Marzocchi de 43 mm de diâmetro na dianteira, ajustável em pré-carga, extensão e compressão, e um amortecedor posterior, acionado por um braço oscilante em alumínio, que pode ser afinado em pré-carga, através de um prático controlo remoto, e recuperação do hidráulico.




A grande alteração prende-se com o curso permitido às rodas, de 170 mm na Xplorer contra os 130 mm da Stradale, com reflexos óbvios para além da altura ao solo. E mesmo sem mudanças significativas no capítulo do conforto, a dinâmica da Benelli TRK 902 Stradale mostra-se mais precisa, com substancialmente menos oscilações nas mudanças de inclinação. Fica a ganhar a rapidez e facilidade de colocação em curva e, sobretudo, nas rápidas mudanças direita-esquerda-direita, onde sobressai uma maior acutilância face à Xplorer.


No entanto, note-se, esta é uma sensação apenas notória quando temos a possibilidade de andar alternadamente nas duas propostas, algo sem influência prática no dia-a-dia já que o guiador largo da Benelli TRK 902 Xplorer e a própria posição de condução, facilitam a alavancagem em prol de uma condição bem fluida. E que ajuda a diluir a diferença de peso dos 240 kg a seco da Explorer contra os 230 kg da Stradale.

O condutor senta-se mais direito e com as pernas ligeiramente menos dobradas na Xplorer devido a uma diferença, ainda que mínima, na altura do banco aos poisa-pés, e com o corpo um nadinha mais atrás num assento que é bastante estreito junto ao depósito de 21 litros e mais largo na parte posterior. Fica a ganhar a facilidade em apoiar os pés no solo e a condução com os joelhos, bem como a condução em pé, mantendo uma superfície ampla na parte mais recuada para garantir mais conforto em viagem.
Conforto e segurança na ponta dos dedos
Aliás, toda a ergonomia da Benelli TRK 902 foi pensada para uma condução fácil e confortável, com notas excelentes para as manetes, reguláveis e com bom design, para os retrovisores, de boa visibilidade e sem serem afetados pelas poucas vibrações que escapam do motor, e para os comandos. Um conjunto de quatro pétalas que comandam a maior parte das funções, através do menu utilizável no painel TFT de 7 polegadas, de boa legibilidade, mas com visibilidade muito sensível à incidência da luz solar.


Painel com conetividade por WiFi e Bluetooth que, além de permitir atender ou recusar chamadas telefónicas, possibilita a navegação por mapa total ou indicações ponto-a-ponto através da App Carbit Ride (que pode aportar custos de utilização) ou através do espelhamento do telemóvel.

Um painel que permite visualizar e gerir o funcionamento de uma importante ferramenta de segurança como é o ADAS (Advanced Driver Assistance Systems) que deteta a existência de viaturas nos pontos cegos do campo de visão (Blind Spot Detection, BDS), que acautela as mudanças de via (Lane Changr Assist, LCA), e que alerta para a aproximação de veículos à retaguarda (Rear Collision Warning, RCW).
Todos os avisos são dados simultaneamente através de luzes nos retrovisores, de sinais luminosos no painel e de alertas sonoros, sendo que é possível configurar cada um deles ou simplesmente desligar estas funções no menu. De notar que o RCW avisa também o condutor do veículo que se aproxima em demasia através do piscar constante da luz de stop, minimizando riscos por distrações alheias.

Funções controladas pela Unidade de Medição Inercial (IMU) existente no coração da moto e pelo pequeno e super discreto radar colocado na parte posterior junto ao suporte de matrícula. E que, como praticamente todas as permitidas através do painel, incluindo a mudança dos modos de motor, só podem ser efetuadas com a Benelli TRK 902 parada, por uma questão de segurança,
Paradoxos estéticos ou de utilização?
Voltando ao jogo das diferenças, sublinhar dois ou três pontos que saltarão à vista assim que entrar num concessionário da marca para ver de perto as duas versões Benelli TRK 902. Depois de reparar que a estética mantém o ar de família que vem desde a TRK 502, com o bico de pato proeminente e o duplo farol esguio e tem uma assinatura visual em forma de T, notará que existem diferenças bem visíveis na dianteira. Vejamos.

Na Benelli TRK 902 Xplorer os piscas surgem embutidos no nas proteções de mão – o que não deixa de ser um contrassenso numa aventureira mais sujeita a quedas e toques na vegetação… – e o para-brisas, pintado, é mais pequeno e tem sistema de ajuste manual através de um curioso e simples sistema de roldana. Já na Stradale, o para-brisas é transparente e bastante mais protetivo além de que o ajuste em altura do mesmo sistema de quadrilátero (de grande beleza tecnológica, sublinhe-se) é eletrónico. Os piscas, esses surgem aqui bem protegidos, embutidos que estão na parte interior das carenagens laterais do depósito e radiador.






Diferentes são ainda as cores propostas para cada versão, com a Benelli TRK 902 Stradale disponibilizada em branco Heron, cinzento Pastel e verde Oxide, enquanto a Xplorer estará a venda, a partir do meio do mês de agosto, em Dune Sea, cinza Cement e verde Jungle Fog.
Quanto a preços, perfeitos alinhados com a concorrência, nomeadamente com as primas QJ Motor SRT 900 S e SX de quem herdam a mecânica e a maior parte da ciclística, a Benelli TRK 902 Stradale estará à venda por 8690 € enquanto a Explorer custará 8990 €, ambas com a oferta do conjunto de três malas em alumínio e oferecendo a possibilidade de aquisição sem juros. E se for dos primeiros clientes poderá ainda beneficiar da oferta do conjunto de três malas em alumínio… Já a prática mala de ferramentas pensada para montar no lugar do passageiro e indispensável nas viagens mais épicas será um acessório pago à parte.
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