Moto Morini X-Cape 700. Mais do que simples evolução
Junho 30, 2026

A Moto Morini X-Cape 700 é, mais do que uma simples evolução, a confirmação de que a marca italiana quer levar a sua proposta de trail de média cilindrada para um patamar de maior maturidade. Se a X-Cape 650 representou, em 2021, o ponto de partida para a renovação da marca, a renovada 700 surge como uma reposta clara a quem pedia mais motor, mais disponibilidade e uma presença dinâmica mais convincente.

- Texto: Paulo Ribeiro
- Fotos: Moto Morini Portugal
Agora, com nova vida em Portugal através do Grupo Multimoto, a Moto Morini X-Cape 700 surge para reforçar os argumentos de um modelo que já tinha conquistado atenção pelo estilo, pelo equipamento e pelo posicionamento competitivo. A principal novidade está, claro, no motor. O bicilíndrico cresce de cilindrada, passando dos anteriores 649 cc para 693 cc, resultado de um aumento do curso dos pistões em 4 mm (83 x 64 mm). Pode parecer uma alteração discreta no papel, mas é precisamente desse tipo de intervenção cirúrgica que, por vezes, nascem diferenças importantes na estrada.

A Moto Morini X-Cape 700 ganha assim mais 10 cavalos, elevando a potência para um patamar (70 cv) mais consentâneo com a imagem e a ambição do modelo, ao mesmo tempo que o binário sobe dos 54 Nm para 69 Nm. Na prática, mostra um motor mais cheio, mais disponível e mais apto a responder às exigências de uma utilização no quotidiano urbano, capaz de dar seguimento aos desejos turísticos ou de cumprir a vontade de uma condução mais entusiasmada em estradas secundárias.

Ainda assim, a entrega de potência da Moto Morini X-Cape 700 não é absolutamente imaculada. Há um vazio notório por volta das 3.000 rpm, um pequeno poço na resposta que retira alguma vivacidade às saídas de curva mais lentas ou aos arranques feitos de forma mais preguiçosa. Não compromete seriamente a utilização, mas obriga a adaptar o estilo de condução, nomeadamente com acelerações determinadas desde as rotações mais baixas.

Para tirar melhor partido do bicilíndrico da Moto Morini X-Cape 700, o ideal é manter o motor acima das 4.000 rpm, zona a partir da qual a resposta se torna bem mais viva e convincente. Altura em que ganha alma, sobe de rotação com grande disponibilidade e permite trabalhar a caixa de velocidades com naturalidade até uma sexta relação bem escalonada para utilização estradista.

Escalonamento bem conseguido e pensado para o tipo de utilização que se espera da Moto Morini X-Cape 700: primeira e segunda suficientemente úteis em contexto urbano ou em estrada mais sinuosa, relações intermédias capazes de explorar o melhor do motor, e uma sexta que ajuda a rolar, com maior descontração e economia, em vias rápidas. No entanto, a caixa revelou-se algo dura, menos fluida do que seria desejável num modelo com vocação turística tão evidente. Não chega a estragar a experiência de condução, mas é um daqueles detalhes mecânicos que o condutor nota e regista, sobretudo quando outras rivais já atingiram um nível de suavidade superior neste capítulo.
Ciclística inalterada é prova de eficácia
Se o motor é a mudança mais evidente, a base ciclística da Moto Morini X-Cape 700 continua a assentar em muitos dos elementos já conhecidos da versão 650. O que, longe de ser uma crítica gratuita, mostra inteligência ao aproveitar uma arquitetura que continua a fazer todo o sentido: quadro em tubos de aço, braço oscilante em alumínio e uma ciclística honesta, coerente com a filosofia da moto. A Moto Morini X-Cape 700 mantém a aposta em suspensões Marzocchi, com forquilha invertida de 50 mm totalmente regulável, argumento técnico que continua a diferenciá-la de muitas rivais no segmento.


Na Moto Morini X-Cape 700, as suspensões surgem como um dos pontos fortes do conjunto. Sem grande tempo para andar a explorar afinações alternativas, o ‘set-up’ de origem revelou-se muito interessante em termos de compromisso entre conforto e controlo durante o percurso da apresentação ibérica do modelo, nas bonitas estradas durienses. A dianteira filtra bem as irregularidades, transmite segurança em travagem e conserva uma sensação de frente consistente mesmo quando o ritmo sobe. A traseira acompanha bem o trabalho da dianteira, embora possa beneficiar, pelo menos para alguns condutores mais pesados ou para uma condução mais determinada, de um pouco mais de pré-carga.

Em certas entradas de curva feitas com mais decisão, antecedidas de travagem e seguidas de reaceleração forte, a Moto Morini X-Cape 700 tende a acusar algum molejar atrás, um ligeiro afundamento que não chega a desequilibrar a moto, mas que pode retirar algum rigor à trajetória.

Ainda assim, a Moto Morini X-Cape 700 revela uma boa base dinâmica. Não é uma moto nervosa, não procura impressionar por rapidez de reações, mas oferece previsibilidade e facilidade, qualidades muito importantes para quem procura uma trail estradista equilibrada. Entra em curva com naturalidade, mantém a linha traçada com aprumo e transmite uma sensação de estabilidade que inspira confiança. Sobretudo depois de endurecer a traseira! Em percursos mais abertos, mostrou-se sólida e confortável; em estradas mais reviradas, consegue disfarçar razoavelmente bem o peso, embora sem nunca o deixar esquecer por completo.

E é precisamente aqui que entra outro dado importante: o peso. A Moto Morini X-Cape 700 não é uma trail leve. Com mais de 210 kg, mais concretamente 213 kg segundo os números oficiais, a está longe de ser uma proposta minimalista ou particularmente apta a aventuras verdadeiramente exigentes fora de estrada. E isso sente-se. Não é uma moto que convide a brincadeiras em trilhos técnicos, nem uma trail para atacar zonas complicadas com um entusiasmo endurista. O peso está lá, a inércia está lá, e o conjunto geral da Moto Morini X-Cape 700 denuncia desde cedo que a prioridade está no uso misto com forte inclinação para o asfalto.
O habitat natural da Moto Morini X-Cape 700
Mesmo assim, não rejeita por completo a terra. A roda dianteira de 19 polegadas, com jantes de raios na versão mais aventureira, dá-lhe margem para enfrentar estradões, pisos de gravilha, caminhos florestais simples e troços de terra sem grande exigência técnica. A Moto Morini X-Cape 700 pode ir à terra, sim, mas convém não confundir essa capacidade com verdadeira vocação ‘off-road’, até porque estamos a falar de uma trail de inspiração aventureira, não uma moto de exploração pura e dura.

Com o modo Off-Road ativado, a Moto Morini X-Cape 700 desliga a intervenção do ABS na travagem traseira e também o controlo de tração, o que melhora bastante a leitura do terreno e a liberdade de atuação do condutor. Ainda assim, e apesar da melhoria no controlo em condução mais dinâmica, continua a ser uma moto pesada para fora de estrada e, nesse ambiente, o melhor que se pode dizer dela é que cumpre com dignidade dentro dos limites do conceito.

No capítulo da travagem, a Moto Morini X-Cape 700 conserva uma boa herança da geração anterior, com dois discos de 320 mm e pinças Brembo de quatro pistões na dianteira, um conjunto tecnicamente respeitável e que, em potência pura, não desilude. Trava bem e, depois de passar a fase inicial de pressão na manete, o controlo da desaceleração é bastante bom.

No entanto revela uma certa falta de tato nos primeiros milímetros de curso da manete. Existe um pequeno hiato inicial, uma zona morta em que não sentimos as pastilhas a morder como gostaríamos, talvez para dar tempo e não assustar os menos experientes… Depois dessa hesitação, a Moto Morini X-Cape 700 responde com força, progressividade e um ‘feeling’ bastante convincente.

Atrás, mostrou uma certa tendência para bloquear ou, mais corretamente, para provocar atuações do ABS nos momentos em que usamos o travão traseiro para ajustar a trajetória em curva. Em curvas que fecham inesperadamente, quando se tenta aconchegar a moto com o pedal direito, a Moto Morini X-Cape 700 pode reagir com uma intervenção algo prematura do sistema. Não é dramático, mas é um comportamento que alguns condutores vão notar e ao qual terão de se adaptar. Em contrapartida, a dianteira revela-se muito mais homogénea e é nela que está a verdadeira confiança da travagem deste modelo.
Acessibilidade urbana, conforto turístico
A ergonomia da Moto Morini X-Cape 700 é outro dos capítulos bem conseguidos. A posição de condução assenta numa lógica claramente turística, com costas bem direitas, pernas pouco dobradas e um guiador muito bem colocado. Aliás, o guiador merece nota especial, porque está extremamente bem ajustado para uma utilização de estrada, sendo simultaneamente possível elevá-lo um pouco, de forma fácil, para quem preferir uma postura ainda mais descontraída.

Esta posição de condução da Moto Morini X-Cape 700 aponta para a redução do cansaço em viagens longas e ajuda particularmente ao nível dos joelhos, algo que se valoriza bastante ao fim de várias horas em cima da moto. Quando chega o momento de conduzir em pé, a configuração também não complica demasiado: o apoio é fácil, o controlo geral é intuitivo e a transição sentado-de pé faz-se com naturalidade.



A vocação da Moto Morini X-Cape 700 está, contudo, muito mais virada para o turismo de média distância do que para grandes aventuras em terra. É nessa lógica que o banco, a proteção aerodinâmica e o equipamento fazem mais sentido. Apresenta-se como uma moto preparada para fazer quilómetros, à vontade nas autoestradas necessárias para ligar as mais divertidas estradas de serra, para enfrentar uso diário e escapadelas de fim de semana com igual disponibilidade. O conforto geral da Moto Morini X-Cape 700 encaixa bem nesse papel, e as suspensões Marzocchi, apesar do ligeiro molejar traseiro em utilização mais intensa, reforçam essas aptidões.
Nível de equipamento sobe de patamar
No plano do equipamento, a Moto Morini X-Cape 700 também mostra serviço, com a versão de jantes de raios, com imagem aventureira e um nível de equipamento mais rico, a custar 6.790 euros. Já a versão standard custa menos 300 euros, o que a coloca numa posição muito competitiva para quem não faz questão da roda raiada ou de uma imagem mais ‘adventure’.

O para-brisas é ajustável de forma muito simples em ambas as versões e, no caso da proposta mais equipada, a Moto Morini X-Cape 700 conta ainda com punhos e banco aquecidos, descanso central e pneus Pirelli Scorpion Rally STR, reforçando a ideia de uma trail pensada para utilização polivalente ao longo de todo o ano.
Referência ainda à câmara frontal que deverá chegar com as primeiras unidades a comercializar no mercado nacional, um elemento que funciona mais como um argumento de marketing do que de verdadeira necessidade. Mas que mostra como a Moto Morini X-Cape 700 procura acrescentar argumentos num mercado em que o consumidor olha cada vez mais para a lista de equipamento como fator decisivo. Em Portugal, com o esperado impulso dado pelo novo distribuidor, faz sentido que a X-Cape 700 tente afirmar-se também por esta relação preço/equipamento.

Em andamento, aquilo que a Moto Morini X-Cape 700 melhor transmite é uma sensação de moto grande, mas fácil. Não assusta, não exige grande adaptação e rapidamente se percebe o que quer do condutor. É certo que não é uma trail desportiva, nem uma referência em sofisticação eletrónica, nem a mais refinada do segmento em todos os detalhes. Mas consegue juntar presença, conforto, um motor francamente melhorado face à versão 650 e uma ciclística robusta o suficiente para convencer quem procura uma trail média com visual forte e utilização predominantemente estradista.
Essa evolução faz-se sentir sobretudo no motor. É aí que a Moto Morini X-Cape 700 justifica o novo nome e a nova ambição. O aumento de potência e binário não transforma a moto num míssil, mas torna-a mais competente, mais convincente e mais apta a lidar com pendura, bagagem e ritmos mais vivos. Parece agora menos esforçada, menos presa, menos dependente de trabalhar em regimes específicos — apesar daquele poço às 3.000 rpm, que continua a ser um ponto a rever.

Em jeito de resumo, a Moto Morini X-Cape 700 impõe-se como uma trail de média cilindrada com argumentos reais, tecnicamente interessante, com bom equipamento e uma ciclística competente, uma travagem globalmente convincente e um motor mais cheio do que antes. Não é uma especialista de ‘off-road’ (nem tem pretensões em sê-lo…) mas consegue lidar com incursões ocasionais fora do asfalto. Acima de tudo, é uma trail feita para viajar com conforto, inspirando confiança e apresentando um pacote muito equilibrado num mercado cada vez mais concorrido.
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