A Ducati Monster V2 poderia perfeitamente ser a figura central de um ‘remake’ motociclístico do célebre conto de fadas francês originalmente escrito em meados do Séc. XVIII por Gabrielle-Suzanne Barbot e adaptado vezes sem conta ao teatro, ao bailado, à banda desenhada ou ao cinema. Mas, melhor ainda, a nova versão da precursora do conceito ‘sport naked’ poderia mesmo fazer os dois papéis, tal a facilidade com que consegue mudar de carácter.

- Texto: Paulo Ribeiro
- Fotos: Ducati/Alex Photo
Por fora, qualquer que seja o ângulo de visão, a Ducati Monster V2 é, claramente, uma Bela e jovial princesa, oriunda de uma família carregada de história e incontáveis tesouros. Dos títulos mundiais de Superbike ou MotoGP até às mais exóticas joias como a distribuição desmodrómica ou a eletrónica desenvolvida nos circuitos de todo o Mundo. É a mais pequena do clã de Borgo Panigale mas é também a mais amada (e a mais vendida na história da marca!), sendo mais de 380 mil os que se renderam aos encantos desde que a primeira Ducati Monster V2 foi desvendada no Salão de Colónia – Intermot, de 1992.

Chegada à quinta geração com tamanha carreira de sucesso, a princesa italiana manteve-se fiel aos princípios da linhagem, com uma imagem que é inconfundível mesmo no meio de centenas de motos parqueadas em ruas de Milão, Paris ou Barcelona. O tradicional farol redondo foi modernizado, é certo, tal como o foi o depósito com as eternas linhas inspiradas no lombo de um bisonte. E, seguindo os originais traços desenhados pelo argentino Miguel Galluzzi, a mais recente das Ducati Monster V2 conta ainda com uma traseira esguia e ultracurta.




Linhas compactas e musculadas, antecipando o carácter de Monstro do motor, numa versão que mantêm a mais genuína fidelidade ao mote de Galluzzi. Que defendia que nada mais era necessário numa moto “para além de um banco, um depósito, um motor, duas rodas e um guiador” ainda que seja visível a maior maturidade da Ducati Monster V2. Pode não ter a impetuosidade de outros tempos – para defender a honra da casa italiana nesse particular está lá a irmã mais nova Streetfighter… – mas está longe de ter ficado letárgica ou ociosa. Pelo contrário, ganhou outros atributos, conjugando serenidade e energia graças à disponibilidade do novo bloco V2 e a uma completa e refinada eletrónica.
Beleza modernizada e um assento universal
Uma estética que, no entanto, conta com laivos de modernidade patentes no farol que, tal como toda a iluminação é em LED, mas tem as luzes diurnas (DRL) divididas remetendo para as mais desportivas da casa transalpina. Claro que, no depósito, com 14 litros de capacidade, não podiam faltar as entradas de ar que marcam a imagem desde a segunda geração da Ducati Monster V2, enquanto o banco, esse sim, ganhou uma renovada forma. Pensada para garantir maior confiança a todos os condutores e condutoras, com grande facilidade para apoiar os pés no solo.

O assento original está a 815 mm do solo e o facto de ser mais estreito 5 mm face ao anterior modelo oferece uma medida do arco das pernas bem reduzida, pensado para ser facilmente utilizado por alguém com 1,70 m. E para os mais baixos ou menos experientes há ainda a possibilidade de optar por um banco mais baixo (795 mm) ou ainda acrescentar o kit de rebaixamento da suspensão, com o a assento da Ducati Monster V2 a descer então para uns universais 775 mm.

O que não deverá mudar é o escasso conforto proporcionado por um enchimento que é aceitável nos primeiros 30 ou 40 quilómetros, tornando-se mesmo desagradável quando as tiradas superam a centena de quilómetros. Em defesa deste particular da Ducati Monster V2, apenas a certeza de que poucos a utilizarão muito para lá do ambiente urbano, o seu habitat por excelência.

Também aqui, no meio do trânsito citadino, o largo guiador ajuda nas manobras mais repentinas, bastando uma ligeira ação dos pulsos para mudar de direção de forma quase instantânea. E como está numa posição razoavelmente elevada (embora um pouco avançado demais), fácil é o controlo do ambiente em redor, apesar de uma posição de condução que é bem típica da Ducati Monster V2. Os poisa-pés estão recuados e elevados, criando um excelente entrosamento para os mais curtos de pernas, mas obrigando os mais atléticos a encontrar um compromisso no triângulo de condução. E que passa por aproveitar o máximo comprimento do lugar do condutor para deixar os braços mais soltos e evitar dobrar tanto os joelhos.
A flor que controla a Ducati Monster V2
Bem melhor em termos ergonómicos nesta Ducati Monster V2 estão os comandos, essencialmente concentrados junto ao punho direito, com um prático sistema tipo ‘joystick’ inspirado numa flor, com as pétalas a permitirem jogar com as várias opções enquanto o centro serve para confirmar cada uma delas através de uma simples pressão. De acionamento extremamente prático os opcionais ‘cruise-control’ e o aquecimento dos punhos montados nesta unidade e cuja supervisão é feita através do painel TFT de 5 polegadas.


O elevado contraste garante uma boa visibilidade tanto com o fundo negro como branco (que pode ser escolhido ou mudar automaticamente em função das condições de luz ambiente) num ecrã que pode ser visionado no modo Road ou Road-Pro. E se no primeiro são destacadas as informações mais úteis em viagem (totalizador de quilómetros, dois parciais, consumos e velocidades médias, autonomia, etc) já no segundo o destaque vai para os mostradores com a percentagem de potência e de binário utilizados em cada instante além dos níveis de intervenção das ajudas eletrónicos.
Claro que, além destas informações, o painel da Ducati Monster V2 oferece a velocidade instantânea, a rotação, temperatura ambiente e do motor, nível de combustível e um sempre prático relógio. Um painel pequeno, compacto, e que, juntamente com a inclinação do farol, promove um ligeiro desvio do fluxo aerodinâmico do tronco e cabeça do condutor. Ligeiro, note-se bem, que esta é uma verdadeira ‘naked’ a que nem o defletor frontal – que juntamente com a tampa do banco do passageiro dão origem à versão + (Plus) que custa mais 490 € – belisca o espírito ou minimiza o impacto do vento.
Evoluzione em toda a gama… de rotações
Mas se, por fora, a Ducati Monster V2 surge com muitas novidades, por dentro são poucos os parafusos que foram aproveitados da anterior versão. Completamente nova, recorre ao motor de dois cilindros em V a 90º, com 890 cc (96 x 61,5 mm), o mais leve V2 de sempre, com -5,9 kg do que o anterior Testasetretta Evoluzione.

Partilhado com a Multistrada, Panigale, Hypermotard e Streetfighter, surge aqui com uma potência máxima de 111 cavalos às 9000 rotações por minuto e um binário de 91,1 Nm às 7250 rpm. Números que são ligeiramente inferiores aos esgrimidos pelas irmãs, mas que surgem desde muito cedo na rotação, com força disponível aos primeiros movimentos do punho direito e uma sensação de vitalidade em todo o regime.

Sensação que a Ducati expressa em números, garantindo que 70% do binário está disponível desde as 3000 rotações por minuto e que entre as quatro e as 10.000 rpm nunca baixa dos 80%! Na base desta resposta está o sistema de abertura variável das válvulas de admissão (IVT, de Intake Variable Timing) em função das indicações do acelerador e, entre outros, dos sensores de velocidade e da relação engrenada, que vai gerindo a quantidade de mistura ar/gasolina que é injetada nos cilindros.


Na prática o que esta Ducati Monster V2 oferece é uma enorme facilidade de utilização em todos os regimes, perfeitamente adaptada a uma utilização urbana, mas sem descurar o prazer de condução nas mais curvilíneas estradas de montanha. As acelerações são fortes e sólidas, com grande progressividade e uma entrega de potência linear em qualquer um dos quatro modos de utilização e sempre com uma sonoridade entusiasmante. Mesmo em Wet ou Urban, onde a potência está limitada a 95 cavalos e o controlo absoluto é palavra de ordem, a diversão existe. Só que com máxima segurança, limitando a possibilidade de sustos!

Notório é, em todos os momentos, uma forte ligação entre o acelerador da Ducati Monster V2 e a roda traseira, passada a exagerada folga inicial nos movimentos do punho esquerdo, claramente pensada para acautelar gestos precipitados dos menos experientes. A partir daí, a sensação de controlo repete-se em cada saída de curva, mesmo quando os níveis de entrega de potência são mais vivos, como no caso do modo Road, ou até superdivertidos quando se roda em Sport. Ok, não tem aquela saída brutal da Streetfighter mas a orientação da Ducati Monster V2 é manifestamente diferente.
O trabalho invisível de Marquez, Bagnaia e Cª
Além do sistema de admissão variável e das aligeiradas válvulas de admissão com hastes ocas, que contribuem para uma maior rapidez à demanda do acelerador, existe ainda uma parafernália eletrónica que mantém a Ducati Monster V2 nos eixos. Desde logo com os níveis de potência diferenciados (High, Medium, City e Low) e que podem ser ajustados individualmente, até aos controlos que integram o Ducati Advanced Vehicle Control (DAVC). Tecnologias desenvolvidas pelo departamento Ducati Corse e testadas em pista por Marc Marquez, Francesco ‘Pecco’ Bagnaia, Nicolò Bulega ou Alvaro Bautista, que reforçam a segurança, permitindo aproveitar toda a performance do motor com máxima eficácia.

Ajudas à condução que assentam nas informações recolhidas e geridas pela Unidade de Medição Inercial (IMU) de seis eixos, e que foram desenvolvidas a pensar numa maior abrangência em termos de condutores e condutoras da Ducati Monster V2. Garantia de um nível de segurança muito elevado, além da grande eficácia que os pilotos de fim de semana vão adorar, que assenta nos controlos de tração (que pode ser afinado em 8 níveis e desligado), Anti-Wheelie (4 níveis e Off), e de travão-motor (3 níveis), além de um sistema de ABS com funcionamento em curva (Cornering ABS) ajustável em 3 níveis.


O que quer dizer que é possível apostar na segurança absoluta com os níveis de intervenção no máximo ou ser um verdadeiro piloto à antiga, desligando tudo o que há para desligar. Mas, como em quase tudo na vida, no meio reside a virtude e para terem uma ideia das possibilidades da Ducati Monster V2, dizer que qualquer aprendiz de feiticeiro pode tornar-se no mestre dos cavalinhos ou das derrapagens controladas, acelerando sem receios desde que tenha as afinações indicadas para cada figura de estilo.



IMU que ajuda ainda a melhorar o funcionamento do sistema Quick-Shifter 2.0 que torna as passagens de caixa extremamente rápidas para um maior aproveitamento do motor rumo a uma maior diversão. Mas que, apesar de toda a eficiência na Ducati Monster V2, não disfarça a origem desportiva da precisa e bem escalonada caixa, deixando transparecer o toque metálico oriundo dos carretos de dentes direitos tradicionalmente usados nas corridas.
A caixa que mudou a Ducati Monster V2
Da competição veio também o futurista chassis da Ducati Monster V2, assente numa monocoque de alumínio que é uma espécie de caixa com 3 mm de espessura (aproveitada para instalar o filtro de ar), que utiliza o motor como elemento de dissipação de esforço e está unida à coluna de direção e a um curioso sub-quadro. Que junta elementos de treliça tubular em aço e uma estrutura de tecno polímero, sendo na prática um elemento em plástico reforçado que garante peso reduzido e elevada resistência.

Oferecendo uma boa relação entre a rigidez necessária para a estabilidade em estrada e a flexibilidade que favorece as mudanças de direção, é o ponto de partida para um conjunto ciclístico cuja validade já tínhamos comprovado junto das irmãs da Monster, da Panigale à Multistrada, e que voltou a surpreender pela grande estabilidade, mas, acima de tudo, pela enorme agilidade.

Tão fácil de colocar em curva que vai surpreender condutores experientes e motos bem mais potentes e com outros atributos, aproveitando na perfeição a mais recente versão dos Pirelli Diablo Rosso (IV). Equipamento pneumático (120/70 e 180/55) que chega à temperatura ideal de funcionamento em poucos quilómetros e que transmitiram grande confiança, mesmo nas estradas frias e com alguma humidade encontradas nos arredores de Málaga, incluindo nas passagens montanhosas do Parque Natural de Sierra de las Nieves.
A nobreza da eficácia com todo o conforto
Aliás, toda a Ducati Monster V2 revelou um comportamento muito bom, com o conjunto de amortecimento Showa a revelar razoável equilíbrio entre conforto e eficácia, só se descobrindo algumas limitações quando o ritmo subiu para lá daquele que consideramos ser o de uma utilização normal da Monster.

A forquilha invertida de funções separadas de 43 mm de diâmetro e 130 mm de curso e o monoamortecedor ajustável em pré-carga e com 145 mm acabam por revelar um ligeiro bambolear em curva, impedindo trajetórias mais precisas, mas com a vantagem de absorver melhor as irregularidades do piso. Nomeadamente as bossas criadas no asfalto pelas raízes de árvores, evitando sustos na condução quando se leva a Ducati Monster V2 aos limites do razoável para uma ‘naked’ menos desportiva e mais abrangente face a algumas das anteriores versões.

Também a travagem da Ducati Monster V2 se rege por estas linhas orientadoras, beneficiando a progressividade e com uma potência que, por força das pastilhas escolhidas para equipamento original, só surge em todo o seu esplendor quando se aperta fortemente a manete dianteira. Altura para sentir o morder dos conjuntos de 4 pistões que equipam as pinças Brembo M4.32 de fixação radial nos discos de 320 mm de diâmetro. Uma travagem naturalmente inspirada nas pistas onde, para lá da grande potência, sobressai a facilidade de controlo e o excelente tato, em grande parte proporcionado pela bomba radial e pelas pastilhas especialmente desenvolvidas para este modelo.


Já atrás continua o registo de enorme progressividade, mas aqui com menos potência no disco de 245 mm com pinça de dois pistões, obrigando o ABS a funcionar mais amiúde sempre que a força de travagem vai para lá do simples aconchego. Uma vez mais, e sem comprometer, é notória a filosofia mais urbana e serena desta Ducati Monster V2 que, mesmo com relevantes argumentos técnicos, herança de uma família habituada aos mais glamorosos palcos de MotoGP e Superbike, mantém inalterada a jovialidade que sempre a caracterizou.
Preço elevado? Há que fazer bem as contas…
Icónica, divertida e eficaz, a nova Ducati Monster V2 promete continuar uma história de sucesso estando já disponível no mercado nacional por um preço de 13.205 euros no tradicional vermelho Ducati enquanto ao optar pela decoração no branco Iceberg terá de desembolsar mais 195 €. Imagino que, no ano em que comemora o centenário, a marca italiana venha a lançar algumas versões especiais, incluindo desta Ducati Monster V2 que terão, naturalmente, um preço condizente com a exclusividade.

E que, antes de ser considerado exagerado para uma ‘naked’ deste segmento, deve levar em linha de conta consumos entre os 5,2 L/100 km anunciados e os 5,7 L/100 km que registamos neste primeiro contacto num ritmo que não foi propriamente de passeio. Outra nota interessante quando se fala de economia prende-se com o ajuste de válvulas previsto apenas a cada 45 mil quilómetros.

Individualidade que é sublinhada por detalhes como os números gravados nas tampas laterais junto aos joelhos, que, além de contribuírem para melhor apoio e desviar o ar quente oriundo do motor, indicam as coordenadas do local de nascimento da Ducati Monster V2, na maternidade de Borgo Panigale. Exclusividade que pode ainda ser reforçada pela longa lista de acessórios disponibilizados, dos escapes da Terminogni, às peças em fibra de carbono ou alumínio maquinada, punhos aquecidos, assento mais baixo ou desportivo, alarmes antirroubo e diversas soluções de transporte e proteção.
Tudo em prol do reforço do inconfundível estilo que sobressai da sempre subjetiva análise estética da Ducati Monster V2 e que remete de imediato para as míticas linhas idealizadas por Galluzzi há mais de 30 anos, com o peso visual concentrado no depósito em contraste com uma traseira verdadeiramente minimalista. Formas que reforçam uma atitude muito própria de estar no universo motociclístico porque, afinal, uma princesa é sempre Bela… Mesmo que tenha alma de Monstro!
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