Há mais uma marca a operar oficialmente no mercado português de motociclos. A Bajaj está entre os cinco maiores fabricantes do Mundo, com 7,11 milhões de unidades fabricadas em 2025 (entre motos e ‘tuk-tuk’ de que é o maior produtor mundial), e chega a Portugal com posicionamento bem claro. Os preços serão competitivos, garantem, mas o mais importante será, sempre, a atenção ao cliente! A abertura de uma ‘flagship store’ em Lisboa foi o primeiro passo naquele que é apenas o segundo país europeu com presença oficial da Bajaj.

- Texto: Paulo Ribeiro
- Fotos: Bajaj/Luís Duarte
Em tempo de acentuadas e rápidas mudanças no panorama motociclístico mundial, a presença de fabricantes indianos na Europa ganha relevante consistência. Ok, deixemos de lado a Royal Enfield, marca com uma história diferenciada e sempre olhada como europeia, e pensemos em emblemas como a TVS ou a Bajaj. Verdadeiros colossos industriais e financeiros, assentes num dos maiores mercados do Mundo, mas com uma enorme capacidade de expansão que, no ano fiscal de 2025, valeu à Bajaj faturação recorde de 5,5 mil milhões de euros!
Um crescimento de 11,9% numa operação que se estende por mais de 100 países para lá do gigantesco mercado indiano, na América Latina, África, Médio Oriente e Sudeste Asiático, e que integra o Bajaj Group de mais de 40 empresas, do fabrico de automóveis à área financeira, passando por seguros ou eletrodomésticos, e incluindo a KTM. Da qual é acionista maioritária (74,9%) desde novembro 2025 num investimento de 800 milhões de euros.
O gigante Bajaj
No entanto, e apesar das dimensões descomunais destes números, a entrada da Bajaj em Portugal será marcada pela discrição, tendo em vista uma solidez sustentada em valores de qualidade. Para já ainda reduzida a três modelos (Pulsar NS125 e NS400 e Dominar 400), a gama mas que deverá crescer rapidamente, com a Pulsar N125 a chegar antes do verão a um preço muito competitivo, e a scooter elétrica Chetak mais para o final do ano, disponíveis numa rede de concessionários que está ainda a ser estabelecida.

A estratégia adotada para a entrada da Bajaj em Portugal é clara, como inequívocos parecem ser os objetivos apontados pelo responsável de vendas no mercado nacional. Para Vasco Ferreira, “a Bajaj chega a Portugal como uma marca que quer estar no mercado europeu, que quer posicionar-se como uma marca acessível ao público europeu e português, nomeadamente com a gama de 125 a 400 cc, mas como uma marca de qualidade, de fiabilidade e que garante um pós-venda premium”.

Este parece ser, aliás, o vetor principal de toda a implantação e futura consolidação da Bajaj em Portugal, com uma filosofia “assente na diferenciação” face a outros ‘players’ do mercado. “Uma diferenciação que passa não só pela acessibilidade de produtos adequados ao mercado português, mas, sobretudo, pelo pós-venda”, pela rapidez na disponibilização de peças como na qualidade do serviço técnico. “Nesse sentido, está a ser feita a seleção de alguns concessionários e oficinas para estarem certificados, sendo importante que todos esses pontos de pós-venda Bajaj estejam munidos de ferramentas especiais e adequadas às condições dos veículos. Isto, claro, além da formação técnica adequada, que é também facultada pela marca, e de peças de reposição para entrega/reparação imediata”.
A melhor experiência de marca
O diretor de vendas para Portugal diz mesmo que essa será uma das apostas da Bajaj “com stock de peças de reposição e consumíveis mais usuais nas oficinas, sejam filtro de óleo ou pastilhas de travão, por exemplo, e no caso de outros componentes a entrega é garantida entre 24 a 48 horas”. Um ponto que é coincidente com o grande cuidado posto na parte oficinal na escolha da rede de concessionários.

“O objetivo, além da ‘flagship store’ em Lisboa e da abertura em breve de uma segunda no Porto, passa por alargar a rede através de concessionários multimarca, garantindo sempre os pós-vendas associados, ou seja, certificados pela própria Bajaj, tendo todos os mecânicos e técnicos formação direta pela marca”.
Uma atitude que pretende ser fator de diferenciação para a Bajaj, “procurando a máxima satisfação do cliente, uma experiência global mais rica” que vá além da simples aquisição de uma moto. O que nos leva a uma pergunta natural: será exequível e fará sentido dar tamanha importância e dedicar tantos meios para beneficiar o pós-venda de uma marca de posicionamento acessível?

A resposta do Area Sales Manager surge acompanhada por um sorriso próprio de quem estava à espera da questão. “Não é algo normal de se ver, é certo. As marcas que têm uma tendência de preços mais baixos, mais abrangente em termos de valores, pecam exatamente por isso. E essa a filosofia que vai nortear a Bajaj em Portugal como já acontece noutros países em todo o Mundo”.
Crescer com uma boa rede de segurança
Uma rede de concessionários que, para além das duas lojas de marca, a recém-inaugurada em Lisboa, na Avenida de Berna 56C, junto à Fundação Calouste Gulbenkian, e outra que deverá abrir no Porto em abril ou maio, oferecerá uma cobertura de todo o território nacional, com cerca de 15 locais de venda e assistência, com um conceito multimarca onde existirá um ‘corner’ dedicado à marca e um pós-venda especializado.

Espaço para uma gama que, na entrada em Portugal terá três modelos, a Pulsar NS125 (2549 €), a Pulsar NS400 (4499 €) e a Dominar 400 (4299 €), seguindo-se a bem equipada Pulsar N125, aunda antes do verão e com um preço bombástico na ordem dos 2000 euros e, mais lá para o final do ano, a scooter elétrica Chetak.

Uma gama que deverá crescer até uma dezena de propostas em 2028, existindo a possibilidade de crescer para lá da fatia 125-400 cc, com o lançamento de uma trail de 500 ou 600 cc. A Bajaj estará neste momento desenvolver um novo motor, de dois cilindros paralelos, apostando num alargamento de gama que trará novos modelos mais enquadrados com o público europeu. Isto porque, em termos de gama, a Bajaj tem inúmeros modelos das mais variadas cilindradas, mas que são pouco atrativos para o mercado do Velho Continente.
Os objetivos bem claros da Bajaj
Um futuro que, afinal, já começou para a Bajaj e desde logo com razoáveis expetativas em termos de volume de vendas. “A ideia passa por conquistar cerca de 3% de quota nesta faixa de cilindrada, o que se deverá traduzir entre 200 e 300 unidades neste primeiro ano. Talvez até março de 2027 seja exequível…”
Uma coisa é certa. Apesar de praticamente desconhecida em Portugal, a Bajaj chega com importantes ‘cartas de apresentação’ tendo ganho experiência com as parcerias com a KTM – de que agora é proprietária – mas também com a Triumph. Vasco Ferreira apresenta a Bajaj “como uma marca ativa e tecnológica, tendo como vantagem face às marcas chinesas o facto de estar associada a marcas históricas e grandes grupos com longa experiência em mercados globais. A Bajaj é um grande produtor industrial de veículos de duas e três rodas e, portanto, a tecnologia e o ‘know-how’ estão lá. Agora é uma questão de tempo para adaptar as cilindradas, os designs das motos, de ir ajustando e evoluindo com o mercado europeu”.

É certo que a Bajaj tem um extenso catálogo de propostas, mas há uma outra questão que se levanta. Afinal, interessa saber qual o interesse financeiro nesta operação de integração no mercado europeu, tentando perceber se os modelos existentes podem ser adaptados, de forma mais ou menos fácil, às exigências o Euro5+ ou se serão criados modelos novos. Uma questão estratégica que carece de tempo para ser devidamente percebida, com esta estreia na Península Ibérica, de onde o Medavi Motor Group, que integra o Grupo UMA, poderá fazer a expansão para o mercado europeu.
Johannes Wöhrle: Aprender com Portugal
Aproveitando a inauguração desta ‘flagship store’ em Lisboa, MotoX.pt esteve também à conversa com Johannes Wöhrle, o Diretor Geral do Grupo UMA para a Europa. Com formação académica em Engenharia e em Ciências Humanas, com especialização na área de Negócios Internacionais, este alemão que trabalhou com a Harley-Davidson, Porsche e KTM, foi desviado do cargo de General Manager da América Latina da marca austríaca para liderar o alargamento do Grupo UMA para a Europa.

Mas, afinal, o que é o Grupo UMA? “É um grupo internacional com negócios locais. Isto é onde quer que tenhamos uma empresa, temos pessoas locais. Esse é, aliás, o lema da empresa: Somos internacionais, mas atuamos sempre de forma local. A sede para a Europa, que é uma empresa completamente independente, fica em Madrid. Temos empresas em vários países, principalmente na América Latina, também no Caribe, da Guatemala à Nicarágua, passando pelas Honduras, Guatemala, El Salvador, República Dominicana e Colômbia. E agora Espanha e Portugal, porta de acesso à Europa, com planos de expansão, mas de forma bem planeada e adaptada às necessidades e exigências de cada mercado”.
Uma aprendizagem que começou em Espanha e que agora continua em Portugal com a abertura da primeira loja Bajaj e adaptação às especificidades de um mercado que requer uma estratégia própria. “Como têm todos os mercados europeus para onde pensamos expandir o negócio. Espanha foi uma escolha óbvia na entrada na Europa porque estamos a utilizar a América Latina como espécie de ‘back-office’ devido a vantagens de custos, sobretudo em questões administrativas, e sem a barreira do idioma”.

“No caso de Portugal é diferente, com uma nova empresa, Medavi Motor Group, que é completamente independente apesar de ter algumas relações com a UMA Europe. Apesar de aproveitar algumas sinergias do ‘back-office’ em Madrid temos aqui uma equipa 100% local, com o Vasco (Ferreira) em colaboração com a empresa Zemarks”.
Preços acessíveis, mas fixos
Uma independência e autonomia de negócio importante para uma melhor e mais rápida adaptação a um mercado onde “o cliente é mais sensível aos preços e onde poderá residir uma grande vantagem em relação aos principais concorrentes diretos que é a comunicação. Que nem sempre é realmente clara! É algo que é sempre discutido em equipa é que a comunicação em termos de preço deve ser muito, muito clara. Não há negociações ou o que quer que seja. Temos o melhor preço. Centralizamos o preço e garantimos que os concessionários também sigam nossa estratégia”.

Que é como quem diz, não adianta ao cliente andar a saltar entre concessionários porque o preço será uniformizado. Para Johannes Wöhrle este é “um aspeto onde a Bajaj será melhor que os concorrentes, sendo que a forma de trabalhar com os revendedores em Portugal também é um pouco diferente. E tivemos oportunidade de analisar os principais ‘players’ do mercado e entender porque estão a fazer um trabalho melhor que outros, mas também de aprender com alguns erros. Além disso, e porque o líder de mercado aqui não é o líder de mercado na Espanha, tínhamos de entender completamente quais são as vantagens e desvantagens de cada um e de todos”.
Entender o cliente é prioridade absoluta
Sendo a comunicação um dos pilares-chave do distribuidor da Bajaj em Portugal, a promessa passa por “entender claramente o que os clientes querem e o que mais valorizam. E para a Bajaj o pós-venda é tão importante quanto as vendas, talvez até um pouco mais importante. E nesse sentido, ainda antes do desembarque das motos já cá estavam as peças o que vai permitir solidificar a gestão de vendas”.

“Fomentar uma boa experiência e criar uma boa relação com o cliente final é a meta da Bajaj em Portugal e isso não pode ser feito com 40, 50 ou 60 concessionários, como acontece com alguns concorrentes aqui em Portugal. É necessária concentração absoluta na qualidade e facilidade de contacto. Sempre que o cliente queira comunicar connosco, telefonando, por email ou através do chat, pode fazê-lo diretamente e a Bajaj trata de tudo diretamente com o cliente. O que é, sem dúvida, uma grande vantagem, trazendo confiança para os produtos e para o Grupo UMA enquanto parceiro”.
E essa será, acredita Johannes Wöhrle, que começou a carreira profissional como mecânico, “a principal diferença entre as diversas marcas chinesas instaladas no mercado português e a Bajaj. A forma como lidamos com o pós-venda, a forma como tratamos todo o processo de assistência ao cliente, será um trunfo importante, com a mesma importância dada às peças de reposição e rapidez na resolução das necessidades do cliente do que à venda de motos”. Uma importância com reflexos na “relação a longo prazo que queremos ter com os clientes, garantindo que tenham rapidamente as peças sempre que necessitarem delas. E o ponto principal da estratégia da Bajaj passa mais por garantir uma boa experiência do que vender mais unidades”.

Reconhecendo que, “mesmo que, por vezes, as motos não sejam as mais baratas face à concorrência chinesa, o mais importante é a experiência, o pós-venda e o produto. Que é muito fiável e a um preço competitivo. Não faz parte da estratégia da Bajaj vender um produto novo a cada dois anos, apostando antes em ver as motos nas estradas daqui a 10 ou 20 anos. Essa é a filosofia da Bajaj e é completamente diferente das maiores empresas chinesas”.
Porque a aposta é seguir uma direção diferente, oferecer o que o mercado quer, agitar o mercado local e vencer a longo prazo. E sempre perto do cliente, criando uma relação de confiança e uma ligação afetiva com a Bajaj.

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