A Moto Morini Alltrhike 450 é histórica para a marca de Bolonha, assinalando a entrada no segmento das trail de capacidade intermédia. Uma fatia de mercado cada vez mais aliciante e, por isso mesmo, também cada vez mais disputada. Uma classe onde facilidade, leveza e polivalência são valores que levam a sair da cidade rumo a novas e aventureiras paragens. Apta a todos os condutores, a começar pelos detentores da carta A2, a Moto Morini Alltrhike 450 é uma verdadeira proposta de aventura para todos… em italiano.

- Texto: Paulo Ribeiro
- Fotos: Moto Morini Portugal
O nome da Moto Morini Alltrhike 450 deve ser decomposto para entendermos o conceito que levou os italianos a enveredar por um novo caminho. Sim, italianos, porque apesar de pertencer desde 2018 aos chineses do Zhongneng Vehicle Group, a empresa mantém o centro de design, desenvolvimento e a sede europeia na localidade italiana de Trivolzio, na Lombardia italiana, a pouco mais de 25 km de Milão.

A pronúncia pode, em alguns idiomas, atropelar-se entre o ‘all’, o ‘tr’ e o ‘hike’, numa combinação que o departamento de marketing da Moto Morini imaginou poética. Evocar o verbo inglês ‘hike’ (caminhar, percorrer trilhos) misturado com ‘all-rounder’ (polivalente). A intenção era bonita e o resultado acabou por ser bem interessante. Pelo menos em Português, porque noutras línguas nem sempre é fácil de acertar à primeira. Mas depois de a conduzir todos vão, pelo menos, perceber o conceito por detrás do nome.
Uma estreia que causou apenas meia-surpresa. Primeiro, porque já se conhece a capacidade histórica da marca, criada por Alfonso Morini em 1937, para responder aos desafios. Segundo, porque a Moto Morini Alltrhike 450 não nasce de uma folha em branco, antes aproveitando uma base de provas dadas e que o mercado nacional bem reconhece.

Fomos descobrir a mais pequena da marca agora distribuída na Península Ibérica pelo Grupo Multimoto, num percurso de estradas ora boas, ora assim-assim, ora mesmo más, mas também exigentes trilhos de todo-o-terreno. E, depois de um dia de grande tareia por percursos bem enduristas pela Serra do Marão, chegamos à conclusão de que é possível ter uma moto de aventura sem colocar em cheque as finanças domésticas.
Uma questão de (muito) fácil acesso
A primeira coisa que se sente quando se sobe a bordo da Moto Morini Alltrhike 450 é uma enorme sensação de facilidade. Até pode parecer um elogio banal quando é, na verdade, uma das qualidades mais subestimadas das motos modernas. E se a ficha técnica anuncia 840 mm de altura de assento, a verdade, daquelas que só se descobre com o rabo no banco e os pés no chão, é que a moto é bastante baixa e acessível.

O segredo está no estreitamento do quadro e do depósito da Moto Morini Alltrhike 450 na zona de contacto com o condutor, permitindo colocar ambos os pés no chão com naturalidade, o que inspira uma confiança imediata. O que, num segmento onde a experiência é muitas vezes curta, não deve ser visto como mero pormenor, antes meio caminho andado para a escolha.

Claro que, para ganhar este trunfo, houve que fazer cedências. A posição de condução da Moto Morini Alltrhike 450 é boa para andar de pé, tanto nos mais rápidos estradões como nos trilhos mais técnicos, mas destoa ao conduzir em estrada. Sentado, as pernas ficam algo dobradas, com os joelhos a acusarem uma flexão mais acentuada do que seria ideal. Para os condutores mais altos, passar da posição sentada para de pé pode mesmo exigir algum esforço adicional. O que poderá, no entanto, ser resolvido com um assento mais alto.


Falando em exclusivo deste componente, de realçar o razoável conforto que permitiu num dia de condução intensa sem qualquer queixa, sem esquecer o facto de, na versão High Equipped, poder ser aquecido. Um luxo inesperado nesta gama de preço e que é acompanhado pelos punhos aquecidos (cujo acionamento com luvas mais grossas pode levar a involuntárias buzinadelas) e protetores de mãos. Conduzindo de pé a Moto Morini Alltrhike 450, é fácil o apoio nos poisa-pés com proteções de borracha amovíveis para maior aderência das botas. Não as retiramos o que, com o tempo seco, acabou por não fazer grande diferença na segurança além de melhorar o isolamento de algumas vibrações que escapam do motor.


Ainda no posto de comando da Moto Morini Alltrhike 450, destaque para a largura acertada do guiador para a utilização polivalente a que se propõe, deixando antever boa fluidez entre os espelhos dos automóveis em cidade e garantindo uma boa alavancagem na condução ‘off-road’. Ambiente onde se mostrou particularmente ajustado, sobretudo depois de o elevar um pouco, mais à medida para a condução em pé.

O painel de instrumentos é pequeno, longe do espalhafato de algumas concorrentes, mais parecendo um telemóvel formato 16:9 colocado ao baixo. Pequeno, é verdade, mas com informação extremamente legível, bem organizada, e com um menu cuja lógica é facilmente percetível em poucos minutos. Além de, com a aplicação específica (MotoFun), permitir a ligação ao telemóvel e navegação integrada. Para proporcionar um pouco mais de conforto em tiradas maiores, a Moto Morini Alltrhike 450 dispõe de um para-brisas ajustável em inclinação, exigindo movimento conjunto das duas mãos. Ou seja, em andamento, é para esquecer…

Uma referência ao sistema de iluminação desta Moto Morini Alltrhike 450, integralmente em LED e com luzes diurnas (DRL) independentes, sendo que, ao acionar o pisca, a luz diurna desse lado apaga-se, aumentando a perceção de visibilidade do sinal de mudança de direção. Um pequeno detalhe que revela o cuidado colocado no desenvolvimento, tal como as duas tomadas USB (tipo A e C) junto ao painel.
De onde vem o motor da Moto Morini Alltrhike 450?
Mostrando outros cuidados, o motor é bem conhecido de um grande fabricante chinês que, aliás, cede outros componentes para a Moto Morini Alltrhike 450. Trata-se, exatamente, do mesmo bicilíndrico paralelo de 450 cc com cambota a 270° que equipa a CFMOTO 450MT, oferecedor de 45 cavalos de potência às 8.000 rpm e um binário máximo de 42 Nm de binário às 6500 rpm. Com injeção eletrónica Bosch afinada a rigor e cumprindo as imposições normativas do Euro5+, responde desde as 3.000 rpm com entusiasmo que parece desmentir a cilindrada.

O grande equilíbrio faz com que, mesmo abaixo desse regime, não se sinta qualquer batidela ou hesitação. Não sai de roda no ar mas nunca se queixou em ritmos mais moderados. A entrega de potência é bem linear e contínua, e oferece uma surpreendente capacidade de alongamento mesmo para lá do pico de potência com uma desenvoltura que não se espera de uma 450. O corte de ignição chega, de forma suave e sem reprimendas, já perto das 11.000 rpm, mais parecendo pedir licença para, timidamente, interromper a festa.

Mas o motor da Moto Morini Alltrhike 450 tem outros fortes argumentos que o tornam particularmente atrativo. Mesmo face a outras adaptações do mesmo bloco, incluindo o original da CFMOTO! As vibrações são praticamente inexistentes, tão residuais que podem ser ignoradas, e apenas a caixa de velocidades, ainda a fazer a rodagem na unidade testada, se mostrou ligeiramente rija e com a primeira a entrar de forma algo ruidosa. Nada que o tempo e os quilómetros não resolvam, afinal as passagens são precisas e suaves e, depois do ajuste do seletor da caixa, ficou muito bem-adaptado às botas de todo-o-terreno.
A magia dos componentes
Além do motor, a Moto Morini Alltrhike 450 aproveitou a bem testada ciclística da CFMOTO 450MT. O quadro é em tudo de aço e o braço oscilante em alumínio enquanto as suspensões são KYB totalmente ajustáveis — compressão, extensão e pré-carga à frente, pré-carga e extensão atrás — com um curso de 210 mm na dianteira e 190 mm na roda traseira.


Componentes de indiscutível qualidade, sobretudo ao olhar para o preço da Moto Morini Alltrhike 450, que revelaram afinações algo macias para a condução em estrada, afundando nas travagens mais fortes e revelando alguma oscilação em curvas mais rápidas. Um ajuste de compromisso, a meio-termo, pensado para o conforto em estrada e cidade, sem necessidade de grandes mudanças ao enfrentar pisos de terra. Aliás, só em ritmos mais vivos em pisos degradados, se torna claro que aquela suspensão que parecia mole em asfalto afinal ainda está demasiado firme, não trabalhando em toda a extensão ao passar em zonas pedregosas.
É o eterno compromisso de quem não tem eletrónica de suspensão ativa pelo que a primeiro solução foi, como sempre nestas andanças, aliviar a pressão dos pneus. A partir daí a coisa mudou de tal forma de figura que a Moto Morini Alltrhike 450 enfrentou regos enormes, grandes calhaus afiados e muita pedra solta, com um comportamento que quase fazia esquecer o perfil asfáltico dos pneus.

Pneus CST que, já agora, são uns mistos com maior vocação para estrada do que terra e mostraram um bom comportamento alcatrão, sem sustos, e que, surpreendentemente, também não nos deixaram ficar mal na terra. Além de que, numa jornada recheada de pedra e com ritmos bem divertidos, não registaram qualquer furo, inspirando confiança para levar a Moto Morini Alltrhike 450 a todo o lado. E que locais nos permitiu descobrir, bem no topo da Serra da Marão!…


Quanto à travagem, a cargo da J. Juan (propriedade da Brembo), está entregue a um disco dianteiro de 320 mm com pinça de quatro pistões e disco traseiro de 255 mm com pinça de dois pistões. E se potência de desaceleração é algo que não falta, o que mais agradou foi mesmo a progressividade do elemento dianteiro. Um tato que permite dosear a travagem em entrada de curva nas estradinhas encadeadas com uma precisão que não é comum neste segmento.

E mesmo em ‘off-road’, o ABS dianteiro (que não pode ser desligado) raramente se faz sentir, enquanto ao desconetar o travão traseiro e o controlo de tração – no modo Off-Road – a diversão aumenta bastante, sem prejuízo da facilidade que irá promover à categoria de quase-pilotos mesmo os mais inexperientes condutores.

Com 170 kg a seco, a Moto Morini Alltrhike 450 não é uma moto de enduro, mas a boa distribuição de massas ajudada pela forma esguia entre os joelhos, contribui para uma posição natural da condução em pé. O bom apoio dos pés ajuda no equilíbrio dinâmico e facilita as correções de trajetória na busca da melhor forma de fugir àquela pedra mais ameaçadora ou a saída daquele rego cada vez mais profundo.
Além disso, a suspensão KYB, depois de uns retoques na pressão dos pneus, lê o terreno com sensibilidade suficiente para uma condução divertida e sem sustos, apoiada numa roda dianteira de 21 polegadas, que trata os obstáculos com a indiferença de uma autêntica endurista. É bom não esquecer, porém, que a Moto Morini Alltrhike 450 é apenas uma trail ligeira, que permite umas aventuras divertidas desligando o controlo de tração e o ABS da roda traseira. E controlando as derrapagens com a facilidade conferida pela resposta suave do acelerador, ajudado ainda pela cambota a 270º que favorece a descoberta de tração nos terrenos aparentemente mais complicados.
Uma rivalidade que não chega a ser
Num segmento reavivado, a Moto Morini Alltrhike 450 não pode fugir às comparações com a CFMOTO 450MT. O motor é o mesmo, o preço é o mesmo, e muitos dos componentes — suspensões KYB, travões J. Juan, ABS Bosch — são os mesmos. No entanto, há algo que as separa.

A marca italiana – chamemos-lhe assim para simplificar – pegou no conjunto, afinou-o à sua maneira, e entregou ao mercado uma moto com personalidade própria. O design, simples mas distintivo, é italiano, a ergonomia tem um cuidado que se sente, e a dinâmica de condução, aquele equilíbrio entre conforto e envolvimento, revela um especial toque europeu.

Claro que, além das japonesas como a Kawasaki KLE 500, há concorrentes como a Royal Enfield Himalayan 450, KTM 390 Adventure ou Benelli TRK 502X que andam por perto, mas nenhuma como a Moto Morini Alltrhike 450 oferece suspensões KYB totalmente ajustáveis, travões J.Juan com este ‘feeling’ e uma roda raiada de 21″ à frente (e 18” atrás) com pneus ‘tubeless’, tudo por menos de 6.000 €. E se há motos que conquistam pelos números outras há que conquistam pelo preço. Mas há outra categoria, as que nos conquistam pela forma como nos fazem sentir, e que passa a englobar esta Moto Morini Alltrhike 450.

Se é a moto perfeita? Não será o unicórnio que todos e cada um procura, tanto mais que motos perfeitas são uma verdadeira utopia. Por outro lado, ficou claro neste primeiro contacto, que a Moto Morini Alltrhike 450 é algo mais do que uma máquina chinesa que apenas levou novos autocolantes e um novo símbolo. A afinação cuidada de um produto faz toda a diferença e, com o equipamento certo, o preço adequado e aquele tempero italiano que transforma uma ficha técnica em algo que se sente com o coração, a primeira Moto Morini pensada para uma utilização realmente versátil é uma autêntica declaração de intenções.
A Moto Morini Alltrhike 450 está disponível em duas configurações, com a versão de entrada de gama, Standard, nas cores Jungle Green (um verde-escuro que sublinha a vocação aventureira) e Night Black (cinzento discreto, elegante) a custar 5.690 €. A versão Full Equipped, por 5.990 €, acrescenta punhos aquecidos, assento aquecido e protetores de mãos, estando disponível em apenas branco. Ou seja, uma diferença de 300 € pelo pacote de aquecimento completo e protetores de mãos que eleva o nível de equipamento para um patamar bastante competitivo. A comprovar, claro está, no concessionário mais próximo!
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