A questão impõe-se desde o primeiro momento. Será a Yamaha WR125R o ícone de uma nova geração de motociclistas? Será que vai conseguir o êxito das antecessoras DT e criar a sua própria história de sucesso? É verdade que os tempos são diferentes, muito diferentes, mas o potencial está lá, à vista e ao alcance dos novos aventureiros urbanos. Que podem começar a pensar num novo hino para evocar sonhos de liberdade e evasão.

- Texto: Paulo Ribeiro
- Fotos: Yamaha
Em 1987 quando os Trovante lançaram “125 Azul”, uma canção que se tornou hino de uma geração inteira, a Yamaha DT era a moto da moda. Correspondia, na medida certa, ao tema da música, falando de liberdade, de estradas abertas, de juventude e daquele desejo visceral de partir sem destino certo. Uma porta aberta para o mundo que a Yamaha WR125R quer reabrir…

Quase quarenta anos depois, os filhos desses jovens da década de 1980 estão na idade de todos os sonhos, e ainda que as aves agoirentas digam que os miúdos de hoje em dia não queram motos, a verdade é que, tal como os pais, procuram liberdade e evasão. Querem sentir o vento na cara e a adrenalina de uma estrada de terra batida que não sabem onde vai dar. A história repete-se, mas agora com ABS, injeção eletrónica e um sistema de válvulas variáveis que os pais nem conseguiam imaginar.
Sangue novo no segmento
O mercado nacional é hoje bem diferente desses tempos. Recordemos que o final da contingentação aconteceu apenas a partir da década de 1980 e o mercado apenas abriu de verdade em 1986 com a adesão à então chamada de Comunidade Económica Europeia. Atualmente há inúmeras propostas para quem se está a iniciar na aventura das duas rodas, é verdade, com particular incidência nas scooters e naked, surgindo cada vez mais desportivas. Mas será que existiam verdadeiras propostas de iniciação ao todo-o-terreno? Uma máquina que fizesse os miúdos (e alguns crescidos…) babarem-se nas montras? Algo com ADN verdadeiro, suportado por uma rica história de família?

Quem cresceu nos anos 80 e 90 lembra-se das DT50 e DT125. Eram as motas de iniciação por excelência, as máquinas que ensinaram uma geração inteira a andar em terra, a fazer cavalinhos e a descobrir que existia vida para lá do alcatrão. Mas, com a evolução (?) dos tempos, as crescentes preocupações ambientais esgrimidas pelos euroburocratas, atiraram para a reforma forçada essas verdadeiras lendas a 2 Tempos, deixando um grande vazio no mercado.

É certo que a Yamaha WR125R não tem um motor a 2 Tempos, mas, mesmo aí, há muitas parecenças com as míticas DT. Tal como há semelhanças na vocação ‘off-road’ séria, assumindo-se como porta de entrada para o universo aventureiro. Nesses tempos sonhava-se com as Yamaha XT350 para mais tarde subir à XT600. Agora, a Yamaha tem a Ténéré 700 mas queria cativar mais cedo os jovens, mostrar o caminho e agarrá-los à marca.
A “125 azul” da nova geração
E, na verdade, para um jovem da década de 1980, a sensação ao olhar para a Yamaha WR125R é semelhante à sentida na época. Uma trail que permite brilhar à porta do liceu ou da faculdade e garante que se chega a horas aos encontros. A rapaziada de carro vai ficar presa no trânsito e chegar atrasada. E todos sabem que as miúdas não gostam de esperar…

Além do mais, ao olhar para a Yamaha WR125R ressalta também o desafio da aventura. Das suspensões de longo curso ao guarda-lamas alto, das proteções da forquilha à silhueta esguia. E, no Icon Blue que a Yamaha nos colocou à disposição nesta apresentação nacional, é ainda mais marcante. Uma decoração que remete de imediato para as máquinas de competição das YZ de motocrosse ou WR de enduro, evocativa de uma longa história de sucesso. Para os mais discretos existe a elegante e sóbria proposta Yamaha Black.

Olhamos mais de perto para Yamaha WR125R antes de subir a bordo. Parece alta e a ficha técnica aponta para intimidantes 875 mm de altura do assento. Na prática, com uma volumetria muito esguia, do assento ao chassis passando pelas tampas laterais lisas, é relativamente fácil apoiar os pés com confiança, mesmo que, como eu, não sejas particularmente alto. Além do mais, como a suspensão cede ligeiramente com o peso e a mota é razoavelmente leve (138 kg em ordem de marcha) oferece uma reforçada sensação de controlo.
Sentado na Yamaha WR125R deu para perceber, de forma mais nítida, o cuidado colocado nos componentes e na qualidade de fabrico, com encaixe perfeito dos plásticos de bom toque, soldaduras cuidadas e detalhes ‘premium’ como as proteções do quadro junto aos poisa-pés, mas também do escape ou da suspensão dianteira.
Tecnologia que reforça a diversão
Colocamos o motor da Yamaha WR125R a funcionar e a nota dominante é a serenidade. A dúvida que nos assola antes de arrancar prende-se com o carácter divertido que foi anunciado para este monocilíndrico de 125 cc (para os mais preciosistas 124,66 cc graças a um diâmetro do pistão de 52 mm e um curso de 58,7 mm), com refrigeração por líquido e alimentado por injeção eletrónica. Bastou uma aceleradela para perceber o carácter deste bloco. Uma rapidez de resposta e uma leveza a ganhar rotação que abriu o apetite para os quilómetros que aí vinham, bem delineados pelo experiente Pedro Barradas em estrada e fora dela, em redor do Off-Road Camp Yamaha, excelente quartel-general do evento.

A resposta já nos tinha sido desvendada na apresentação teórica da Yamaha WR125R e assentava na utilização da tecnologia VVA (Variable Valve Actuation) ou seja, um sistema de válvulas de admissão variável. Algo que a Yamaha já usa noutros modelos da gama e com algumas semelhanças (no resultado que não na tecnologia) ao YPVS que a marca desenvolveu para otimizar o desempenho dos motores a 2 Tempos, entre as décadas de 1970 e ’80, ajustando a altura da válvula de escape em diferentes regimes do motor, melhorando o binário a baixas rotações e maximizando a potência a altas rotações.

De forma semelhante, o sistema VVA na Yamaha WR125R favorece o binário e a economia até às 7500 rpm, sendo dócil e oferecedor de boa tração, perfeito para andar em cidade ou em ritmo tranquilo. Mas quando se passa essa fasquia, a eletrónica dá ordem a uma válvula solenoide para empurrar a árvore de cames para o lado e mudar o perfil das cames, com o motor a despertar da aparente letargia dando uma espécie de segunda vida à Yamaha WR125.

Uma mudança bem calibrada, sem ressaltos exagerados, que permite andar por volta dessa rotação sem que o motor esteja sempre a mudar o perfil das cames. Dito de outra forma, não oferece aquela incómoda sensação ‘on-off’ no momento exato em que procede à alteração, criando uma espécie de folga que garante mais conforto e controlo.
O que, por outro lado, disfarça um pouco a maior abertura das válvulas de admissão não sentindo um esticão imediato mas sim uma vivacidade acrescida na subida de rotação. A agulha do tacómetro ganha uma segunda vida até às 10.000 rpm, onde está a potência máxima de 15 cavalos (o limite de 11 kW para poder ser conduzida com carta A1) sendo que o pico de binário de 11,3 Nm está às 6500 rpm.

Números que ajudam a contar a história da Yamaha WR125R mesmo se o comportamento só é realmente entendível ao andar com a moto e perceber o desempenho, a forma como é feita a entrega dessa força. Se querem andar de forma tranquila e económica, há que evitar subir muito na rotação andando entre as 5000/7000 rpm, enquanto para tirar partido da face mais nervosa e divertida da Yamaha WR125R basta abrir gás com toda a determinação e andar sempre lá em cima.

Claro que, com esta opção, o depósito de 8,1 litros de capacidade vai esvaziar-se mais depressa, com o consumo a passar dos cerca de 2 L/100 km para 2,5 L ou até um pouco mais, naturalmente acima dos 2,3 L/100 km que a Yamaha WR125R anuncia como consumo médio em condições controladas e homologadas (WMTC).
E como é a Yamaha WR125R na estrada?
A resposta é fácil: É divertida! Claro que a Yamaha WR125R não é, como qualquer 125 cc, uma mota de grandes retas ou autoestrada, embora, dentro das limitações da cilindrada, ter um comportamento particularmente interessante em asfalto. A posição de condução é direita e natural, com o guiador largo a oferecer um bom controlo e os poisa-pés a ajudarem a aproveitar o peso do corpo na condução e permitir várias horas de condução sem grande fadiga. O banco, apesar de estreito, tem espuma de densidade adequada e, sem ser propriamente um sofá, não é uma tábua. Já fiz viagens grandes com assentos mais duros e desconfortáveis!

Quanto à ciclística, assente num quadro tipo berço semi-duplo, conta com uma forquilha convencional da KYB na dianteira, de 41 mm de diâmetro e um generoso curso de 215 mm, acompanhado por um amortecedor ajustável em pré-carga, oferecendo 187 mm de curso da roda traseira. Em estrada começa por parecer demasiado macia, mas logo dá para perceber a eficácia sobre os pisos mais degradados, passando sem queixas por buracos, asfalto deteriorado ou lombas criadas pelas raízes das árvores e sempre com absoluta segurança.




Claro que com um curso pensado para uma utilização em todo-o-terreno, a geometria trail, uma distância livre ao solo de 240 mm e roda de 21 polegadas na dianteira com pneus mistos (Dunlop D605), não se pode exigir que a Yamaha WR125R seja uma lâmina de máxima precisão a cortar as curvas. É previsível e intuitiva, permitindo curvar de forma fácil e redonda, simples e sem surpresas. Mas quando o nível de condução vai para lá da iniciação – que é àqueles zque esta moto é destinada – e se abusa um pouco mais, sente-se um ligeiro dobrar do pneu e uma oscilação que aumenta a adrenalina, mas, uma vez mais, sem colocar a segurança minimamente em causa.
Ponto importante para a segurança da Yamaha WR125R (como de qualquer outra moto…) é o sistema de travagem entregue a um disco dianteiro de 298 mm, com pinça de dois pistões, e um disco traseiro de 220 mm, com pinça simples, sendo possível desligar o ABS na roda traseira para utilização ‘off-road’. Travagem com potência perfeitamente suficiente para a peso e velocidade em questão, mostrando uma boa progressividade e fácil controlo, mesmo em pisos de terra, enquanto a intervenção do ABS acontece de uma forma bastante natural, apenas se notando a intervenção quando é realmente necessário.
A magia da aventura
Deixando para trás a estrada, onde é possível atingir os 120 km/h reais, o que chega e sobra para as nacionais portuguesas e para aquela escapadinha até ao Alentejo ou à Serra da Estrela, chegamos ao habitat natural da Yamaha WR125R. E é nos caminhos de terra que ela brilha de forma mais intensa, deixando para trás toda e qualquer candidata a rival.

A primeira coisa que se nota é a leveza, facilitando todos os movimentos e com uma resposta quase telepática às intenções do condutor. Basta um ligeiro toque no guiador ou colocar mais peso num dos amplos poisa-pés para evitar uma pedra ou um buraco. E com uma aceleradela mais forte e a transferência do peso do corpo ao longo dos 685 mm do assento plano tudo se conjuga para um pequeno salto ou uma subida mais íngreme.

Curiosamente a suspensão, que em estrada pareceu algo mole, revela aqui todo o potencial, passando por raízes, pedras, sulcos e valas como se não existissem. É possível manter um ritmo elevado em caminhos irregulares sem que a Yamaha WR125R te sacuda ou perca compostura. E perante alguns exageros e aterragens de forma menos elegante, o curso de suspensão absorve o impacto sem dramas.

Também o motor, com a intervenção do VVA a fazer das suas, é perfeito para ‘off-road’. Em zonas técnicas que exigem controlo, basta manter as rotações baixas e existe binário suficiente para avançar sem patinar em demasia. E quando o caminho abre e podes acelerar, o melhor é deixar as rotações subir, ver o sistema VVA entrar em ação e a Yamaha WR125R a transformar-se numa mini-YZ.

A caixa de seis velocidades da Yamaha WR125R está bem escalonada para este tipo de uso, com uma primeira curta o suficiente para manobras técnicas, e a sexta é longa para manter boa velocidade de cruzeiro em estrada sem esforçar o motor. Uma caixa precisa e metálica, com a correta engrenagem assegurada por um ligeiro ‘clank’ e que é acionada com a ajuda de uma embraiagem muito leve e progressiva. E que é uma importante ajuda nas zonas técnicas, tal como a possibilidade de desligar o ABS na roda traseira permitindo colocar a roda em derrapagem, para um deslizar da traseira que ajuda no controlo, facilidade e rapidez de colocação em curva, mantendo vivas décadas de tradição endurista.
Questões práticas de equipamento e ergonomia
Muito provavelmente quem compra uma Yamaha WR125R está a começar a sua aventura sobre duas rodas ou a subir o primeiro degrau na sua história motociclística. Por isso, todo o desenvolvimento foi pensado criar uma máquina acessível, mas não limitadora, apostando na facilidade nos mais diversos capítulos do caderno de encargos.

A começar pelo posto de comando, com um painel de instrumentos em LCD, totalmente digital e com toda a informação necessária apresentada de forma clara: velocímetro, conta-rotações, nível de gasolina, temperatura do motor, conta-quilómetros total e parcial. É fácil de ler e bastante intuitivo, podendo ser ligado à aplicação MyRide mas apenas para algumas funções básicas. De bom estilo, melhor do que a apenas suficiente visibilidade, os retrovisores são fáceis de ajustar, tal como as manetes, enquanto a iluminação LED, tanto à frente como atrás, confere à Yamaha WR125R um ar de modernidade.

Que pode ser realçado com diversos acessórios que têm a particularidade de estarem devidamente homologados para montagem direta e sem problemas legais na Yamaha WR125R. E que reforçarão o investimento inicial de 4699 € – em linha com as mais competitivas rivais – num moto que que vai proporcionar anos de diversão e aprendizagem, garantindo depois um interessante valor de revenda.
A “125 Azul” do Século XXI
Mais do que simples meio de transporte, a Yamaha WR125R apresenta-se como uma promessa de liberdade, uma ferramenta de evasão, um convite permanente à aventura. E numa era em que os jovens passam cada vez mais tempo agarrados a ecrãs e menos tempo a explorar o mundo físico, motos como a Yamaha WR125R são particularmente importantes. São um antídoto contra a apatia, um estímulo à curiosidade, uma forma de recuperar aquela ligação visceral com o mundo que nos rodeia.

Por tudo isto, a Yamaha WR125R de 2026 é, em muitos aspetos, a sucessora espiritual daquelas DT que marcaram gerações. É uma moto de iniciação ao ‘off-road’, sim, mas é muito mais do que isso. É uma moto com alma e personalidade, uma declaração de intenções e porta de entrada para o vasto universo das máquinas de aventura. É, afinal, uma prova de que se pode fazer uma 125 empolgante sem comprometer a acessibilidade ou a fiabilidade.

Para os jovens motociclistas dos 18 aos 24 anos, a Yamaha WR125R poderá ser a primeira grande paixão mecânica e a primeira companheira de aventuras. E para os mais velhos, que cresceram a ouvir os Trovante, a Yamaha WR125R é nostalgia em tons modernos. É a prova de que aquele desejo de liberdade que sentiam aos dezoito anos continua válido, continua alcançável. A diferença é que agora essa 125 azul tem injeção eletrónica, ABS desconectável, e um sistema de válvulas variáveis. Os tempos mudam e a tecnologia evolui. Mas a vontade de partir sem rumo, de sentir o vento na cara, de descobrir o que está para lá da próxima curva — essa permanece exatamente igual.
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