Yan Haimei. A Benelli foi, é e será uma marca italiana

Carinhosamente tratada pelos italianos como Klara, a chinesa Yan Haimei é a CEO da Benelli QJ desde 2007. A mulher-forte da centenária marca quis deixar bem claro que “a Benelli nasceu há 111 anos como uma marca italiana, o que continua a ser e sempre será”. Em entrevista exclusiva a MotoX.pt aquando da apresentação da Benelli Leoncino 800 e 800 Trail, revelou ainda novos caminhos de crescimento para o fabricante de Pesaro.

  • Texto: Paulo Ribeiro
  • Fotos: Benelli

A imagem quase maternal de Yan Haimei, sublinhada por uma voz melodiosa e um sorriso genuíno, contrasta com a determinação que mostra na defesa da sua marca.

Criada como oficina de reparação de veículos de duas rodas em 1911, pela recém-viúva Teresa Boni Benelli para garantir a subsistência dos seis filhos, a Benelli mostrou recursos inovadores desde a primeira hora. Aos filhos juntaram-se seis funcionários para fabricar algumas das peças necessárias na reparação de bicicletas e ciclomotores. Depois do sólido crescimento numa fase inicial, desenvolvendo-se muito durante a I Guerra Mundial, o declínio começou com a destruição do segundo grande conflito universal. E seguiu-se uma história conturbada, com gestões ruinosas, vendas e aquisições sem grande sentido ou visão estratégica.

Até que, em 2005, a Benelli foi comprada pelo grupo Zhejiang Qianjiang Motorcycle Group Co., ou simplesmente Qian Jiang Motorcycle, proprietária de marcas como a Keeway ou a QJmotor. E que, desde 2016, é controlada pelo enorme grupo industrial e financeiro Geely Holding Group.

Amor sem fronteiras

Realidade que Yan Haimei conheceu ainda durante a vida universitária, na Hungria, e que a levou a atravessar a fronteira, conduzindo 1000 quilómetros entre Budapeste e Pesaro para… ficar apaixonada. Mais do que simples negócio, foi amor à primeira vista, com casamento em 2007, quando assumiu a posição de Chief Executive Officer da Benelli. Onde a entrega e respeito pela tradição do mais antigo fabricante transalpino reforçou os valores da alcunha dada pelo professor de língua húngara. Afinal Klara significa “talentosa, inteligente, transparente e luminosa, mas também desembaraçada, livre e sem preconceitos”.

“A Benelli era uma marca de nicho, mas a nossa estratégia sempre foi e continua a ser, colocá-la como italiana, com design europeu e um posicionamento ajustado, também em termos de preços, para todos os motociclistas. Desde essa altura que sempre trabalhamos nesse sentido. E tentamos, todos os dias, fazer o nosso melhor para colocar a Benelli no lugar que merece uma marca com 111 anos de vida”.

Um trabalho que deu nova pujança ao símbolo do leão, agora colocado num patamar elevado e longe das dificuldades técnicas e financeiras que marcaram boa parte da sua história. O caminho passa agora pela verdadeira implantação mundial.

“A grande diferença é que deixou de ser uma marca de nicho e está a ser recolocada num nível médio/elevado, para que todas as pessoas tenham a possibilidade de ter uma moto ou scooter da Benelli”. E vai mais longe, não temendo a comparação com os grandes players do mercado mundial. “Honda ou Yamaha não são marcas de nicho e é esse é o caminho correto. Por isso vamos seguir essa direção, garantindo boa imagem e boa qualidade para todos e não apenas para algumas pessoas”. Reposicionamento da marca que representou “a decisão mais acertada mesmo representando enorme mudança e acarretando alguns riscos”.

A ‘invasão’ chinesa

A propriedade chinesa da Benelli, como de muitas outras marcas a nível mundial, e a crescente dependência do ‘rebranding’ de modelos fabricados na China e vendidos com os mais diversos símbolos, criou uma nova realidade. Fenómeno em crescente expansão na Europa e que, em Portugal, foi bem visível na recente edição da Expomoto, no Porto.

“É normal que cada vez mais fabricantes chineses estejam presentes em todo o mundo. E vão ganhar mais espaço de mercado até porque a qualidade e a tecnologia está a melhorar muito rapidamente na China”. Uma realidade que não é surpresa para Yan Haimei que, em contrapartida, responde com uma verdadeira novidade.

“A chegada da QJmotor como marca própria a Espanha em Portugal não vai mudar rigorosamente nada na estratégica da Benelli! A QJ é um grande grupo com possibilidade de lançar diferentes marcas com diferentes posicionamentos de mercado. Assim, a Benelli e a QJ terão um posicionamento diferente, de molde a cobrir mais espaço de mercado”. E aponta a indústria automóvel como exemplo de longa data, onde o Grupo VW detém as marcas Audi, SEAT, Skoda, Bentley, Lamborghini, Bugatti, Porsche.

“O importante é manter a estratégia de posicionamento das marcas e preços dentro de um grupo/empresa/organização para não haver confusões” reitera a CEO da Benelli. Que não descarta a possibilidade de vir a equacionar “a colocação da Benelli como marca de luxo do grupo Qianjiang. Até porque a Benelli tem uma imagem mais forte e consolidada dentro do grupo”.

Aproveitar sinergias

Mas, para que não restem dúvidas, garante que “há espaço suficiente para a QJmotor. E, por isso mesmo, as redes de concessionários serão diferenciadas, nomeadamente em Portugal e Espanha. Aliás, em todos os países a rede de distribuição deve ser diferente. Até porque não é a forma correta de trabalhar com as duas marcas na mesma loja”.

Separação no capítulo comercial que, pelo menos para já, não existe na produção. Mas que, tudo aponta, deverá vir a acontecer. “Por uma questão económica, a produção começou com plataformas muito semelhantes, mas que, no futuro, poderão ser diferentes. A estratégia passa, aliás, por deixar essas diferenças serão bem visíveis, com plataformas completamente diferentes”.

E já que de estratégias falamos, porque não o desporto para aumentar a visibilidade no mercado mundial? Voltar a ter a Benelli nas pistas de todo o Mundo é um sonho para os amantes do desporto motorizado e para os apaixonados da marca de Pesaro. Mas o envolvimento poderia até surgir por intermédio da QJmotor à semelhança do trabalho efetuado pela CFMOTO ou CPI no Mundial de Moto3…

“Um dia, sim, deveremos estar lá, precisamos encontrar o momento correto, a altura acertada em termos económicos. Para uma fábrica de motos juntar-se à competição é sempre um sonho. Todas as marcas de motos e as pessoas que lá trabalham têm esse sonho, essa grande paixão de estar em MotoGP por exemplo”.

De pés bem assentes na Terra, Klara logo refreia os ânimos. “Em alguns países isso poderá ter algum efeito, mas não em todos . Claro que, pessoalmente, o mais importante é garantir que, se a Benelli entrar na competição, será com motor próprio. Porque estar na competição com um motor de outro fabricante não seria muito profissional”. E na Benelli não se brinca com um legado centenário!

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