WorldSBK 2022: tudo a postos!

Um sol radioso banha Alcaniz e a pista do Motorland de Aragão, onde amanhã terá início mais uma edição do ‘WorldSBK’. Após a temporada que muitos consideram como a mais competitiva dos últimos, este ano promete ser ainda mais empolgante, com novos contendores a querem disputar o ceptro ganho pelo primeiro campeão mundial de nacionalidade turca e um norte-irlandês a com sede de voltar a ostentar o número #1 nas carenagens da sua Kawasaki.

Sejam bem-vindos ao Mundial de Superbike de 2022!

  • Texto: Fernando Pedrinho
  • Fotos: WorldSBK, Kawasaki WorldSBK, Aruba.it Ducati, GYTR GRT Yamaha, Fernando Pedrinho

Toprak Razgatlioglu e a Yamaha YZF-R1 da Pata Yamaha with Brixx WorldSBK partem como o alvo a abater. Tendo optado, e bem, por trocar o ‘54’ pelo número um de campeão, o turco quer mostrar a todos que o título do ano passado não aconteceu por acaso. Mais importante ainda, Toprak, e o indissociável mentor Kenan Sofuoglu, tem os olhos postos na equipa oficial na Yamaha de MotoGP e não esconde de ninguém o seu desejo de dar o salto para a categoria dos protótipos. Esperem-no mais feroz do que nunca! A Yamaha, por seu lado, trabalhou muito na eletrónica da YZF-R1 e trouxe para o Motorland um novo depósito de gasolina que permite aos pilotos melhor suporte nas travagens mais fortes, onde o piloto de Alanya é rei e senhor.

Jonathan Rea, vingança à espreita Dominador absoluto entre 2015 e 2020, Jonathan Rea vê o #65 regressar ao frontal da Kawasaki, algo que já poucos, e muito menos a equipa da Provec, estavam habituados. É um mistério como o natural de Ballymena se consegue motivar, ano após ano e com mais energia. Rea está isento de lesões, tem novos componentes na ciclística da moto – com destaque para a nova forquilha Showa – e foi o mais rápido nos treinos desta semana, rodando mesmo abaixo do recorde do Motorland. A ZX-10RR Ninja continua a mesma moto e perdeu toda a vantagem que tinha para as suas concorrentes – a proverbial capacidade de tração – por via do desenvolvimento dos seus concorrentes, mas também das ultra aderentes borrachas que a Pirelli tem vindo a desenvolver. É expectável, que pilotos e equipa técnica já tenham digerido o facto, e a repetição dos inúmeros erros cometidos em 2021 seja pouco provável. Jonathan será, claramente, o maior rival de Toprak e um dos mais sérios concorrentes ao título deste ano.

Álvaro Bautista, será desta?

O homem de Talavera de la Reina regressa às fileiras da Aruba.it Ducati, onde se lançou no Mundial de Superbike, em 2019. E depois de uma banhada monumental nas primeiras cinco rondas, com a também estreante Panigale V4R, acabou por quebrar mentalmente e ceder perante o consistente Jonathan Rea.

Bautista cedeu aos cifrões da Honda para desenvolver a CBR1000RR-R Fireblade, que no papel tinha todos os argumentos para ser uma moto ganhadora. A história mostrou outra realidade, e o talaverano não pôde fazer mais do que ascender, pontualmente, aos lugares de pódio.

Terminada a via sacra que durou dois anos, o homem forte da Ducati Corse, Luigi Dall’Igna, convenceu Álvaro a retornar à moto com que maravilhou o mundo na sua estreia. A moto está mais madura e Bautista já se encarregou de mostrar que estará de volta aos lugares cimeiros.

A Panigale V4R recebeu melhoramentos, nomeadamente ao nível da ciclística, com novos braço oscilante e forquilha Öhlins, e da ergonomia, com um novo reservatório de combustível que permite aos seus pilotos maior liberdade de movimentos quando a moto se encontra em ângulos de inclinação mais elevados. Todos sabem que quando bem pilotada e compreendida, a Panigale V4R é imbatível. Será desta que o título regressa a Espanha e à Ducati?

Garrett Gerloff, o ‘joker’

Produto do MotoAmerica, o texano prometeu muito no ano de estreia e mesmo no ano passado. Mas não se safou de uma fama de trauliteiro e descuidado, depois de ter colocado fora de pista Michael Ruben Rinaldi, no Estoril, e, imagine-se, o piloto que a Yamaha apostava todas as fichas para reconquistar o único título alcançado em 30 anos pela marca dos três diapasões, quando meteu no chão Toprak Razgatlioglu, em Assen. Desde esse ponto, Gerloff afundou-se na classificação e foi uma sombra de si mesmo.

Com um renovado programa de musculação e mental, Garrett parece estar de volta ao bom andamento. Com a Yamaha YZF-R1 a ser a melhor Superbike do momento, por via de uma demonstrada consistência em todas as áreas, o norte-americano é, para nós, o piloto que melhor poderá acossar o trio que se perfila na dianteira.

BMW e Honda, o ‘danoninho’ que falta

Ou talvez não. As Honda estão mais rápidas do que nunca e Iker Lecuona e Xavi Vierge, vindos do MotoGP, são o sangue novo necessário para lidar com o comportamento selvagem da lâmina de fogo. Acredito que as CBR1000RR-R irão subir ao pódio e, até mesmo, lograr alguma vitória, mas resta saber com que frequência o farão. A moto recebeu muitas alterações, sendo a mais evidente a troca das suspensões Öhlins pelas da Showa, à imagem da Kawasaki, bem como na travagem, onde o sistema da dominante Brembo deu lugar ao da japonesa Nissin, tal como nas BMW. Mas se há equipa que poderá jogar o ‘wild card’ do campeonato será, certamente, a da HRC, liderada pelo segundo ano pelo ex-piloto da marca da asa dourada, Leon Camier.

A BMW deixou ‘cair’ Tom Sykes – que regressou ao BSB com a Ducati – para entrar Scott Redding, vindo da marca italiana. Por outro lado, a casa de Munique aposta desta feita na equipa satélite da Bonovo, do ex-piloto alemão de Superbike, Michael Galinski, para acelerar o desenvolvimento da M1000RR, recrutando Loris Baz para o lugar de Jonas Folger e dando uma mão a Eugene Laverty, que se viu apeado quando a equipa italiana onde estava o ano passado ficou sem fundos. A M1000RR ganhou a sua primeira corrida no ano passado, no Algarve, mas à chuva, uma situação onde a falta de tração é substancialmente disfarçada.

Marc Bongers, diretor do programa desportivo da BMW Motorrad, em conversa com a nova ‘aposta’ da marca alemã, Scott Redding, durante apresentação da equipa, esta tarde, no Motorland.

O motor da máquina bávara está potentíssimo, mas como me dizia Eugene Laverty na apresentação da equipa, “ainda temos de o tornar mais utilizável”. Os tempos da pré-época não deixam antever uma entrada de rompante no campeonato, até porque Michael van der Mark, que melhor conhece a moto, terá de ceder o seu lugar ao primeiro ucraniano a estrear-se no mundial de SBK, Ilya Mikhalchik (triplo campeão do IDM alemão), devido à fratura de uma das pernas num treino de BTT. Veremos que efeito terá Redding no aumento de consistência e competitividade das motos alemãs, mas vai ser difícil vê-lo tantas vezes no pódio como sucedeu com a Ducati no ano passado.

Os braços direitos

Sempre com vontade de saírem da sombra dos seus chefes-de-fila, os considerados ‘número dois’ poderão ter uma palavra a dizer em algumas corridas. Andrea Locatelli foi o melhor ‘rookie’ do ano passado e só lhe falta aquele ‘nadinha’ para se juntar aos suspeitos do costume com maior frequência.

Curado de uma temporada repleta de azares e lesões, Alex Lowes tem todas as condições para ser o ‘escudeiro’ que tanta falta fez a Alex Lowes e à Kawasaki. Rapidez não lhe falta, a equipa já o conhece, e a sua familiarização está completa. Um bom início de campeonato poderá catapultá-lo para uma boa exibição e um resultado no final ao nível do seu real potencial.

Mas quem acho que poderá beneficiar mais da mudança de companheiro de equipa será Michael Rúben Rinaldi. Contudo, as indicações dadas pelo italiano nos treinos realizados na Península Ibérica desmentem esta hipótese. Michael disse sentir-se confortável com as afinações de Bautista, com quem partilha a mesma estatura e algum do estilo de pilotagem, mas terá de manter consistentemente os níveis de pilotagem que já o levaram a vencer em três pistas distintas.

Já Loris Baz é um valor seguro e apenas dependerá do que a BMW conseguir fazer da M1000RR em termos de gestão de pneus na corrida. Só para terem uma ideia, o francês dizia-me hoje, na apresentação da equipa algo de espantoso. Enquanto Toprak Razgatlioglu conseguia fazer sete voltas com o Pirelli traseiro ultra macio montado na YZF-R1 oficial, já Redding ‘derretia’ o pneu italiano no fim de uma volta.

As possíveis revelações

Sinceramente não vejo muitas! Axel Bassani teve uma pré-época de treinos difícil de entender (como a sessão de Vallelunga) e andou pouco. Mas se há algum dos ‘rookies’ em que colocaria as minhas ‘fichas’, esse seria Philipp Öttl. O alemão já deu indicações de ser bastante rápido na sua passagem pelo Mundial de Supersport e está a habituar-se rapidamente à Panigale V4R da GoEleven, uma moto não oficial que já ganhou provas e conquistou pódios num passado recente.

A primeira prova, na província de Teruel, irá ajudar a dissipar algumas destas dúvidas e confirmar certezas.

Viemos de Honda NT1100

Saídos pela fresca de Madrid, viemos até Alcaniz na novíssima NT1100, gentilmente cedida pela Honda Ibéria. Esta bicilíndrica que partilha o coração com a mais conhecida CRF1100L Africa Twin mostrou logo desde os primeiros metros a facilidade com que se deixa levar, apesar de equipada com malas laterais e ‘top-case’. Capaz de manter cruzeiros elevados, em estrada não é difícil superar os 300 quilómetros de autonomia, como todo o conforto, sem vibrações e boa proteção aerodinâmica.

A instrumentação com um painel TFT multicolor, requer habituação e leitura atenta do manual, o mesmo sucedendo com os comandos, dada a quantidade de botões e comutadores existentes. Só não gostei da necessidade de ter de ligar um auricular Bluetooth para poder ter acesso ao menu ‘CarPlay’ no painel digital.

A clássica foto nas idas para o Motorland, com paragem obrigatória para o ‘boneco’ em Molina de Aragón.

Uma palavra para a transmissão automática DCT que é, de fato, um descanso e ao fim de pouco tempo já nos habituamos à ausência da manete e pedal direito. Mas se acharmos que podemos fazer melhor que a moto, podemos optar pelo modo manual e passar de caixa a nosso bel-prazer.

A viagem de Madrid até ao Motorland de Aragão foi bem ligeira, apenas com uma paragem para reabastecimento. Saída pela R2 até Guadalajara e depois para Norte, pela A2, até Alcolea del Pinar. Depois foi sempre em estrada, passando por Molina de Aragão, Monreal del Campo, Martin del Rio, Alcorisa até chegar à capital do Baixo Aragão. Média real de 122 km/h, incluindo a paragem, e uma média de consumo de 5,8 l/100 km.

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