Triumph Street Triple 765. Como rentabilizar uma herança?

Uma vida longa de 120 anos confere uma experiência única a quem a desfruta. Altos e baixos, avanços e recuos, crises e momentos de glória, são parte integrante da história de uma marca que, apesar de ser das mais antigas do Mundo, está mais jovem do que nunca. E com o ADN da competição a manifestar-se novamente, a Triumph Street Triple 765 é a resposta a uma questão levantada por muitos herdeiros. Como rentabilizar uma herança?

  • Texto: Paulo Ribeiro
  • Fotos: Triumph

Nascida em 1902 no Reino Unido, a Triumph tem uma história com tanto de aristocrata quanto de rebelde. Prestou serviço militar nas duas Guerras Mundiais (Model H na WW1; e 3HW na WW2) e integrou comitivas reais. Alinhou em corridas de todas as especialidades, ganhando nos mais diversos terrenos. Dos Scottish Six Days Trials às 200 Milhas de Daytona, passando pela Ilha de Man onde começou a vencer em 1908 e foi a primeira máquina a fazer uma volta a média superior às 100 milhas por hora (160 km/H). Também foi selvagem, com Marlon Brando em 1953 (The Wild One), e protagonizou grandes evasões, com Steve McQueen em 1963 (The Great Escape).

Um emblema histórico que ultrapassou várias crises e que foi salva pelo gongo na década de 1980. Ou melhor, foi salvo pelos milhões de libras de John Bloor que, em poucos anos, devolveu à Triumph um orgulho que só os britânicos conseguem mostrar. O resto da história é por demais conhecida, com inúmeros sucessos tecnológicos e comerciais até às 75 mil unidades que, em 2021 saíram das cinco unidades fabris.

Ligação às pistas reforçada

Sucessos que consolidaram uma boa saúde financeira, traduzida num crescimento que vai muito além do número de máquinas produzidas. Não só esta solidez reforçou a ambição, bem como apontou novos caminhos, rumo às pistas de motocrosse, já num futuro próximo, como aos traçados asfaltados. Onde, desde 2019, fornece, em exclusivo, os motores que equipam a totalidade da grelha de Moto2, numa parceria que continuará, pelo menos, até final de 2024.  Bloco derivado e evoluído a partir da Triumph Street Triple RS que testámos em 2017 e que, para 2023, recebe, com juros, esse investimento.

Provavelmente não deverá produzir o mesmo alarido que em 2007, quando a ousadia estética abanou os alicerces do poder instituído, mas não menos verdade é a importância tecnológica inerente ao novo modelo. E aqui chegamos, finalmente, à verdadeira questão da herança. Ou melhor, de como utilizar as várias heranças.

A primeira, uma história que conta com mais de 125 mil episódios em 15 anos de comercialização, e que faz da Street Triple referência incontornável entre as ‘roadsters’. A segunda, a ligação ao Mundial de MotoGP, reforçada no GP de Valência com exclusiva apresentação de uma versão muito especial e traduzida em especialíssima versão Moto2 Edition. Que, tal como as restantes duas, R e RS, pode ser já encomendada, chegando aos concessionários a partir da segunda quinzena de fevereiro de 2023.

Mais potência pede melhor travagem

As novidades são muitas e, na maior parte, diretamente derivadas dos circuitos onde evolui o Mundial. Principalmente as mudanças operadas no motor, aplicando os ensinamentos do programa de competição da casa de Hinckley. No cômputo geral, a nova Triumph Street Triple 765 ganha em potência e binário, em design e ergonomia, em maneabilidade e equilíbrio. E, assim, faz ainda mais sentido a atitude mais agressiva que emana de um design exaltando a mais genuína filosofia ‘street-fighter’.

O motor, o tricilíndrico de 765 cc igual para as três versões, oferece 120 cavalos na Street Triple R e 130 cv nas RS e Moto2 Edition. E um de binário máximo de 80 Newton-metro igual em todas. Mas há mais, muito mais no motor mais potente da categoria. Antes de tudo, a melhor capacidade de resposta e aceleração à caixa de velocidades e sistema de transmissão profundamente revistos. Além disso, há o redesenhado escape, com silenciador menos restritivo para sublinhar a banda sonora do tricilíndrico, e o ‘quick-shifter’ bidirecional instalado nos três modelos.

No capítulo da segurança e estabilidade, nota para a adoção de um ABS com função Cornering Assist em complemento às potentes pinças Brembo Stylema. Ao passo que na R são do modelo M4.32, de fixação radial. Componentes que otimizam a travagem em curva tal como sucede com o controlo de tração. Tudo somado aos novos mapas de motor que alteram de forma significativa os modos de condução, aumentando o dinamismo do conjunto.

Comportamento acentuado pelo braço oscilante assimétrico que promete mais estabilidade em alta velocidade e maior precisão da ciclística. E assim permitir o máximo partido de amortecimento completamente regulável da Showa. Em contrapartida, no caso da Moto2 Edition, está entregue a elementos Öhlins, com forqueta invertida NIX30 na dianteira e monoamortecedor com depósito separado STX40 atrás.

O preço da exclusividade

Diferenças existem também na ergonomia, com um guiador mais largo nas Triumph Street Triple 765 R e RS enquanto a Moto2 Edition tem direito a uns mais desportivos avanços ‘clip-on’. O mesmo sucede com a instrumentação, estando a versão mais simples dotada de painel com duas janelas TFT e luzes de aviso separadas, enquanto as restantes possuem um TFT de 5 polegadas.

E quanto à iluminação, integralmente em LED nas três propostas, diferencia-se no formato das luzes diurnas, o mesmo sucedendo nas decorações. Que, como é óbvio, refletem a tendência mais estradista da R até ao máximo arrojo da Moto2 Edition, a que não faltam peças em fibra de carbono. Componentes que ajudam a justificar os 15.895 € que custa cada uma das 765 unidades em amarelo fluo e das 765 unidades em branco Cristal. Preço que sublinha a exclusividade face à RS (13.195 €) e ainda mais à R (10.645 €)

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