Salvador Dalí e o poder inspirador de uma moto

  • Texto: Fernando Pedrinho
  • Fotos: Ulf Andersen

A excentricidade de Salvador Dalí foi algo que acompanhou o pintor, artista plástico, escultor, cenógrafo e escritor catalão ao longo dos seus 84 anos de vida. Mas até que ponto uma moto pôde servir de inspiração para as suas criações é algo que dá que pensar, dada habitual aversão às ‘coisas’ mecânicas e barulhentas que se vive nestes meios. Mas até nisto Dalí era diferente.

Durante trinta anos, o autor de algumas das imagens mais oníricas e surrealistas que se possam imaginar, ‘barricava-se’ durante um mês naquilo a que chamava ‘A Fábrica’. Situado na rua de Rivoli, em Paris, o luxuoso hotel Le Meurice acolhia o artista – relembrado, para além das suas obras, pelos seus finos e longos bigodes, que segundo ele foram crescendo e consolidando a sua formar ao não limpar as mãos depois de comer, mas antes a estes pelos faciais – e a sua comitiva ao longo de um mês, ano após ano. Devoto declarado do erotismo e sexualidade, recebia convidados e concedia entrevistas e sessões fotográficas rodeado dos seus modelos, maioritariamente do sexo feminino, que andavam na maior parte do tempo tal como haviam vindo ao mundo, exibindo as suas formas e umas assinaláveis ‘carpetes’ púbicas, como era comum nos anos setenta.

Salvador Dalí no Hotel Le Meurice, em 1973.

Dalí alugava um piso completo para toda esta gente e o rebuliço era geral ao longo do dia (e noite). Mas o que poucos sabem é que Salvador Domingo Felipe Jacinto Dalí i Domènech, de seu nome completo, tinha uma Honda CB750 Chopper numa das salas. Dizia a sua ‘entourage’ que era uma fonte de inspiração para o autor de ‘a persistência da memória’ e dos seus relógios derretidos. Dalí não se coibia de ligar o motor e circular pelos corredores do piso reservado para si, no que se pode imaginar como o fim do mundo e o cúmulo da excentricidade no melhor estilo ‘easy rider’.

O autor é perpetuado pela sua obra dispersa por vários museus e pela sua fundação-museu, casa e castelo, em Figueres, Portlligat e Púbol, na Catalunha e perto da fronteira com França, também conhecido como o triângulo Daliniano, mas também no museu com o seu nome na cidade São Petersburgo, no estado norte-americano da Florida, já que não deixou descendência. A sua obra mais valiosa é o retrato de Paul Eluard, leiloado pela Sothebys, em 2011, por 22,5 milhões de dólares.

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