Que moto para o Pai Natal?

O Pai Natal existe ou não? Bom, não é ao fim destes anos todos que ainda me restam dúvidas sobre o tema, mas todos os anos, ainda de muito pequeninos e que em tudo acreditamos, a cada noite de 24 de Dezembro tem lugar um bocadinho de magia, para alegria da pequenada.

Supondo que existe, a tarefa do senhor barbudo que veste de vermelho, apresenta alguns índices de marcada obesidade e se introduz por chaminés para largar presentes, é tudo menos fácil. Poderia o Pai Natal beneficiar com a troca das suas fiéis renas por uma versão motorizada de duas rodas? E a fazê-lo, qual seria a melhor opção?

  • Texto: Fernando Pedrinho
  • Fotos: 123RF.com, Lisa Daniel Photography, Dunlop, Nit FM, Fabio Quartararo

A análise da física deste trabalho realizado a uma escala mundial revela números perfeitamente incompreensíveis para a noção da realidade de qualquer humano. Desde logo porque as renas não voam, o trenó tem dimensões contidas para transportar as prendas para a criançada do mundo inteiro e o tempo para executar a tarefa é muito curto. E aqui nem discuto a possibilidade de subempreitar a tarefa, seja aos pais ou a empresas de entrega global, como hoje nos habituámos em muitas das compras que efetuamos.

E se as renas pudessem ser trocadas por uma moto? Ainda assim temos o problema de quem as iria guiar – trocaria o Pai Natal o conforto do trenó, pela proteção de uma carenagem – da manutenção durante um período de utilização altamente abusivo, mas sobretudo do ‘tuning’ necessário para as fazer voar e rebocar o trenó, entre muitos outros fatores. Imaginemos que era possível…

Uma cena de magia que se repete todos os anos…

Os números da física e da energia associada a esta tarefa anual complicam ainda mais a escolha da moto para o simpático barbudo da Lapónia. Socorri-me do exercício efetuado pela ‘Neutrino Humano’, o nome ‘artístico’ de Linda Harden para alguns dos seus ensaios.

Se considerarmos que há 2 mil milhões de crianças (seres humanos com menos de 18 anos), de acordo com o PRB (o “Population Reference Bureau”) mas que alguns são educados sob religiões que não celebram o Natal (muçulmanos, hindus, judeus, budistas ou ateus), então o ‘público-alvo’ ficaria reduzido a 15% do total, ou seja, uns 378 milhões de miúdos e miúdas. Com um censo do mesmo organismo a indicar 3,5 crianças por casa, isso dá 91,8 milhões de núcleos habitacionais, onde vamos assumir estarem uniformemente distribuídos pelo globo (apesar de sabermos não ser o caso, dada a maior concentração de população nas cidades e existência de vastas áreas não habitadas, comos os oceanos ou os desertos).  Considere-se ainda que cada casa tem pelo menos uma criança que se porta bem todo o ano e é merecedora de um presente.

A Dunlop tem ideias muito claras a respeito das escolhas do Pai Natal

Como a terra está em permanente rotação, assume-se que o trabalho será efetuado de leste para oeste, o que faz sentido e permite, assim, beneficiar dos diferentes fusos horários para cumprir a missão num turno contínuo de 31 horas de trabalho. Ora aqui já podem perceber de que se trata de uma missão de 822,6 visitas por segundo, ou seja: um décimo de milésimo de segundo (1/10.000) para travar, parar (e vamos considerar efeitos anti-gravíticos de levitação para não o obrigar a ter de subir aos telhados ou a recorrer a técnicas de ‘parkour’), estacionar, desmontar do trenó (ou da moto, para o caso do artigo), pegar na prenda, descer a chaminé, colocar a prenda no sapatinho, comer e beber alguma coisita que lhe tenham deixado junto à lareira ou junto à árvore de natal, voltar a subir a chaminé (e vamos considerar que não há exaustores ou outras constrições pelo meio), re-arrumar a bagagem, subir no trenó (ou montar na moto) e voltar a arrancar para a próxima entrega. Ufa, só de escrever esta parte até fiquei cansado!

Voltando à tal (assumidamente errada) distribuição uniforme das casas pelo globo, a distância a cobrir entre entregas seria de aproximadamente 1.200 metros, num total 121,5 milhões de quilómetros que se estenderia o percurso durante as 31 horas de duração da missão. Em termos práticos, falamos de uma velocidade média de 1.046 quilómetros por segundo, ou três mil vezes mais rápido que a velocidade do som (os que já estavam a ver a ficha técnica da Kawasaki Ninja H2, podem arrumar o catálogo).

Agora vem o problema do trenó. Se se assumir que cada criança vai receber um presente da dimensão e peso de uma caixa de Lego (cerca de 900 grama), então o trenó carrega umas consideráveis 321.300 toneladas, sem contar com o peso do próprio Pai Natal, que já referi exibir sérios sinais de obesidade e peso excessivo, mas que para o total da massa é desprezível. Suponhamos, resolvidos os naturais problemas de tração, que uma moto conseguia puxar dez vezes mais peso do que uma rena é capaz em terra (cerca de 136 kg). Para isso necessitaríamos de 214.200 motos, que pesando 300 kg cada uma, elevaria a massa do conjunto para 385.560 toneladas, ou seja, mais de quatro vezes a massa de um transatlântico.

A subempreitada parece ser a opção mais plausível para o desafio colocado pelas leis da física ao simpático ‘barbudo da Lapónia’. Em cima, o Moto Clube de Setúbal a dar uma ajudinha!

E é aqui que a porca torce o rabo. Sem considerar formatos aerodinâmicos que mais se assemelhariam a um foguetão, 385 mil toneladas a viajar pela atmosfera a 1.046 km/s iriam criar uma tal resistência que tornariam o conjunto numa enorme bola de fogo. Só as duas motos da frente (e de novo supondo que o Pai Natal teria eletrónica suficiente à sua disposição para gerir os sistemas de 214.200 motos de forma irrepreensível, dispensando desta forma a massa e a folha de ordenado requerida para outros tantos condutores) iria requer 28,3 quintilhões (a potência de 10 elevada a 18, ou o número seguido de dezoito zeros) de joules de energia. Só para terem uma ideia, a bomba atómica lançada sobre a cidade japonesa de Hiroxima libertou 1.5 x 1013 joules de energia! E o ‘festival’ de números inconcebíveis continua. Com as motos da frente a vaporizarem-se instantaneamente, o restante batalhão de motos conheceria idêntico destino milésimos de segundo e o próprio Pai Natal seria submetido a uma força de aceleração 17.500 vezes superior à da gravidade. Nem uma ‘Bimby’ faria melhor em termos que liquidificação. Mas há mais: pesando ele 113 kg, por exemplo, ele seria literalmente esmagado contra o trenó durante a aceleração sob uma força de quase 1.960 toneladas.

Perante tudo isto, dá para ver que no mundo real seria impossível levar a cabo tal missão com apenas uma pessoa. Muito menos escolher a moto ideal para o Pai Natal (apesar de já imaginar algumas discussões de moto clube com uma divisão clara entre os adeptos das maxi-trail e das turísticas)! E assim são os pais e familiares que mantêm a chama e aura do senhor da Lapónia viva em tantos e tantos lares.

Aos maiores de 18 anos que ainda acreditavam no Pai Natal, apresento as minhas desculpas se porventura desfiz a ilusão…

O campeão do Mundo de MotoGP não esconde o (possível) próximo passo na sua carreira.

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