Quando dizíamos faz favor, obrigado, e o papel arranhava.

  • Texto: Alex Kossack

Sou do tempo em que aos 19 tínhamos de ir à tropa, as únicas ajudas que as motos tinham eram os travões e as suspensões, a gasolina custava, em escudos, o equivalente a uns meros 10 cêntimos, não havia telemóveis nem computadores, e os primeiros faxes começavam a ser novidade, mas só em empresas muito para a frente. O restante, era carta, envelope e um selo bem lambido, senão não chegava ao destinatário. O papel higiénico só tinha uma folha e o mais económico arranhava os entrefolhos do rego.

As máquinas fotográficas – como se chamavam na altura, porque a moderna palavra camera só apareceu depois – eram caríssimas, os rolos uma exorbitância, o processo de revelar as fotos demorava em semanas e era custoso, por isso, fotos, só de casamentos e da tromba do puto da vizinha, que acabara de nascer, e que, diga-se a verdade, mais valia não haver registo daquele macaco! Por isso, temos tão poucas fotos das nossas, agora clássicas, quando eram jovens.

Éramos todos feios, também não havia filtros nas câmaras, como há hoje.

Hoje são todos lindos e lindas, ninguém tem borbulhas nem macacos a espreitar de uma distraída narina. Perdeu-se a noção de vergonha, de realidade, de verdade e honestidade, para dar lugar a um incomum narcisismo, que começa a roçar os limites do psicologicamente nefasto e até mesmo doentio, senão mórbido. Por todo lado se podem ver vídeos didácticos sobre truques de fotografia, filtros e até mesmo deturpação da imagem. Já ninguém é o que a objectiva capta. Só vejo fotos de gente a fazer boca de pato, ou em poses patéticas.

Também hoje, numa qualquer estrada, se alguém falha uma curva, toca a subir e a descer até que no meio de 30 fotos, uma saia bem; a eleita da semana.

A tal que vai para a feira das vaidades, para todos poderem ignorar. Pouca gente sabe, mas praticamente 95% dos “likes” que faço, ou estou sentado na sanita a tratar de perder peso, ou sentado no carro à espera do meu filho.

A verdade é que as fotos que me agradavam e me faziam pensar, “este sim, é um artista”, deixa lá “botar” um like no jovem, deixaram de o fazer. Sempre massa e arroz enjoa.

É que até nas fotos a lei da oferta e da procura se aplica. Já há tantos artistas e tantas fotos do mesmo angulo de sempre, que já ninguém liga, e com isto corre-se o risco do lugar comum, do desnivelamento intelectual e da banalidade. Variem, façam outra coisa mais agradável e diferente, arroz com feijão, sempre, enjoa. Mas como quem está mal muda-se, eu mudo e deixo de ver. Escolha minha.

Também acho que antes, em cima das nossas 750 nos idos anos 80 e 90, a vaidade e as capacidades de cada um era medida na estrada, ao vivo, e à frente uns dos outros, não havia fotógrafos nas curvas, nem uma plateia de gente desconhecida a bater palmas virtuais. Sem desfazer no talento dos jovens de hoje, que sem dúvida alguma o têm. Têm é pouca variedade no que escolhem. Arroz com feijão, que cada vez mais ignoro. Eu e muitos mais, decerto.

Confesso que gosto de ir a certas páginas de grupos na feira das vaidades (*) e procurar as belas fotos desta gente talentosa a curvar, mas como é quase tudo do mesmo, o interesse esvaiu-se, e dou comigo, invariavelmente, a bloquear malta que nem conheço, não porque não goste deles, mas porque se tornou banal e só servem arroz com feijão. Muitos até acabam, sem saber num outro grupo, de escárnio e maldizer onde só se diz mal, mas que me diverte imenso. Com a banalidade, vem o ignorar e o cair em esquecimento. Efeito diametralmente oposto ao que se deseja.

Mudem o menu, rapazes!! Faz favor. Qualquer dia, à conta de bloquear gente, não vejo ninguém nem belas fotos em curva, porque vou apagando e apagando.

Praticamente, esta purga aos “curveiros” tem sido tão grande que, para fazer likes, já só me restam os netos das tias da minha mulher, o grupo de gente maldizente e o gajo que mete fotos dos bonsais dele. Isto porque o grupo de construtores de hospitais e pontes em macramé, ao qual sem saber muito bem porque, aderi, foi apagado, infelizmente. O administrador atirou-se de uma ponte e caiu em cima das almofadas da senhora que tinha um grupo de gente que fazia almofadas para por debaixo de pontes. Mas esse grupo era chato. Os das motos são mais giros, mas começam a ser banais demais.

É que, como eu, decerto haverá muito mais gente que assim pensa. E qualquer dia não há nada para ver.

E as motos velhas? Aliás, antigas, porque passam a vida a corrigir-me e a dizer que se diz “clássicas” ou “antigas” como se eu não pudesse dizer o que me apetece. Se me der na gana dizer que são trambolhos, digo que são trambolhos. Muitas são, mas hoje em dia, tudo o que tem pó é clássico.

Já fomos mais livres de dizer o que nos vai na cabeça, que o que podemos dizer hoje. Reconheço que até éramos mais livres de o fazer, até mesmo antes de termos sido “libertados” da censura, por uns tipos bem intencionados, que se soubessem no que deu o que fizeram em 74, tinham ido para a Caparica naquela noite, beber umas imperiais e comer uns tremoços! Conheci e privei com um deles, durante um ano na tropa. Era o tal, o que foi importante naquela noite e morreu no esquecimento. Disse-me coisas que nem imaginam, mas também me disse, que se soubesse no que ia dar, tinha estado quieto.

Hoje, a censura social e verbal, porque a maioria se ofende de tudo e com tudo, obriga a que as pessoas mais inteligentes tenham de falar como se fossem estúpidos para não ofender os estúpidos. Estamos a nivelar por baixo, estamos a estupidificar o intelecto.

Acho curioso que hoje seja moda chamar clássicas a tudo o que é mota velha, há muita coisa que na altura era uma merda, e hoje por ter 40 anos, não deixou de ser uma merda, com uma agravante. É que agora é merda velha. Merda não se colecciona, nem se guarda, descarta-se, o macio papel de dupla folha dos dias de hoje até nisso ajuda. Não é por terem 45 anos que as minhas cuecas de juventude são peças de vestuário clássico.

Por mais imaculada que esteja uma Casal de 6 com 35 anos, uma TZR com 33 anos, ou uma linda Suzuki GS 750 de 1977, não deixam de ser motas velhas (até bastante interessantes). E, independentemente de estarem ou não, bem conservadas são, estas sim, clássicas, mas são velhas.

Hoje acha-se de tudo o que é moto velha, é um clássico. Corre-se o risco de, também nas motos velhas, começar a ser menú de arroz com feijão. Urge, se faz favor, separar-se o trigo do joio, senão qualquer dia, tal como as fotos das curvas, já nem motos velhas consigo ver à conta de apagar gente chata. Obrigado.

Agora que disse o que penso, porque o posso fazer, deixo-vos e vou fazer likes no novo neto da tia de um familiar qualquer, que não vejo desde o fim da II Guerra mundial, porque ao menos esses não metem sempre a mesma porcaria de fotos, e poupo no papel de dupla folha.

Deixo-vos fotos diferentes, minhas, para não enjoar. Uma comigo a fazer o pino, outra na minha montada de 50 toneladas, quando o nosso inimigo, curiosamente… eram os Russos. Ironias do destino, porque a história se repete, e querem estes palhaços, inúteis sem obra feita, e que mandam nisto tudo, reescrevê-la para não ofender ninguém. Não foram à tropa, nem limparam o rabo a papel que arranha.

Obrigado e faz favor.

(*) Livro das faces.

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