Paulo Gonçalves. Homenagem arrebatadora

Com uma dimensão que faz jus ao Homem que foi Paulo Gonçalves, uma imponente instalação artística eterniza o piloto em Esposende. Uma obra do fotojornalista e artista plástico Paulo Maria que muitas centenas aplaudiram na inauguração. E que agora está bem à vista dos muitos milhares que não esquecem o herói das pistas de motocrosse e supercrosse, como dos trilhos de enduro e do Dakar. A mais dura prova do Mundo reclamou a sua vida, mas não roubou a eternidade.

Paulo Gonçalves
  • Por: Paulo Ribeiro
  • Fotos: Paulo Ribeiro e CM Esposende

Paulo Gonçalves amava a sua terra. Levava sempre Esposende bem perto do coração e dela era um aguerrido embaixador. E Esposende gostava genuinamente de Paulo Gonçalves! Bem como todos os motociclistas que com ele tiveram oportunidade de trocar uma simples palavra que fosse. E todos os outros, sempre acarinhados por um verdadeiro lutador de causas. Das crianças aos animais, dos idosos aos desfavorecidos e, muito particularmente, daqueles para quem a vida foi madrasta desde a primeira hora.

Era assim Paulo Gonçalves, o Homem, que todos recordaram, de forma sorridente, num dia de exaltação, de alegria, de celebração da vida. Mas também de emoções e sorrisos, de lágrimas e palmas. Um dia que começou com uma caravana de motociclistas a alertar os esposendenses para o evento e continuou com a bênção e o descerramento da placa do novo espaço evocativo do piloto.

A poesia nos títulos

Abnegado, generoso, divertido, determinado, Pai, lutador, altruísta, sorridente, lutador, amigo, rijo, marido, resiliente, bondoso, companheiro, filho. Paulo Gonçalves era isto e muito mais. Por isso não foi de estranhar que muitas centenas de pessoas tenham acorrido a Esposende para mais uma merecida homenagem.

Paulo Gonçalves homenageado

Paulo Gonçalves homenageado

Paulo Gonçalves homenageado

Paulo Gonçalves homenageado

A cerimónia de inauguração do Parque Paulo Gonçalves e da Escultura Memorial do Piloto, aconteceu quatro anos após o fatídico dia 12 de janeiro de 2020 e poucos dias após a data do 45.º aniversário. Uma vida encurtada que não impediu uma carreira recheada com 23 coroas nacionais de motocrosse, supercrosse e enduro além do título de Campeão do Mundo de Ralis Cross-Country em 2013. Quanto ao Dakar, marcou presença em 13 edições, terminando quatro vezes entre os 10 primeiros e tendo como melhor resultado o segundo posto em 2015.

Paulo Gonçalves

Carreira brilhante que justificou a frase dedicada pelos filhos Érica e Ruben Gonçalves: “Aquele que nasce para ser grande, não será nunca esquecido”. E citando Fernando Pessoa, através do seu heterónimo Ricardo Reis, acrescentaram.

Para ser grande, sê inteiro

Nada teu exagera ou exclui

Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és no mínimo que fazes

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive

Homenagem no tempo certo

Uma homenagem que “aconteceu no momento acertado, porque há coisas que precisam ser amadurecidas, que não podem ceder a imediatismos”. Palavras do presidente da Câmara Municipal de Esposende, responsável pela obra cujo valor total ronda o meio milhão de euros, que mostram enorme pragmatismo. Para Benjamim Pereira, “esta escultura não podia ser feita de outra maneira. Tinha de ser algo diferente, marcante, como a personalidade do próprio Paulo Gonçalves. Tem a dimensão de um ser humano único e foi pensada, desde o primeiro momento, para envolver toda a comunidade. As peças que compõem o monumento foram oferecidas por empresas e cidadãos de todo o País numa lógica envolvente que o Paulo adoraria”.

Paulo Gonçalves

Como gostaria de saber que o investimento autárquico serviu não só para o homenagear como para criar um parque, com o seu nome, pensado para o usufruto dos esposendenses. Uma área de 3800 metros quadrados, que incluem um espaço arborizado, pistas pedonal e ciclável além de um inovador espaço canino. Equipamentos de inegável utilidade integrados na requalificação e valorização da parte nascente da cidade, resolvendo um dos problemas urbanísticos existente na zona. Algo que Paulo Gonçalves aplaudiria…

Ideia que o edil sublinhou, garantindo que “não havia local mais apropriado do que este, num sítio bem visível a todos os que passam na N13 e não de forma mais discreta no centro da cidade”. Um local que será de romaria para milhares de motociclistas e que deixou o presidente da Federação de Motociclismo de Portugal particularmente agradado. “Uma obra que reflete a imagem de Paulo Gonçalves e que é fruto de uma homenagem justa e muito merecida ao piloto e ao Homem” salientou Manuel Marinheiro.

Paulo Gonçalves homenageado

E o sol sorriu ao campeão

Uma escultura que custou 50 mil euros, suportado integralmente pela autarquia e que fugiu ao convencional para “ir de encontro à forma de ser e de viver do Paulo Gonçalves”. Em vez do bronze ou da pedra, foi criada com centenas de bielas, pistões, discos de embraiagem, correntes, cremalheiras, carretos de caixas de velocidades, aros de rodas, proteções de cárter, segmentos de chassis e velas. Algo que, seguramente, agradaria a ‘Speedy’ Gonçalves, perfeitamente identificado com os componentes que o acompanharam ao longo de toda a vida. E que, ainda por cima, foram assim reciclados para um fim artístico e, não menos importante, envolvendo dezenas de beneméritos doadores. Que permitiram juntar mais de 12 toneladas de peças mecânicas em fim de vida, das quais foi feita uma triagem para escolher as mais adequadas.

Homenagem que não foi a primeira nem será a última. Depois de falecer a fazer o que mais gostava, recebeu, a título póstumo, o Colar de Honra ao Mérito Desportivo, a mais alta distinção que o Estado pode entregar no campo desportivo. Mas recebeu também a Medalha de Honra do Município de Esposende e a distinção na toponímia da sua terra natal, com uma avenida na freguesia de Gemeses. E além do passeio de todo-o-terreno organizado anualmente pela Associação Speedy Forever, ‘deu nome’ ao mais importante galardão atribuído a desportistas pela edilidade esposendense.

Um reconhecimento que contou até, imagine-se! com o apoio de S. Pedro. Que, rendido à devoção de muitas centenas, parou a chuva e abriu as nuvens por momentos, para deixar o sol sorrir na homenagem ao campeão de todos os sorrisos. E que teve a presenças de pilotos como Rui Gonçalves, Sebastien Bulher, Mário Patrão, Joaquim Rodrigues Jr., Rita Vieira, Paulo Felícia, Alex Laranjeira, José Pereira, Pedro Leal, Santos Godinho, João Ramos ou José Janela.

Descoberta de uma nova vocação

Habituado a ferramentas mais leves, o artista Paulo Maria deixou de lado, por uns momentos!, as máquinas fotográficas que o acompanham há mais de três décadas de dedicação ao desporto motorizado. Os sonhos de “criar arte num ambiente e materiais diferentes levou a uma nova etapa. Assim, no final da década passada quis desenvolver alguns projetos artísticos de âmbito diferente”.

E, em 2020, surgiu o fabuloso retrato de Amália Rodrigues, ‘Soledad’ criado com recurso exclusivo a 14.000 rolhas de cortiça. “Foi criado para o centenário de nascimento da fadista e abriu os olhos e a alma a outras técnicas”. Incluindo algumas pouco divulgadas por estas latitudes, mas bem conhecidas “a Oriente onde há quem utilize muito a escultura de grande volumetria com recurso a materiais menos usuais”.

Com base nessa ideia e na descoberta da obra de um artista sul-africano, Paulo Maria decidiu fazer tábua rasa do “absoluto desconhecimento em termos de soldadura ou metalomecânica”. E no início de 2022, “por altura do Dakar, surgiu a ideia de desenhar algo, de criar uma peça que eternizasse o Paulo Gonçalves. Comecei a estudar o assunto e rapidamente nasceu o desenho e o projeto para esta obra”.

O primeiro passo estava dado, mas faltava… tudo o resto. “Foi aí que surgiu o entusiasmo do Patrick Azevedo e da Associação Speedy Forever, abrindo portas na Câmara Municipal de Esposende que rapidamente acolheu a ideia. Não queriam nada de ‘normal’ e este projeto era mesmo isso! Desde logo porque a sua concretização valorizaria materiais em fim de vida, reciclados artisticamente”.

Parcerias às toneladas

Aceite o projeto apresentado à edilidade esposendense, surgiu a necessidade de criar as parcerias técnicas rumo à aventura de peso. É que, sendo uma obra de arte, havia necessidade de um plano estrutural e de engenharia para lidar com escultura de 8 toneladas. Que ficaria no exterior, à vista de todos, e por isso mesmo, necessitaria de um suporte efetivo para a colocação.

Paulo Gonçalves homenageado

Paulo Gonçalves homenageado

Paulo Gonçalves homenageado

Paulo Gonçalves homenageado

Paulo Gonçalves homenageado

Começou por falar com o copiloto Vitor Jesus, professor de Design e Tecnologia das Artes Gráficas no Instituto Politécnico de Tomar, para dar o imprescindível apoio na parte técnica. Seguiu-se a HJDP, empresa metalomecânica do concelho de Constância. Local onde todo o trabalho de estruturação e soldadura das 27.600 peças deu corpo a uma escultura de 5,5 metros de altura.

No entanto, no cerne do projeto estava outra ideia. “Desde o primeiro momento que o objetivo era criar uma peça corporativa, lançando o desafio público de doar peças de automóveis ou motos . O que permitiu a muitas pessoas ficarem ligadas à obra, desde preparadores, a oficinas, pilotos e concessionários. Nomeadamente duas empresas de reciclagem de automóveis em fim de vida, doadores beneméritos de grandes quantidades de material que permitiram escolher o que mais convinha”.

Estátua de Paulo Gonçalves criada por Paulo Maria que contou com o apoio da Honda Motos, representada por Carlos Cerqueira

Afinal, apoio público e privado a que se juntaram ajudas logísticas por parte da Honda, a marca em cujas asas Paulo Gonçalves tanto voou. Assim a Honda Motos revelou-se parceria muito importante ao mobilizar a rede de concessionários para a cedência de peças. Em seguida a Honda Automóveis cedeu um carro que, só em três meses, ‘levou’ com mais de 20.000 quilómetros nas deslocações quase diárias a Constância ou até Esposende. Mas também a Hero, o ACP ou a BP foram parceiros logísticos na criação de “uma obra de todos para todos” e cuja imagem reproduz a última fotografia tirada ao piloto.

Paulo Gonçalves

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