Passeio pelo Tirol. ‘Adventure’ na Áustria? Só de KTM!

O que faz um jovem de 24 anos que acabou de obter a sua carta de condução que lhe abre portas a conduzir qualquer tipo de moto? A hipótese de poder alugar um modelo de alta cilindrada para o dia inteiro é altamente apelativa, especialmente quando se tem os Alpes Orientais Centrais mesmo à porta. Em meados de Agosto e com clima altamente soalheiro, não havia alternativa se não pegar no capacete e na carteira e lançar-me à estrada!

  • Texto: Gil Martins
  • Fotos: Stefanie von der Thannen e Gil Martins

Quando chegámos ao ‘High Bike Motorcycle Test Centre, em Landeck’, situado na região oeste do estado alpino Austríaco do Tirol, constatámos algo de muito invulgar: alugar uma moto nunca foi tão fácil! Tudo se resumiu à breve confirmação da recém obtida carta de condução e um aviso que o alugador é responsável pela franquia de 1.400 euros. De seguida, entregaram-nos uma lista, deveras deliciosa, com a série de motos disponíveis para aluguer e que por uns razoáveis 140 euros estariam ao nosso dispor o dia inteiro, das 10:00 às 17:00, sem limite de quilometragem. Já que o preço é igual para todas as motos, somos naturalmente atraídos pelas marcas mais exóticas – havia umas belas Ducati Multistrada V4S, KTM com siglas S e R e aí, nossa senhora, uma Aprilia Tuono V4 1100 Factory… Bem, a certa altura caí na realidade de que há que ser sensato na escolha, pois teria de convencer a minha namorada a ser pendura, portanto ‘ciao’ Tuono. E ‘ciao’ Ducati logo de seguida, pois já que estamos na Áustria e a Stefanie, a minha namorada, é austríaca, algo que não fosse uma KTM seria pouco adequado.

Galtur e as altas montanhas que rodeiam: Verwall, Samnaun e Silvretta.

Houve sempre algo da Super Duke GT que me fascinou: a potência bruta da Duke R, em que é baseada, mas com um nível de protecção e conforto acrescentado. Infelizmente, já tinha sido alugada mais cedo… Isso não constituiu um problema, pois a sua ‘irmã’ mais virada para aventura, a 1290 Adventure S, estava disponível! O tamanho e presença da moto, especialmente com a frente algo semelhante ao capacete de Darth Vader, da saga Guerra das Estrelas, e ainda por cima montada no descanso central, não tinham particularmente convencido a Stefanie.

“Mas é tão alta não é? De certeza que a consegues aguentar nas curvas apertadas? Esta não seria mais adequada?”, enquanto apontava para uma Yamaha Tracer 7. Embora algo ofendido sobre o fato de as minhas habilidades de conduzir motociclos ter sido posta em causa, consegui convencer a rapariga a levarmos uma KTM 890 Adventure. Assinatura feita, os comandos brevemente explicados pelo funcionário da loja e estávamos a caminho.

Em Roma sê romano e na Áustria sê austríaca. A Stefanie determinou a escolha da moto para o passeio tirolês.

O percurso planeado levou-nos de Landeck até à pequena vila de Pertenen, situada já no estado de Voralberg, a cerca de 70 quilómetros de distância. Durante o trajeto, atravessámos o vale de Paznaun, conhecido pelas suas estâncias de esqui, como a infame Ischgl, e a Silvretta Hochalpenstrasse, uma típica estrada alpina repleta de ganchos, curvas e contracurvas, rápidas mudanças de declives e vistas espectaculares.

Boa moto + belas paisagens = casalinho feliz!

Deixo-vos as primeiras impressões sobre a condução da 890 Adventure:

– A frente e o esquema de pintura são característicos de uma KTM.

– Os tanques laterais não são propriamente apelativos.

– O espaço disponível é satisfatório para piloto e passageiro.

– O belo ecrã de TFT muda de cor consoante a luminosidade exterior.

– A ergonomia proporcionada pelos comandos, guiador e posição de condução é perfeita para o meu 1,77m de altura.

“Hey, hasch du de KTM g’sech?”

No capítulo do motor:

– Tem binário para mover montanhas. As ultrapassagens em quarta velocidade requerem um terço de acelerador.

– Os 105 cavalos de potência são mais do que suficientes para qualquer estrada de montanha.

– É refinado e suave – não ‘tosse’ em sexta velocidade acima das 2,500 r.p.m. – embora seja algo ‘agrícola’ e tosco abaixo das 2,000 r.p.m.

– Tem a sonoridade de um ‘v-twin’ e é divertido!

– É muito frugal, se conduzido como deve ser!

Os lagos de cor turquesa e a frente ‘alienígena’ da KTM: dois símbolos austríacos.

Em termos de dinâmica e parte ciclística:

– É fácil de inclinar para a curva e de posicionar na estrada – dá para atingir os vértices como se queira.

– É super estável, mesmo com passageiro.

– Apresenta um amortecimento sofisticado ao passar por cima de buracos e lombas.

– Não tivemos oportunidade de verificar o seu comportamento no fora de estrada.

Quanto à eletrónica:

– O ‘quickshifter’ parece manteiga, mesmo em passagens de caixa com o acelerador a fundo.

– O ABS em curva e o anti-cavalinho inspiram elevada confiança a um condutor mediano e dão vontade de andar mais rápido.

Ora aqui vamos nós!

Em termos de utilização geral:

– É fácil de manobrar devido ao guiador largo e baixo centro de gravidade, o que faz com que o peso em ordem de marcha de 210 kg pareça menor.

– O banco é algo alto, 850 mm, mas esguio. Com uma altura de 1,77 m e comprimento de perna de 85 cm, quase conseguia pousar as solas de ambos os pés completamente no chão – fácil.

– O banco é demasiado firme! As ‘nalguitas’ ficam tenras após 20 minutos de utilização. Por favor especifiquem o banco Ergo do catálogo Powerparts da KTM!

– A regulação da pré-carga da mola está colocada debaixo do banco e fácil de se ajustar.

– O pára-brisas e as proteções de punho no guiador fornecem excelente protecção ao vento – mas é ‘chato’ ter um vidro só é ajustável com recurso a ferramenta.

– Seria bom um descanso central (mas acho que pode ser especificado).

O Silvretasee. O azul turquesa deve-se ao material transportado pelas moreias dos glaciaes e depositado no fundo dos lagos.

No que se refere à instrumentação:

– O painel de instrumentos apresenta excelentes gráficos e é bem visível, enquanto o  ‘infotainment’, por sua vez, está bem organizado.

– Os botões são retroiluminados e a manete do pisca oferece muito pouca resistência: até parece que está partida ou desconectada do guiador.

– A embraiagem tem um acionamento super leve.

– O ‘cruise control’ é fácil de utilizar e mostrou-se eficaz.

– O indicador de combustível só mostra a metade inferior do tanque (a sério? não entendo porquê).

Cenário idílico e ideal para uma sopa ‘Knödelsuppe’ e um ‘Schnizel’ antes de ‘atacar’ a estrada.

O veredito da ‘pendura’:

– O assento é rijo;

– As pegas laterais são excelentes.

– A 890 Adventure oferece boa proteção aerodinâmica.

– O modo ’Street’ revela-se algo abrupto na abertura do acelerador, tornando-se ligeiramente mais manso no modo ‘Rally’.

Ponto de concentração para umas curvas na Hochalpenstrasse.

Quem procura a melhor moto de aventura ‘mid-size’, não dá para errar com a 890 Adventure. Dito isto, a Silvretta Hochalpenstrasse, que significa alta estrada alpina, é um excelente desvio para qualquer passeio transalpino. Não só oferece uma paisagem ‘escandalosamente’ bonita, mas também estradas de um asfalto perfeito e uma combinação de retas e curvas que se podem disfrutar em qualquer moto. Recomendo uma paragem para uma ‘Knödelsuppe’ e um ‘Schnitzel’ na esplanada que à beira do Silvrettasee. E não esqueçam de levar dinheiro para portagem,  pois são 17 euros em cada sentido. E garanto-vos que hão-de querer fazer a estrada e os seus trinta e dois ganchos pelo menos duas vezes!

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