Os Fios da vida, e quando vemos a vida por fios.

Há já alguns tempos tinha mencionado e falado sobre os frágeis fios da vida, esses finos cabos que nos seguram nesta vida. Finos como cabelos, resistentes como corda de piano, frágeis como linho. Falíveis e amiúde maltratados, normalmente por apelo da inconsciência ou por patetas ávidos por aprovação alheia.

  • Texto e fotos: Alex Kossack

Não precisamos de muito para que se partam e, desamparados, tombemos pela estrada da vida, muitas vezes sem retorno ou recuperação. Outros há que se cortam, e por magnificência da divina intervenção, ou sorte, para os ateus, voltamos a dar um nó e ficam como novos. É destas vezes que falo hoje, as tangentes, as escapadelas, e as “mas que raio se passou?!”.

Sempre disse que o que mata não são as tangentes… são as secantes!!

Vou todos os Domingos com o mesmo grupo de velhadas no nosso passeio matinal. Gente do melhor, que nutre a mesma paixão que eu por motas antigas, e que as usam como se fossem motos dos dias de hoje. O que é bom é para se usar. E se as usamos! Falamos de tudo e não dizemos nada, mas adoramos falar uns com os outros.

Há de tudo ali, desde uma CBX 1000 seis cilindros de 1978 a uma ZXR900, duas ZXR, passando por duas ou três Ducati antigas, várias GSXR de 89, 90, 91, 92 e 93, uma Vmax e até mesmo uma ou duas CBR daquelas antigas, a sério. Motas de pêlo no peito.

Sobre as estradas em Portugal, enfim, já sabemos o que são, verdadeiras tesouras a cortar fios. Os carros idem, e agora até o raio dos gajos das bicicletas nos andam a querer cortar os fios.

Conheço a estrada para o Cabo da Roca há 43 anos, e apesar de ter bom piso e umas curvas engraçadas, nem sempre foi assim, foi até bastante má e muito mais perigosa. Matava muito mais que agora.

Têm sorte os que a não conheceram quando era má, e a usam agora como autódromo, na sua esperança pelas palmas de dois ou três amigos que surdamente as batem mas ninguém quer saber. Eu pelo menos estou-me nas tintas para os artistas.

As obras públicas eram mal sinalizadas antigamente e, se alguém tivesse o azar de cair num buraco de uma obra de estrada, ainda vinha o capataz reclamar e pedir reparações, ou chamava a Guarda, que era assim que eles se chamavam na altura em que havia respeito pela polícia.

No entanto, há uma diferença muito grande entre as estradas públicas, como por exemplo as belas curvas ate à Roca, e a pista do Estoril. É que na estrada publica, não há oficiais nem comissários de pista a inspeccionar o asfalto antes de alguém lá passar.

Muitas vezes nem sabemos o que se passou lá, de noite na estrada, e vamos à confiança fazer as curvas no máximo que os nosso sentidos ou astúcia permitem, e é assim que elas acontecem, e alguns fios vão sendo cortados.

Acho parvo e perigoso, mas não se pode dizer nada, hoje em dia, porque tudo ofende esta gente. Hoje li sobre uma mancha de óleo na estrada, que ameaçava cortar fios a alguém. É a isto que me refiro, o que não controlamos.

Cresci na época e no tempo em que ninguém usava capacetes nem joelheiras para andar de bicicleta.

Alias, mais tarde, no início dos anos 90 os gajos que usavam joelheiras ao domingo para ir à Roca ainda eram gozados, no geral e no particular.

Aprendíamos a andar de bicicleta, geralmente numa quinta à tarde e era à chapada, ensinados pelo pai, que ainda ralhava e mostrava a factura com o custo da bicicleta. E ai se caíssemos – não jantávamos nem víamos a novela da Gabriela Cravo e Canela.

Passaram já 40 anos desde que tive uma emoção de ter sido quase a minha vez, e 30 anos que morreram 3 amigos meus na estrada de moto, e um numa pista no Norte, mas há umas semanas, dei comigo a ser espectador, quase activo, na queda de um grande amigo meu, mesmo à minha frente.

Eu o Júlio e o João fomos num sábado de manhã à Roca e, no regresso, deu-se uma coisa estranhíssima que podia ter sido bastante grave, não fosse a mestria do Júlio e a experiência que tem.

Talvez porque correu em motos, e saiba intrinsecamente andar de moto, porque correu nos raides (Portalegre e Sagres 500) de 1984 a 1991.

Nos dois primeiros anos com a Kawasaki KLR600, depois com a Honda XR250 e no último ano com a XR600.

Antes disso correu em Enduro com a Yamaha YZ250. Ainda nos anos 70 com a KTM 125 em motocross.

As classes no início dos raides, não existiam, depois creio que a partir de 1989 eram por cilindrada e por classificação do piloto, e ele era na altura “pro B”. Em suma, sabe andar de moto a sério e ainda tem nele os reflexos e as unhacas afiadas na versão andar de moto.

A meio de uma curva para a direita a traseira saiu-lhe debaixo e atravessa a GSXR 1100 de 1992. Sem cair ele corrige o assunto e desta vez a moto foge de traseira para o outro lado.

Apesar dos dois coices ele aguenta a moto de forma incrível mas acaba virado de frente para um carro que vinha em contramão.

O Júlio consegue desviar a tempo, o carro, esse, nem parou, (mesmo depois dele cair), desvia levemente e, após a travagem, o Júlio acaba a 90 graus com a estrada, atravessado à minha frente. Eu seguia atras dele à mesma velocidade. O João vinha atrás de mim de igual forma, como todos andamos na estrada.

O Júlio sabe andar de moto a sério, aguentou 3 derrapagens seguidas, uma guinada para não bater de frente num carro que vinha em sentido contrário e acabou por cair ao terceiro abanão, mesmo, mesmo à minha frente. Tudo se passou quase em câmara lenta, como se o tempo tivesse parado.

Por 10cm não lhe passei por cima, desviei para o lado com uma guinada no guiador do lado contrário, porque também já não iria conseguir travar mais, e passei rente à roda da frente dele, agora a 90 graus com a estrada e a 2 metros de mim.

Eventualmente, se lhe tivesse passado por cima, também o João que seguia atrás de nós dois tinha lá ficado. A coisa foi mesmo safa pela perícia do Júlio.

Lembro que eu e o Júlio vínhamos com o intercomunicador ligado portanto, não só vi, como ouvi tudo ao pormenor. Tudo.

O suspiro que ele deu na altura da queda em que perdeu o ar, o silencio que houve após a queda e passados 20 segundos de silêncio por parte dele, em que o chamava se cessar, comecei a ouvir os gemidos dele. Tudo em stereo, graças ao intercomunicador que ele me tinha recomendado comprar!

Ao fim de 20 segundos de silêncio e imobilização do meu amigo, ele lá acordou :”Alex… eu caí”… eu sei Júlio deixa-te estar. Disse eu.

Nesta altura, já o nosso amigo João , este amigo sempre disposto a ajudar e de uma generosidade incrível, levantou sozinho a moto de cima das pernas do Júlio e lentamente levantámos o Júlio, que parecia atordoado, e não respondia a nada.

Eu ia perguntado pelo intercomunicador se ele estava bem. Não estava. Estava abalado e gemia desnorteado. Tirámos tudo da estrada e levámos o Júlio para a berma.

Foi então que vimos as marcas no capacete. Tinha batido forte com a cabeça no chão. Soubemos mais tarde tinha sofrido um traumatismo craniano.

A perna do lado que caiu, passados uns dias perecia um enchido que não foi bem fumado e fermentou, e foi inchando.

Várias semanas para que lhe passasse o traumatismo na anca. Hoje está fino e recomenda-se, Graças a Deus. Podia ter sido pior. Cortaram 3 fios ao Júlio nesse dia, e ele ardilosamente e habilmente os atou, e não foi desta. A mim e ao João foi apenas um fio, que não deixámos cortar, felizmente.

Voltei ao sítio nesse mesmo dia a ver se percebia porque lhe tinha fugido a traseira. Nada. Não havia óleo nem areia, nada. Coisa estranha. Foi mesmo falta de aderência do pneu traseiro em curva.

Só mais tarde ao passar ali com mais calma e parar no local vi que naquele preciso local onde a roda traseira passou, o alcatrão estava gasto e tinham aparecido como se fossem pipocas a flutuar umas pedras brancas, gastas e bem lisas, que presumo eu sejam usadas para ajudar a engrossar o asfalto.

Hoje estamos aqui, continuamos a rir com a historia do “Alex….eu caí” e continuamos seguros e suspensos por finos fios frágeis.

Deixem de ser patetas e tratem de evitar cortar os fios, é que uma coisa é eles serem cortados por força das circunstâncias e por situações que nos são alheias, outra é sermos nós a cortá-los de forma estúpida

Prudência, não faz mal a ninguém.

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