O sangue de irmãos e os irmãos de sangue.

  • Texto e fotos: Alex Kossack

Quantos de nós não ganhámos já irmãos na estrada? Eu sim. Muitos mesmo.

Praticamente (salvo algumas excepções), todas as espécies que habitam esta nossa bola azul e verde vivem e coabitam em grupo. É um mecanismo de defesa contra predadores.

Grupo ou alcateias, cardumes, bandos, manadas, e por aí além. Unidos fazemos a força, comunicamos melhor, evoluímos e defendemo-nos de agressões. Desde formigas a uma esquadrilha de caças da força aérea, anda tudo em grupo. Quantos mais melhor, está-nos no código genético.

No fundo, e curiosamente até mesmo nós, os gajos das motos, somos uma espécie de grupo. Andamos em manada, admitamos ou não.

Gostamos de nos juntar em grupos. Uns discretos e simples, sem grandes ondas, outros que precisam de dar nomes aos grupos, uns usam coletes vistosos, metem autocolantes e bandeiras para se identificarem e sentirem melhores. Chama-se a isto uniformização e serve para identificar irmãos bem como afastar inimigos. Das cores aguerridas de um guerreiro Zulu, passando pelo uniforme de um polícia e do colete de um qualquer motociclista de um qualquer clube, a indumentária faz parte da identidade de um grupo. Irmãos de sangue sem sangue comum, uma espécie de irmãos de outras mães.

Somos um grupo tão unido que até já temos substantivos colectivos; os motociclistas, os motards, os gajos das motas e agora até o tão na moda graças aos nossos amigos brasucas que para cá vieram, os motoqueiros. Confesso não gosto lá muito da palavra motoqueiro, mas também nunca fui muito de brasileirismos e estrangeirismos, ainda falo e escrevo à Antiga Portuguesa. Eu sou dos que ainda vai para a bicha, para mim veados são animais selvagens, mamíferos ruminantes da família dos cervídeos, e Legal é um termo judicial que deriva da palavra em Latim LEGALIS, que representa Lex ou lei, e não um estado de porreirismo ou de fixe, que por acaso até significa sólido ou conotado com fixação.

Adiante, nada contra, nem me afecta, quero é que sejam felizes e não me chateiem, mas não me chamem motoqueiro, nem camarada. Nunca gostei da palavra “camarada”, nem mesmo na tropa. Não sou do grupo dos motoqueiros, nem dos camaradas.

A minha primeira moto foi uma Moto Graziella azul e branca, a pedais, que o meu pai comprou numa qualquer FIL, em Lisboa, lá para 1970 ou algo assim, e que eu comecei a usar em 1973 ou 74. Inevitavelmente, o Cláudio, o meu irmão de sangue, mais novo que eu 5 anos, começou uns anos depois. Ando de moto com ele ao meu lado desde que tenho 15 anos e ele uns 10 ou 11 anos. Já é uma valente catrefada de anos de estrada que temos no pêlo.

Embora eu me tenha iniciado mais cedo, começámos a andar mais juntos de moto e com mais força lá para 1982 ou 83, quando ele já com 13 ou 14 anos me seguia, e juntos íamos para todo lado. Crescemos juntos na estrada, indo para todo o lado sem ir a lado nenhum. Íamos só por ir. Foi nessa altura que começámos a andar com o nosso grupo das motos. O mesmo que ainda se mantém hoje. O Rating e o Tojó, os Pinhos, o Porfírio, o Orlando, o Manel, o Carlos, o Spriella, etc.

Acho que das poucas coisas que me orgulho ter feito na vida foi ter tentado ser um bom irmão para ele, e o facto é que ainda hoje somos unidos e sentimos esta cumplicidade. Eu ligo e ele atende logo, ele espirra e eu pergunto se está bem e vice versa. O que fazemos, costuma ser idêntico em tudo. Coisa inacreditável. Às vezes preciso de falar com ele, e de repente ele liga-me, e vice versa. Ele é mais sensato, calmo e pacifico, eu tenho o pavio mais curto, irrito-me facilmente digo o que penso sem problemas e sou mais volátil e intolerante com gente parva. Acho que até juntos nos complementamos no temperamento. Tantas vezes ia fazer algo que me iria arrepender e ele demoveu-me, e tantas vezes ele precisou de conselhos técnicos ou outros e fui eu que o ajudei. O meu irmão de sangue.

Nutrimos a mesma paixão por motos antigas, e de uma forma única. É que temos exactamente as mesmas motos, e se não são do mesmo ano, são um ano acima ou um ano abaixo, mas temos ambos os mesmos modelos. A única diferença é que as minhas são monolugares e as dele de dois lugares. Há uma outra diferença entre nós. Ele tem um BMW GS, e aí é onde eu traço a linha, linha essa que não transponho!! isso é que não!!

Mas esta similaridade nas motos já não é de agora! Nos anos 90 tínhamos estas mesmas motos, só que na altura eram novas.

Agora, quando compramos motos, e as restauramos, é bem engraçado. Mano, vai aí à tua ver como é que passa este fio, ou, dás-me esta peça que eu dou-te aquela? A minha não tem isto, então toma a minha, tenho duas.

Na estrada ainda é mais engraçado. Desenvolvemos técnicas de comunicação que são únicas entre nós. Com gestos e sinais nós entendemo-nos tão bem, que se quisermos conseguimos discutir o orçamento de Estado sem usar uma única palavra. A minha mulher sempre se admirou por esta nossa capacidade de comunicação gestual.

Estamos já em 2022, e 42 anos depois continuamos a andar juntos de moto, e costumamos perguntar um ao outro: qual levas hoje? E que nem uma parelha, lá vamos nós dois ter com os nossos amigos da estrada, os nossos irmãos de manada, com quem vamos ao Cabo da Roca todos os domingos, e que também são adeptos de motas antigas.

No nosso grupo de irmãos da estrada, só não usamos gravatas, porque não sabemos fazer nós, nem coletes pretos com emblemas, porque somos discretos, mas o nosso uniforme é o mesmo. Motos velhas, ossos gastos e fígados na sucata!

Somos o sangue de irmãos e irmãos de sangue.

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