O abominável Yéti da Gilera, e o dilema dos bolos.

  • Texto: Alex Kossack

A grande vantagem que tenho quando ando de moto é que não ouço ninguém. Aquele sossego, abafado pelo forro do capacete, deixa-me num estado de surdez tão agradável que poucas outras coisas conseguem igualar.

Só sinto algo semelhante quando estou debaixo de água, mas aí respirar custa-me um bocado. A mim e a todos.

Respiro melhor dentro do capacete. Algum de vocês consegue respirar água? Não por muito tempo, garantidamente. E de heras e neblina, gostam?

Não sei se alguma vez fiz um disparate assim tão nefasto na estrada, que me tenham gritado ou injuriado de forma caluniosa, se o fizeram, não ouvi. Porque o silêncio que se tem dentro capacete é fantástico. Isto é importante frisar, além das heras, fetos e da neblina.

Acho que ando de moto mais ou menos desde 1972 ou 1973 e com os meus amigos de infância, na altura de 50cc, começámos mais ou menos em 1980 ou 81. Igualmente importante frisar, além das heras, da neblina e do silêncio dentro do capacete, os amigos de infância.

Juntos, um grupo inseparável de cinco ou seis grandes amigos, corríamos a marginal para a frente e para trás do Guincho a Belém. Íamos ao Cabo da Roca saíamos à noite e fazíamos o planador na Peninha. O planador. Também importante frisar.

O planador consistia em subir a serra de Sintra, pela Malveiria, depois logo a seguir à estrada que vai para o Cabo, virar à direita e subir à Peninha. Estrada estreita, cheia de buracos, sinuosa, escorregadia e perigosa, mas encantadora. Quando se passa por baixo das cúpulas das arvores, tem um sentido e um cheiro místico.

Lá no alto, quando a estrada começa a descer, parávamos, desligávamos as motos e descíamos sem motor para ver quem ia mais longe e quem conseguia fazer a descida toda sem pôr os pés no chão. Ganhava quem chegava ao cruzamento da Estrada para a Lagoa Azul sem ter de empurrar com os pés. 4 ou 5 quilómetros de pura destreza motociclística. Sem luzes e sem poder reduzir.

Houve uma Quarta-feira que faltámos todos à escola e fomos fazer o planador. Cada vez que me lembro desta história dou comigo a sorrir.

Os meus amigos de infância – alguns já não vejo há anos:

– o Carlos S. (que nunca mais vi), que tinha uma Gilera,

– o outro Carlos R. que tinha uma XF17 (este vejo de vez em quando),

– o Rui P. com uma DT (este vejo porque é o que me faz os modelos das minhas motas),

– o saudoso Manel T. com uma Suzuki GT50, (que morreu nas corridas em Vila Real em 1988 ou 89, nas 125, esse já não vejo),

– o Paulo, este não me lembro que moto tinha porque tinha uma nova todas as semanas (que também morreu na estrada em Carcavelos e também já não vejo)

– e o meu irmão Claudio que tinha um CD50, mas não me lembro se ia connosco neste dia. Esse nunca faltava às aulas. Hoje é um gajo importante por causa disso.

Nessa maravilhosa Quarta-feira, decidimos fazer o planador, apesar de na serra estar nublado e húmido. Era março se não estou em erro.

Chegamos ao cruzamento que vai da estrada do Cabo da Roca para a Peninha, começamos a subir e quanto mais subíamos, mais húmido ficava e mais nevoeiro havia. Que se lixe, éramos invencíveis, metade de nós eram o Super Man, a outra metade o Batman. Invencíveis portanto. Não havia homem aranha, que nós não éramos esquisitos.

Chegádos ao topo, paramos todos lado a lado, desligamos as nossas 50 e empurramos com toda a força os 4 passos “das regras”, para vencer a inércia inicial, e começamos a descer com uma distância de 2 ou 3 metros uns dos outros, porque o nevoeiro mais não permitia.

Mas, à medida que descíamos, com a estrada molhada, sem motor, com nevoeiro e apesar dos nossos magníficos Pirelli Mandrake, (o pneu da moda na altura), os andamentos eram diferentes.

Além disso se estivéssemos muito juntos, um poderia travar para lixar o de trás e obrigar a meter o pé no chão e perder. Cedo nos distanciamos uns dos outros. O silêncio dentro dos capacetes aliado ao facto de as motos não irem a trabalhar, foi um problema que mais tarde descobrimos.

Ao chegar ao cruzamento, no final da descida de 4 ou 5 quilómetros, faltava um de nós. O Carlos S. e a sua Gilera vermelha não apareciam. Esperámos uns 5 minutos, nada. O gajo deve ser o mais rápido de todos, nunca mais ninguém o viu. A ultima vez que o viram, foi lá em cima.

Ainda debatemos se devíamos ir para casa comer bolos ou ir à procura dele.

É que ele, por vezes, fazia coisas estranhas, como aquela vez que vinha a descer a minha rua para casa dele, com a moto desligada, começou aos saltos e sem querer, com o pé, meteu primeira. Teve a moto avariada uns 3 meses, se bem me lembro. Acho que além da caixa, até o braço oscilante empenou. Não me lembro. Creio que quem a reparou foi o meu amigo Joao Viegas. Não me lembro.

Ah sim, o famoso invisível. Depois de esperar os 5 minutos, debatemos entre nós e o consenso foi subirmos e procurarmos o Carlos S., afinal éramos borbulhentos na cara, mas não éramos inumanos nem selvagens, talvez um pouco, mas quase nada, nem se notava, já as borbulhas do acne….

Subimos de novo a Peninha e chegámos ao alto, ao ponto de partida e nada dele, o sacana desapareceu mesmo.

Novo debate, (debatíamos muito na altura, quase sempre sobre miúdas, mas desta vez foi sobre ele), que se lixe, vamos para casa comer bolos, debate terminado. Ele se calhar conhece um atalho. Não há nenhum, mas nós sabíamos lá.

E assim pelo mesmo caminho começámos a descer de novo, desta vez com os motores a trabalhar, já a pensar nos bolos, que se lixe o Carlos. As luzes desta vez ajudavam com o nevoeiro, conforme constatámos na subida.

A meio caminho, o meu sangue gelou! O horror!!! Apanhei um cagaço atroz!!!

No meio do nevoeiro, sai-me um vulto aterrador mesmo no meio da estrada, uma silhueta meio homem meio macaco dobrado com uma cabeça descomunal a gesticular e aos berros. Parecia um Yéti saído da montanha, pronto a comer um gajo viciado em sandes de couratos! (não se pode dizer anafado, porque não é politicamente correcto, modas, enfim).

Afinal era o Carlos S. ainda de capacete. E foi assim que reencontramos o nosso amigo, cujo vulto no nevoeiro metia medo. Estava de pé a gesticular, meio torto, todo molhado e sujo de verde com folhas e galhos um pouco por todo lado na roupa.

Um a um parámos. Afinal era um Yéti simpático. Com borbulhas, mas estava do nosso lado. Não ia comer nenhum de nós.

Acontece que o nosso amigo, apesar do fantástico Pirelli Mandrake, derrapou de frente na estrada molhada e caiu pela ribanceira abaixo, a qual coberta por folhas de hera, musgo e galhos molhados, proporcionou um escorrega interminável.

Sabe-se lá quantos metros ele foi de escorrega ribanceira abaixo, mas ainda foi um bom bocado. Aquilo foi tão de repente que ninguém o viu. O nevoeiro não ajudava.

Note-se que na altura não havia em Portugal aqua parks, nem escorregas de água, portanto o nosso amigo talvez tenha sido o  precursor desse ramo de actividades lúdicas no nosso País! Sempre na vanguarda da inovação, nós com 16 anitos, buço e borbulhas nas bochechas.

Pelo relato do nosso Yéti, o desgraçado, quando se levantou estava desnorteado, dorido, não conseguia perceber para que lado era o Norte e não tinha a mais pequena ideia para que lado estava a estrada de onde saiu a rebolar. Demorou a subir a encosta. Mas o pior foi que perdeu a motp no meio da vegetação e do nevoeiro. Essa, de motor apagado e sem luzes, nem piava! Estava em perfeito modo stealth motociclístico.

O problema é que quando ele caiu e se separou da mota, não se apercebeu que a danada ia em modo comando rastejante e foi por outra ribanceira mais ao lado. Este facto ainda hoje me intriga e nunca percebemos muito bem como aquilo aconteceu.

O truque dela foi fantástico. Assim que começou a rastejar, meteu-se por baixo das heras da Serra de Sintra e da vegetação baixa e não estava à vista, nem se via onde tinha penetrado no matagal. A porra da Gilera vermelha tinha desaparecido mesmo. Fez melhor trabalho a desaparecer que o nosso amigo.

Ao fim de mais de meia hora, talvez mesmo 40 minutos lá encontrámos a moto.

Nada estragado, só estava com mais camuflado que o Rambo em dia de matar 5389 gajos maus em 3 minutos, enrolada em fetos e heras.

Ao chegar a casa, reparei que tinha perdido a minha navalha de estimação. Bolas, tinha-me sido oferecida pelo Mané, (esse encontrei há pouco tempo, continua divinalmente louco). Era uma daquelas navalhas de mola, que nos anos 80 todos os rapazes tinham de ter como material escolar obrigatório.

No dia seguinte, depois das aulas, voltei à Peninha e em menos de 2 minutos, encontrei a minha navalha perto de onde fizemos todos força para levantar a moto-Rambo do Carlos.

Hoje, 40 anos depois, ensinei o meu filho mais velho, o Fred e os amigos dele a fazerem o planador, e volta e meia ele pede-me para irmos subir a Peninha para descer em planador. Em Março, quando fizer 16 anos, começo a ensinar o mais novo, que já vai começar com uma 125. E também vai aprender o planador.

Cada vez que ali passo, embora tenha esquecido qual a ravina aqua park onde isto se passou, quando passo pela área onde acho que vi um Yéti, vem-me sempre uma boa memória, avivada pelo cheiro da serra, que me faz sorrir no silencio do capacete, e recordar os meus melhores amigos de infância que já cá não estão.

Ali, ao passar, dá-me sempre uma nostalgia silenciosa e penso sempre para comigo, Deus queira que os meus filhos tenham a felicidade que eu tive e possam um dia ter uma vida como a que eu tive, porque estes tempos de agora são um inferno triste.

Fico sempre com uma esperança gigantesca que isso aconteça e que eles sejam Homens que vivem a vida em pleno, e façam as maiores loucuras, porque o puto que mete os dedos numa tomada elétrica, como eu meti, e o puto que faz as maiores barbaridades, é o que no fim da vida se senta com os netos e tem histórias para contar. Histórias para contar. Tenho milhares delas.

Nunca mais esquecerei o Yeti e a sua Gilera Vermelha.

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