Misano Adriático, a história de um circuito

A história do circuito de Misano Adriático é fundamental para compreender a importância do motociclismo na região onde se encontra implantado, mas é igualmente verdade que as sementes deste templo de corridas foram semeadas muito antes, entre as paredes baixas e os fardos de palha das cidades costeiras que o rodeiam.

  • Texto: Alex Ricci
  • Fotos: Luca Gorini, WorldSBK, Lisa Daniel Photography, arquivo MotoX.pt
Kevin Schwantz com o colega de equipa, Didier de Radigués, à boleia, em 1991.

Foi com corridas de Fórmula 2, Fórmula Ford e “Challenge” Ford México que, em finais de Julho de 1973, se inaugurou o circuito de Santamonica de Misano Adriatico. Às onze da manhã do último Domingo desse mês, o bispo de Rimini celebrou a “Missa dos Pilotos”.

A chamada “pista marítima”, agora rebatizada de Marco Simoncelli, foi criada com a intenção de dar à Romanha, região com tradição de mutor (a expressão no dialeto local para motor) e de motociclistas, uma instalação permanente para a realização de corridas, que até então tinham como palco os diversos traçados citadinos preparados para a ocasião. Eram corridas importantes nas quais participaram os melhores pilotos do mundo com motos construídas pelos mais exímios preparadores da altura. Nomes como os de [Phil] Read, [Giacomo] Agostini, [Renzo] Pasolini, [Carlo] Ubbiali, [Libero] Liberati, [Remo] Venturi, [Tarquinio] Provini, [Angelio] Bergamonti, [Silvio] Grassetti, [Mike] Hailwood, [Bill] Ivy, [Jim] Redman, [John] Surtees, e muitos outros foram atraídos pelo chorudos prémios monetários oferecidos pelos moto clubes locais que organizavam os eventos.

Mike Hailwood, um dos nomes mais famosos atraídos pelos prémios da “mototemporada”

Com um nível elevadíssimo, aquilo a que atualmente poderíamos chamar uma “série”, constituiu o prólogo do Campeonato Mundial, de vários campeonatos nacionais e representava a introdução tanto à época desportiva oficial como à época balnear. Cesenatico, Rimini, Riccione e Milano Marittima faziam parte do calendário estival de competição com os seus traçados urbanos, dando origem, juntamente com a iniciativa empresarial da Romagna, ao fenómeno da “Mototemporada”.

Berço das marcas transalpinas

Antes da Segunda Guerra Mundial, possuir uma mota era um privilégio de poucos mas muito abonados, mas isto não influiu negativamente na crescente paixão dos romanholos pelas duas rodas, que já na década de 1920 afluíam de forma consideravel a uma série de eventos patrocinados pela propaganda nacional do regime ditatorial da época. No período pós-guerra, contudo, foi fisiológico utilizar todos os meios disponíveis com o objetivo comum e pessoal dos cidadãos para reconstruir o país. Das primeiras Indian e Harley Davidsons, que foram convertidas para uso civil após o conflito, vieram também Zundapp, Norton, BSA, Matchless e Velocette para se juntarem às nacionais Bianchi, Gilera e Moto Guzzi. Todas as altas cilindradas que abriram caminho ao motociclismo em massa com a entrada no mercado de muitos fabricantes onde se incluíam a Benelli, Ducati e Moto Morini, inicialmente, e depois Minarelli, Italjet, Garelli, Malanca, Malaguti, Itom, Testi, Demm, Morbidelli, e tantas outras.

Marco Simoncelli, que dá nome ao autódromo, com Valentino Rossi, porventura os dois nomes mais idolatrados que passaram pelo asfalto de Misano.

Ferrari e Cavazzutti, o espírito romanholo

Mas foi o mesmo génio empresarial da Romanha que optou por uma solução permanente que satisfizesse as necessidades do motociclismo moderno em termos de segurança e tecnologia. Assim, a construção das instalações teve início, graças também à contribuição técnica do comendador Enzo Ferrari e, sobretudo, de um dos seus homens, o engenheiro Cavazzutti, que supervisionou a obra. As fascinantes e heróicas corridas de estrada dariam lugar à mudança e esta foi a melhor resposta que a terra das motos e os seus apaixonados puderam dar, satisfazendo de sobremaneira empresas como a Ducati e a Benelli, de Pesaro, que sempre gozaram de grande prestígio entre os motociclistas da região. Para confirmar o espírito deste empreendimento, ainda se mantêm os nomes de algumas das curvas como “Carro”, “Quercia” ou “Tramonto” que preservam o antigo sabor das cinzas sobre as quais esta pista nasceu e que parece querer abraçar o território dizendo ao mundo que aqui se está na Romanha.

Nem a pandemia de Covid-19 conseguiu abafar a imensa paixão dos ‘tiffosi’ pelo motociclismo e desporto motorizado em geral.

Alterações e  evolução

Desde 1973, o Campeonato Mundial de Motociclismo e todos os campeonatos dele derivados não só beneficiaram de uma nova localização, como hoje se trata de um evento imperdível no calendário que ainda hoje atrai o entusiasmo e a aprovação do público em geral. Para além do nome do falecido Simoncelli, o circuito também sofreu alterações estruturais ao longo dos anos, que, segundo os organismos competentes, levaram a melhorias que garantiram a sua presença nos mais importantes programas desportivos motorizados. A primeira intervenção substancial data de 1993, quando o comprimento da pista foi aumentado de 3.488 para 4.060 metros e as antigas boxes ao ar livre foram substituídas por instalações mais modernas. As novas boxes foram concluídas numa segunda fase, entre 1996 e 1997, enquanto em 1998 a área do “paddock” foi aumentada para 40.000 m2.

Max Biaggi com uma das decorações mais espetaculares de sempre em pleno “Curvone”, uma das curvas mais rápidas do MotoGP e Mundial de Superbike.

Em 2001 as bancadas da curva “Carro” foram aumentadas e em 2005 foi concluída a nova entrada “Daijiro Kato”. O regresso do MotoGP a Misano, após uma pausa de alguns anos, gerou outras mudanças, tais como o alargamento da pista e uma nova extensão para 4.180 metros na área onde a pista já havia sido modificada em 1993. Porventura, a mais radical de todas foi a inversão do sentido de corrida (horário, ou seja, no sentido dos ponteiros do relógio), por razões de segurança. No entanto, em 2007, o circuito foi o primeiro a alcançar uma cobertura total sem fios na sua área, confirmando o espírito de inovação que consagrou a sua existência desde o seu início.

A história do circuito de Misano Adriático é, portanto, fundamental para compreender a importância do motociclismo na zona onde se encontra implantado, mas é igualmente verdade que as sementes deste templo de corridas foram semeadas muito antes, entre as paredes baixas e os fardos de palha das cidades costeiras que o rodeiam.

A travagem para a esquerda de “Quercia” (porque antes existia aí um carvalho), é um dos pontos mais emblemáticos do traçado romanholo.

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