Jorge Viegas: do novo Mundial de Supercrosse à segurança dos pilotos

A segunda parte da conversa de Jorge Viegas leva-nos pelo novo Mundial de Supercrosse, que arranca já este ano, às importantes questões da segurança dos pilotos, sobretudo após as fatalidades registadas em 2021.

  • Texto: Fernando Pedrinho
  • Fotos: Yamaha Racing, KTM  Racing, WorldSBK, Aspar MotoGP, Fernando Pedrinho

O Mundial de Supercrosse é, desde há muito, um campeonato realizado nos Estados Unidos da América, para onde têm vindo a migrar pilotos de todo o mundo. Como mais recentemente, os irmãos Jett e Hunter Lawrence, vindos da Austrália, ou os europeus Ken Roczen, Marvin Musquin e Dylan Ferrandis. Uma moda iniciada pelo francês Jean-Michel Bayle, em 1991, que se tornou o primeiro piloto a ganhar os três principais campeonatos [Supercrosse, MX250 e MX500] no mesmo ano.

Deixando de estar confinado ao país do ‘Tio Sam’, o Mundial da modalidade promete ganhar uma dimensão verdadeiramente global.

Iremos ver Eli Tomac, vencedor do AMA 450SX deste ano, no Mundial de Supercrosse?

Mundial de Supercrosse de volta à FIM

O Mundial de Supercrosse não tem sido pera fácil para Jorge Viegas, que contudo conseguiu, também aqui, tirar outro coelho da cartola. “Tínhamos, desde há 20 anos, um contrato com a Feld Motor Sports para o Campeonato do Mundo de Supercrosse, que era todo corrido nos EUA, pois para eles o mundo acaba na Califórnia. Esse contrato terminou no ano passado e, perante a vontade do promotor em estender o mesmo, chegámos inclusive a acordar as questões financeiras. Mas a família [Feld, já com três gerações após a fundação da empresa por Irvin Feld e agora liderada pelo filho, Kenneth, e pelas netas, Juliette, Alana e Nicole] quis refletir sobre o assunto e reverteu a decisão, dizendo que haviam perdido muito dinheiro com os dois anos de confinamento e porque nós impúnhamos regras muito estritas de controlo antidoping, coisa de que não gostam nada, mas sobretudo porque queriam ser livres à boa maneira da NBA [a liga profissional norte-americana de basquetebol] ou da NFL [a liga profissional de futebol americano]. Amigos como dantes, lancei um concurso internacional, falei com a Infront e a Discovery. A Infront estava disposta a ‘pegar’ no Mundial de Supercrosse mas a fazer algo de diferente combinando com o Mundial de Motocrosse, até que me chegou uma proposta de um grupo novo australiano, a SX Global, de um antigo conhecido, o Tony Cochrane [organizador da V8 Supercars]. Fechámos contrato e já nos pagaram o primeiro ano, pelo que, já em 2022, vamos ter o Mundial de Supercrosse. Mas também lhes disse que era precipitado ir já este ano aos EUA”.

Marvin Musquin será um dos favoritos da ‘brigada’ europeia?

Com o campeonato norte-americano AMA SX a tornar-se num mero campeonato nacional, surgiu um novo problema. É este diferendo que a FIM e o novo promotor estão a tratar com alguma delicadeza, optando por não organizar qualquer prova no país onde a modalidade tem maior expressão a nível global. “Mas para o ano já vai e até já há datas”, revelou Jorge Viegas. “E nota que a AMA [a federação norte-americana de motociclismo] está a par de tudo mas não é a promotora do campeonato nacional, isso continua a ser responsabilidade da Feld Motor Sports”. A SX Global já tem a fórmula do sucesso bem definida: “estão a pôr muito dinheiro em cima da mesa [prémios de participação e classificação] pelo que vai haver muitos pilotos norte-americanos que vão participar, de certeza. Em cada prova vão distribuir 250.000 dólares [norte-americanos] em prémios. Sei que já acordaram algo com a KTM e que também já foram ao Japão falar com os quatro construtores”.

A homenagem a Dean Berta Viñales

As fatalidades de 2021

O ano passado ficou marcado pelas fatalidades de três jovens – Hugo Milán, Jason Dupasquier e Dean Berta Viñales – em plena competição, algo que jamais se pode voltar a repetir. Foi bom constatar que todas as entidades se envolveram de imediato numa aturada reflexão que produziu uma série de decisões e – batendo na madeira – desde o acidente no Mundial de Supersport 300 do ano passado, em Jerez de la Frontera, a ‘ceifeira da morte’ deixou em paz os campeonatos. “Eu estive no funeral do Jason [Dupasquier] e tive uma longa conversa com o pai [Philippe Dupasquier] que foi campeão de sidecarcrosse e com a mãe [Andréa Dupasquier], que é portuguesa, de Salvaterra de Magos. Estive com toda a família e percebo que eles são capazes de entender melhor esta tragédia do que quem está de fora [à imagem da decisão da família de Dean Berta Viñales, primo de Maverick e Isaac Viñales, que pediu a todos os pilotos das categorias que integram o Mundial de Superbike, que corressem no Domingo]. [As fatalidades] foram um choque enorme, para a FIM e para a Dorna, como é evidente. Constituímos logo um grupo de trabalho, com as pessoas da comissão de velocidade da FIM e as relacionadas com o capítulo da segurança na Dorna e tentámos ver que medidas poderíamos tomar de imediato. Toda a gente sabe e interioriza que este tipo de acidentes [atropelamento de pilotos em pista] pode acontecer sempre, basta haver dois pilotos a correr”.

As molhadas da Moto3.

‘Wishful thinking’ e o raspanete de António Lima

“O que tentámos foi minimizar as possibilidades para que possa ocorrer. Assim, diminuímos o numero de pilotos na grelha, e há toda uma série de aparatos técnicos que foram acrescentados nas motos, como os sinais amarelos automáticos que aparecem quando há um piloto caído. Depois pensámos porque razão ocorrem esses acidentes: porque os pilotos arriscam muito. São muito jovens, têm o chamado ‘sangue na guelra’ e querem chegar lá acima rapidamente. Por isso, se aumentarmos um pouco a idade mínima de participação, talvez eles cheguem com um pouco mais de maturidade. Mas é ‘wishful thinking’ [pensamento positivo]. Nós não temos a certeza do que vai acontecer”.

Outra área de mitigação onde Jorge Viegas e a FIM tiveram particular intervenção foi no comportamento dos comissários de prova, porque “às vezes são condescendentes com os pilotos”. Aqui veio à memória o raspanete que António Lima deu aos pilotos de Supersport 300 em Portimão, uma semana depois do desaparecimento de Dean Berta, ao mandar parar a sessão de treinos depois de assistir a um comportamento em pista por parte dos jovens pilotos que era tudo menos aceitável.

Andrés Somolinos e António Lima.

“Não é à toa que o António Lima é ‘Steward’ das Superbike e irá alternando provas com o Simone Folgori, que é um homem também com muita experiência. O Andrés Somolinos [que vem da RFME, a Real Federação Espanhola de Motociclismo] entra a tempo inteiro como Comissário de Segurança no MotoGP. A verdade é que a atuação destes comissários tem um efeito profilático e pedagógico muito importante. E já se vê, sobretudo na Moto3, que os pilotos pensam duas vezes antes de fazer asneira. Quando são penalizados, e bem penalizados, percebem que afinal não vale tudo”. E a penalização de equipas, também foi equacionada? “Quando se penaliza um piloto, automaticamente está-se a penalizar a sua equipa. Nenhuma equipa dá ordens aos pilotos para baterem no que vai ao lado para passarem à frente. Numa corrida o piloto está sozinho. É ele que toma as decisões das manobras que faz e os pilotos têm de ter a consciência de que não vale tudo. Diria mesmo que esse endurecimento da tomada de decisão dos nossos árbitros foi uma das medidas mais importantes que tomámos. E penso que está a funcionar.”

Danilo Petrucci na estreia no Dakar.

O paralelo do Dakar

Em termos de medidas de segurança, os olhos de Jorge Viegas brilharam quando se lembrou das medidas tomadas para os Ralis. “Faço um paralelo com uma decisão da FIM que também saiu muito de mim. No Dakar morria sempre gente e fizemos uma reunião, por acaso na sede da FMP, em Lisboa, com toda a gente, dos promotores, às equipas e pilotos, onde tomámos uma série de medidas. Coincidência ou não, este ano não houve nenhum acidente grave. Repito: nenhum acidente grave. Até quem mais se queixou foi o [Danilo] Petrucci que me dizia que em dez anos de corridas em MotoGP se havia magoado uma vez, mas que no seu primeiro Dakar em três dias deu dois trambolhões sérios. Ele andava no deserto deitado na moto [à Fabrizio Meoni].

A primeira parte desta entrevista pode ser lida em: https://motox.pt/jorge-viegas-e-o-estado-da-nacao-fim/

(Continua)

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