Joaquim Rodrigues Jr. Águeda rendeu homenagem merecida

Joaquim Rodrigues Jr. anunciou muito recentemente o encerramento da longa e profícua carreira como piloto. Começou no mini motocrosse e, antes de chegar às areias do ‘Dakar’, conheceu muitas pistas. Um pouco por todo o Mundo. Em Águeda, na catedral do motocrosse nacional, recebeu merecida homenagem do universo crossista. E, claro, do público que aguentou estoicamente um fim de semana diluviano. Sentimento que se estendeu a convidados de luxo como António Oliveira ou Rui Gonçalves. Que recordaram momentos inesquecíveis vividos na terra vermelha da pista aguedense.

Joaquim Rodrigues Jr. no Mundial de Motocrosse em Águeda 2024
  • Por: Paulo Ribeiro
  • Fotos: MoveSoundClick

Em Portugal conheceu todas as pistas e acumulou títulos até ao virar do século. Altura em que carimbou o passaporte rumo ao Mundial de Motocrosse. Na Honda, ao lado do então bicampeão do Mundo, Frederic Bolley, tornou-se o primeiro português com estatuto ‘oficial’ numa equipa de fábrica. Na Honda ganhou asas e atravessou o Atlântico rumo ao mais desejado dos sonhos. O campeonato AMA de Supercrosse.

Joaquim Rodrigues Jr. com Manuel Marinheiro no Mundial de Motocrosse em Águeda 2024

O sonho americano teve altos e baixos. Joaquim Rodrigues Jr. subiu ao pódio (3.º no SX de Pontiac) e desceu ao inferno. Do sofrimento, da dor provocada pelas lesões nunca teve medo. O único receio era que o tempo passado no hospital e em recuperações não permitisse cumprir o sonho maior.

Com a mala carregada de estórias, mas leve de troféus regressou à Europa, passeando classe pelas pistas europeias de SX ou de MX3. A Portugal voltou para divertir-se, no supercrosse e no enduro, ganhando mais corridas e títulos. Seguiram-se os ralis com uma aposta ousada na então desconhecida Hero, oferecendo à marca indiana a primeira vitória em etapas do Dakar.

Deixar as corridas sem arrumar as botas

Mas a vida, que tantas vezes foi madrasta, voltou a mostrar-lhe o lado mais duro das corridas. A 12 de janeiro de 2020 sofreu o mais rude golpe da carreira, as despedir-se do cunhado-mais-do-que-um-irmão Paulo Gonçalves. Nas lágrimas vertidas nas areias da Arábia Saudita encontrou forças para honrar a memória do maior rival nas pistas e do maior amigo à mesa.

Em 2024, Joaquim Rodrigues Jr. decidiu que era tempo de lutar contra o relógio. As legítimas ambições à partida para mais Dakar esfumaram-se no pó de uma queda logo na etapa inicial. Na linha de partida para cada etapa já não encontrava o prazer de outrora. O formigueiro na mão direita a pedir rotação máxima. O nó no estomago nos últimos segundos da contagem antes de mais um dia onde explanava tudo o que aprendera ao longo de mais de três décadas de corridas. Mas tanto tempo, tanto sangue, suor e lágrimas, não podiam ser atirados para um canto. Deixou a competição, mas não arrumou as botas. O bichinho das corridas não sai assim, com duas tretas. Decidiu retribuir à equipa que tanto o apoiou com toda a sua experiência. No desenvolvimento das motos como na gestão das corridas. Ficou a ganhar a Hero e os seus pilotos!

Adeus emocionante

Com a Hero RR 450 Rally deu uma última volta no Crossódromo Internacional de Águeda, perante um público entusiasta e conhecedor. Que, grato pelo espetáculo e pelas alegrias, não poupou nos aplausos. E até a chuva, tímida perante tamanho talento, fez uma pausa para que todos pudessem fechar os guarda-chuvas e ver melhor o piloto.

Joaquim Rodrigues Jr. com Manuel Marinheiro no Mundial de Motocrosse em Águeda 2024

Joaquim Rodrigues Jr. no Mundial de Motocrosse em Águeda 2024

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Joaquim Rodrigues Jr. no Mundial de Motocrosse em Águeda 2024

Que, mesmo antes de partir para nova sessão de testes da equipa, na Namíbia, recordou o momento mais marcante vivido em Águeda. “A melhor corrida nesta pista foi, curiosamente, a última feita em 2000. Já tinha conquistado o título de 125 cc, após vencer todas as mangas, pelo que alinhei na última corrida do ano, em 250 cc. E mesmo perante os irmãos Bernardez, Abel, Aaron e Moises, autênticas estrelas do Campeonato do Mundo e com muitos meios – incluindo o famoso autocarro – ganhei a prova”.

No entanto, e dada a ausência do Mundial em Águeda nos anos de 2001 e 2002, Joaquim Rodrigues Jr. nunca teve oportunidade de correr em Portugal com uma moto ‘oficial’. Ciente da importância de “uma corrida deste nível em Portugal, que faz sempre falta para o reconhecimento deste desporto” alerta para outro ‘detalhe’. “Não é participando nesta corrida que os pilotos portugueses ganham ritmo! Para isso, há que fazer o mesmo que eu e outros fizeram antes. Meter as motos na carrinha e ir correr lá para fora”.

António Oliveira: Recordações excelentes e um voo… para o hospital

Mas na 25.ª presença do Mundial de Motocrosse em Águeda, outros pilotos com história na pista bairradina estiveram presentes. Incluindo António Oliveira que, recordava, “ter sido o primeiro português a conseguir a qualificação diretamente, por mérito próprio, em 1988”. Recuando no tempo, o “Esgravulha”, regista “a enorme diferença na pista desde 1985, na primeira experiência no Mundial em Águeda, com o Fernando Neves, Miguel Farrajota ou Carlos Crespo entre outros. O traçado evolui imenso e, quando chove, então a diferença é gigantesca. A drenagem é muito melhor como se pode ver no que que aconteceu este ano. Se fosse aqui há uns anos a corrida tinha sido cancelada”. E com uma oportuna pitada de humor, durante a conversa ao almoço, lembrou que “também neste paddock, com todos estes camiões é visível um mundo de evoluções. Já nem se sente o cheiro ao grelhador…”

António Oliveira no Mundial de Motocrosse Águeda 2024

De Águeda guarda “excelentes memórias duma pista onde celebrei a conquista de vários títulos”. Mas não esconde o sabor agridoce de algumas experiências… aeronáuticas! “Em 1988, depois de garantir qualificação direta, estava tão entusiasmado que arranquei que nem uma bala… direitinho para o hospital. Estava para nos 10 primeiros e com o pó nem vi o buraco e foi uma daquelas quedas monumentais que deixou marcas”. Já no ano seguinte, por exemplo, estreou a bem preparada Suzuki RM do Team Horizmoto e na primeira manga, com excesso de confiança, deixou “Vítor Calado ganhar algum terreno e quando tentei recuperar já era tarde demais. Tive que engolir em seco mas vinguei-me na segunda manga e acabei por ganhar à geral”.

Rui Gonçalves: “Não imagino Mundial sem Águeda”

Entre os vários nomes com fortes memórias do Crossódromo Internacional de Águeda está, naturalmente, Rui Gonçalves. Que, face ao risco de ver o GP de Portugal fora do Mundial de MXGP, reage com incredulidade. “É difícil imaginar esse cenário uma vez que, desde que me lembro de correr, o Mundial esteve sempre presente em Portugal e em Águeda. Tenho grandes memórias neste circuito com a minha vitória em 2009. O público foi sempre muito presente e fantástico, apoiando imenso durante toda a minha carreira”.

Rui Gonçalves no Mundial de Motocrosse Águeda 2024

Por isso mesmo acredita num futuro risonho, onde “ficaríamos todos muito contentes de poder continuar a vir aqui e poder desfrutar deste GP de casa, agora como espectador”. Tanto mais que a evolução da pista vem reforçando o entusiasmo dos pilotos face a esta pista. “A opinião foi sempre bastante positiva e as alterações feitas foram sempre bem pensadas e muito ponderadas para que fossem positivas. Nunca foram mudanças simplesmente por mudar. Daí também o público gostar bastante de algumas mudanças que têm sido feitas nos últimos anos, para não ser tão monótono e as coisas se tornarem mais interessantes”. Além disso, “de uma maneira geral, toda a gente gosta muito de vir a Portugal pela nossa cultura, pela pista, pelo ambiente”.

Uma pista com nível de Mundial

Um piloto que ao longo de 12 anos no Campeonato do Mundo conheceu dezenas de traçados. Por isso está perfeitamente habilitado para comparar a pista de Águeda que, garante, “está perfeitamente enquadrada no nível do Mundial. E, por isso mesmo, todas as condições estão reunidas para a sua continuidade no calendário. Mas, já se sabe, estas coisas não dependem única e exclusivamente da opinião dos pilotos, porque, se fosse por aí, estava mais que garantida”. Por outro lado, quanto ao trabalho do ACTIB, “nada a apontar, com um nível muito bom e perfeitamente capaz de receber o Campeonato do Mundo com muita qualidade. Esperemos que assim continue”.

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