Hard Enduro: Paulo ‘Melícias’ explica porque ficou a Extreme XL Lagares fora do Mundial

  • Texto: Paulo Ribeiro
  • Fotos: Paulo Ribeiro e Extreme XL Lagares

Israel, Sérvia ou Canadá são novidades na agenda para 2022 dos mais bravos enduristas do planeta. Novidades num calendário que não integra Portugal e uma das mais emblemáticas corridas, unanimemente elogiada por pilotos nacionais e estrangeiros. Foi surpresa para muitos, é certo, mas ao contrário do que pudesse supor numa primeira análise superficial nada teve a ver com os problemas vividos em 2021, por força da pandemia e de uma desorientada DGS que deu o dito por não dito e confinou a prova aos muros do Quartel da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia.

Paulo ‘Melícias’ Moreira explicou a MotoX.pt as razões desta ausência e garante desde logo que “nada teve a ver com o que se passou na prova de maio”. E, para que não restem dúvidas ou mal-entendidos, esclarece que “a XL Lagares não aparece no calendário por decisão do Extreme Clube de Lagares, por não concordar com as regras contratuais impostas pelo promotor do campeonato”.

No cerne da questão estão as verbas exigidas para poder levar a prova avante, desde as taxas (‘fees’) a pagar à WESS, empresa responsável pelo Campeonato do Mundo perante a Federação Internacional de Motociclismo, às licenças à própria FIM e outros “valores exorbitantes que, basicamente, seriam impossíveis de cumprir pelo que era impossível aceitar o contrato que nos foi colocado à frente. Claro que foi apresentada uma contraproposta para ultrapassar uma situação que, financeiramente, não era minimamente viável para a organização da XL Lagares”.

Foi tentada uma flexibilização do contrato, ajustando valores e comissões, mas, para o organizador nacional, “de pouco serviu esse esforço porque ao contrário do que seria de supor, salvaguardando os interesses das duas partes, o contrato que foi proposto é apenas um conjunto de obrigações. Ou seja, há obrigações sem direitos, surgiam deveres sem contrapartidas”. Que é como quem diz, a única contrapartida seria fazer parte do Campeonato do Mundo de Hard Enduro!

As contas, fáceis de fazer ao olhar para o contrato, ditavam mais de 45 mil euros de pagamentos, entre as ‘fees’ da prova, licenças FIM e despesas impostas pelo facto de ser uma prova de um Mundial, enquanto no capítulo das entradas de caixa estavam as inscrições e a publicidade. “E mesmo desta apenas uma parte já que, se fosse captada pelo organizador, teríamos de pagar 40% sobre o valor faturado”.

Pagar para trabalhar?…

Tudo somado, “era financeiramente inviável levar a prova avante, tanto mais que a XL Lagares nunca faturou uma verba dessa dimensão, quanto mais ter de pagar isso só para conseguir ter a prova no campeonato”. Paulo ‘Melícias’ sublinha ainda que “nesta prova ninguém da organização ganha dinheiro, todos trabalham voluntariamente por algo que gostam e pelo carinho nesta corrida. Não ganhar dinheiro é uma coisa, mas ainda ter que pagar um monte de dinheiro (que não temos!…) para pertencer a um campeonato? Mais vale dizer que estamos, orgulhosamente, do lado de fora…”

Mas há outras questões que não agradam aos responsáveis da Extreme XL Lagares e a Paulo ‘Melícias’ Moreira em particular. “O formato que o campeonato está a seguir não é o mais correto em termos de competitividade, de prestígio e exigência. Estão a ser retiradas as melhores corridas do Mundo, as mais duras, para colocar quem está disposto a pagar para ter uma prova internacional. E basta ver que o Mundial começa em Israel (Minus 400, de 5 a 7 de abri) com uma prova de que não existe nenhuma referência. Alguém conhece esta corrida?”

Primeira das 9 corridas de um campeonato que prossegue na Sérvia (19 a 21 de maio) com a Xross cujo único piloto de renome internacional que esteve presente foi o sul-africano Wade Young que ganhou as edições de 2018 e ’19, com uma enorme vantagem sobre os restantes pilotos, quase todos dos Balcãs. Mas há mais: “O HERO Challenge cuja 2.ª edição teve lugar há poucos dias na Polónia, foi, segundo todos os comentários dos pilotos da frente, uma junção entre enduro tradicional e um cross-country com umas passagens de motocrosse. O Mundial de Hard Enduro deve ser isto mesmo, Hard Enduro, e não uma mistura de modalidades que desvirtuam o conceito”.

Razões de coerência e… dureza

Manifestamente contra este tipo de provas num Campeonato do Mundo de Hard Enduro, “onde o que conta é o que o organizador paga ao promotor para poder integrar o campeonato” Paulo ‘Melícias’ recorda a primeira vez que alguns dos melhores pilotos do Mundial de Enduro, como o ex-crossista britânico Nathan Watson ou o espanhol vendedor dos ISDE Josep Garcia, marcaram presença numa prova de Hard Enduro “sofreram imenso e não se revelaram muito competitivos nesta especialidade. Tiveram que o fazer por imposição da marca e percebeu-se que não era razoável fazer corridas com essa configuração. Que é exatamente aquilo que estão a tentar fazer agora”.

Mas os homens do Extreme Clube de Lagares têm outros motivos de queixa quanto às atitudes da World Enduro Super Series. “Em maior de 2020, quando foi comunicada, tardiamente, a decisão da DGS de impedir a realização da XL Lagares na serra, foi proposto ao promotor o adiamento da corrida para data a anunciar ou avançar para uma prova integralemente realizada dentro do quartel, mas pontuável para o Mundial”. E, tal como MotoX.pt deu conta na reportagem efetuada no dia da prova, Winfried Kerschhaggl “assumiu que queria fazer a corrida e toda a responsabilidade pelo que sucedesse no evento. Mas, apesar de todos os esforços para encontrar soluções e criar percursos alternativos válidos, acabou por não pontuar. Ninguém da organização baixou os braços enquanto a pista não ganhou as condições mínimas para ser exequível fazer corridas de resistência de 30 minutos. Mas, mesmo assim, a WESS cancelou a atribuição de pontos”.

Winfried Kerschhagl é o responsável máxima pela WESS Promotion GmbH, empresa promotora do Mundial de Hard Enduro

A finalizar, prova de que o Hard Enduro pode estar a perder o seu ADN, o crescente protagonismo da figura de ‘track manager’, ”um individuo sem noção do que é ou não possível fazer em cima de uma moto, e que levantou vários problemas em Gaia enquanto a pista era alterada para domingo, mudando o o traçado todo porque achava que tudo era impossível de ser feito. Quando, afinal os pilotos voaram literalmente por cima dos obstáculos! Não tem experiência suficiente para decidir sobre os obstáculos a colocar e quer ser ele a decidir sempre essa parte, a ter a última palavra”.

E aqui reside mais um ponto de fricção com a organização do Mundial porque “essa figura, segundo o novo regulamento, tem poder decisório para determinar se uma parte pode ou não entrar no percurso e se achar perigosa ou intransponível, a prova pode mesmo não contar para o Mundial. E esse seria um problema grave depois do que se passou em 2021, quando foi verificar o percurso, seguindo o track de GPS fornecido pela organização, e levantou inúmeros problemas em vários locais, dizendo que seriam intransponíveis quando os mais amadores de Lagares já tinham passado mais do que uma vez por esses locais”.

A solução, refere Paulo Moreira, estará na “contratação de um piloto experiente, como, por exemplo, o Paul Bolton, que está na pré-reforma e tem noção do que é ou não possível fazer com uma moto de enduro. Agora um individuo que era snowboarder e anda de moto há meia dúzia de anos e com um nível mediano, muito inferior ao necessário a este nível não pode ser responsável pelos percursos… Além de que não tem experiência de corrida, não tem a verdadeira perceção de uma prova, mas tem o poder de influenciar o presidente do Júri”.

Extreme XL Lagares 2022 já tem data marcada

Independentemente de todas as lamentações, de todos os problemas criados por esta situação, uma coisa é certa: o Extreme XL Lagares vai continuar e já tem data marcada. Nos dias 6, 7 e 8 de maio, entre Vila Nova de Gaia, como centro nevrálgico da prova, o já tradicional prólogo na Ribeira do Porto e Lagares. “E até poderá haver novidades já que estão a ser desenvolvidas negociações para mais um dia de corrida, num ambiente completamente novo”.

Prólogo da Extreme XL Lagares volta a animar as ruas da Ribeira do Porto

Outra certeza é a de que, “a menos que a WESS proíba os pilotos de estarem presentes, teremos a visita de todos os enduristas de topo. Até porque, como prometido depois do que aconteceu em 2021, têm a inscrição oferecida. Além de que o prestígio da prova e o prize-money são extremamente atrativos podendo anda ser um excelente treino para qualquer corrida”. Incluindo a 2.ª prova do Mundial de Hard Enduro, que se realiza duas semanas depois nas montanhas sérvias de Zlatibor, Tara e Mokra Gora.

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