EN 360. De Montelo à Foz do Arelho

Novo bilhete, nova viagem. Que é como quem diz, mais uma moedinha, mais uma estrada nacional percorrida. Desta feita foi a EN 360 e, tal como todas as outras, do seu início até final. Claro que, para a percorrer na totalidade, foi necessário ter alguma liberdade de pensamento ao criar o ‘track’. É que a mesma tem vários cortes pelo meio… Ao todo foram 612 quilómetros em 6 horas e 45 mn de condução, para, pelo meio, cumprir os 95 km da famigerada EN 360.

  • Por: Jorge Casais
  • Fotos e vídeo: Jorge Casais

Cumprindo a A1 até à saída 8 (Fátima) rapidamente chego até ao quilómetro zero da EN 360, sendo a distância realmente curta tal como curta é a distância que separa o Santuário de Fátima. Tão perto que ainda deu para ouvir boa parte da missa enquanto preparava as Go-Pro para as filmagens…

Esta estrada, vá-se lá saber porquê, não tem os marcos que deveriam existir à vista, quer os que assinalam a passagem a cada 100 metros quer os que assinalam o quilómetro. Ou melhor é muito raro conseguir encontrar os mesmos. Claro que do quilómetro zero nem sombras dele.

EN 360

Abençoado pela coincidência

Foi mesmo mera coincidência ter escolhido esta data para fazer esta estrada que se inicia em Fátima, mas o dia 13 de Julho 1917 é uma data marcante para o mundo Católico. Ou não fosse quando, segundo proclama a Igreja Católica, Nossa Senhora apareceu mais uma vez aos Três Pastorinhos, só que agora com mensagens mais apocalípticas e terríveis do mundo. Pois bem, crenças à parte é em Montelo que se inicia, para mim, esta estrada EN 360. Mesmo se, de acordo com o Decreto-Lei a mesma terminaria aqui vinda de Foz do Arelho.

É engraçado como se parte dum local de lazer e se faz terminar a estrada num local de devoção. Atravessar as ruas de Fátima e ir vendo os nomes das mesmas, mas também dos hotéis, pensões, lojas, etc… é sempre muito engraçado, pois possuem sempre uma qualquer alusão ao aparecimento de Nossa Senhora e a tudo que se encontra associado a este fenómeno.

EN 360

Fui obrigado a fazer uma primeira paragem a cerce de 5 km do ponto de partida, pois um raio de um bicho qualquer conseguir entrar no meu capacete. E isto mesmo tendo a viseira fechada e sendo o HJC um capacete com boa proteção ao nível da parte superior do pescoço. Assim que parei e tirei o capacete o raio do bicharoco, que fiquei sem perceber o que era, lá esvoaçou rapidamente para longe de mim. Ainda bem, pois saí deste momento sem nenhuma ferroada…

A imponência da Serra de Aire

Mas já que aqui estava parado porque não aquela foto para a posteridade, onde se a Ninja se funde com a estrada e a ‘paisagem’. Foi o que fiz. Mas fiz mais. Desconfiado que pudesse ter mais algum bicharoco a entrar pelo casaco, pois trazia-o um pouco aberto, quase me pus em cuecas para ver se estava isento de bicharada. Estava, felizmente estava, o que me permitiu voltar a colocar a borracha no alcatrão sem ficar a pensar mais no assunto.

Passo as localidades de Valinho de Fátima e Boleiros por retas consecutivas e estrada com um piso bastante irregular. Mas onde já ia conseguindo ver, umas vezes melhor outras pior, a lindíssima Serra de Aire. Chego a Vale Alto entrando definitivamente na Serra de Aire, que só deixaria bem mais lá para a frente. É uma serra repleta de estradas incríveis com paisagens fabulosas e algumas aldeias e vilas muito interessantes para visitar.

A Vale Alto segue-se Covão do Coelho e quando chego a Minde sou forçado a trocar de estrada para a EN243. Estrada esta que vem da Batalha e termina em Campo Maior e que já percorri na totalidade em junho de 2022. Por aí vou atravessando Mira de Aire, Portela de Baixo, Zambuja de Alcaria, Livramento e chego a Porto de Mós.

Sensações diversas à procura da EN 360

A estrada é sempre ‘sentida’ pela Ninja, ‘feeling’ que nem a ST ou a T7 transmitem. Não estou a criticar. É apenas a constatação de um facto que a Ninja é mais vocacionada para ‘tapetes’ mais lisinhos e sem remendos por todos os lados ao longos da estrada. Tão pouco tampas de saneamento que em Portugal teimam em as colocar no meio da estrada sem qualquer cuidado de as pôr ao nível da mesma. Ora umas vezes estão mais altas ora outras mais baixas. Em ambos casos a cacetada é pela certa nos pneus e nas jantes.

Circulava já no extremo norte do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, passando então a Porto de Mós e o seu bonito castelo. Apenas um ‘toca e foge’ porque na entrada da Vila foi necessário trocar a EN 243 pela EN 362. Uma vez mais a EN 360 teimava em não aparecer porque, pelo que percebo, mesmo consultando mapas bem antigos, nunca chegou a existir nestes troços.

EN 360

Inicio aqui uma subida bem interessante por esta EN362, que liga a Batalha à Portela, estrada que gostei imenso de a percorrer na totalidade, tendo desta feita ido apenas até Serro Ventoso. Onde flecti para a direita, seguindo pela estrada até Alqueidão de Arrimal e Arrimal. Serro Ventoso é uma localidade bem conhecida pela Festa do Galo que aí se realiza todos os anos, a 12 e 13 de Novembro. Desde o Galo no Forno, Cabidela de Galo e Galo Bêbado existe de tudo que possa ser comido… mas com o galo sempre presente. Pobres animais que por aqui são criados. O seu destino é sempre o mesmo. No prato de muitos e na barriga de outros tantos.

EN 360

O Galo que ficou na sua capital

Deixando para trás a Capital do Galo, com marca registada e tudo, sigo para Bezerra, através de uma estrada bem bonita e é percorrida em modo de subida. E sem ter de me queixar do estado do piso que se numa primeira fase até é bastante razoável piora depois de passar o morro. A partir está muito mal remendada, mas continuando a ter uma paisagem bem simpática a acompanhar-nos.

Sei que me vou repetir, mas, é nestas situações que entendo como o conceito trail, seja de média ou grande capacidade, se tornou tão popular por esse mundo fora. São confortáveis, ‘comem’ tudo ou quase tudo que lhes aparece à frente e nunca deixam o seu condutor e pendura muito cansados de levar pancada.

Claro que esta tipologia de motas tem mais atributos, mas certamente este é um daqueles que tem levado, a que muitos motociclistas troquem as ‘sport-tourer’ por ‘maxi-trail’. Bem, no meu caso, até foi ao contrário. Vim das ‘trails’ para uma ‘sport-tourer’, a ‘MINHA’  Kawasaki Ninja 1000 SX Sport Tourer, porque queria sentir o gosto de um motor de quatro cilindros.

EN 360

Confesso que não estou minimamente arrependido e só me lembro das minhas Trails quando ando em pisos mais degradados. Ou quando tenho de percorrer grandes distâncias e levo com aquela ventosga e ruido no capacete.

EN 360

Os moinhos abandonados

Mas de voltemos à memória desta travessia pela EN 360 dia. Chego a Bezerra, continuo em modo de subida e vou passando por uma zona com moinhos ao abandono. Sim, porque toda esta serra é bem conhecida por ser bastante ventosa e os moinhos que outrora aqui existiam para moer os cereais deram lugar a enormes torres eólicas de produção de energia.

Não faço ideia se estes moinhos abandonados possuem dono ou não, mas é daqueles casos em que uma reabilitação dos mesmos e uma estradinha para os percorrer certamente que trazia muito turismo até aqui.

Depois de passar estes moinhos começo a descer em direção a Alqueidão e Arrimal, parando um pouco antes das suas belas lagoas para beber água. O calor era já insuportável apesar de trazer o casaco que tenho mais adequado para temperaturas elevadas (Furygan).

É claro que aproveitei para fotografar a Ninja, mesmo não tendo sido a minha companheira ideal para este passeio pela EN 360. Ela não tem culpa de eu não ser adivinho para conseguir saber de antemão, que a mesma se encontra em estado tão deteriorado. O que é uma pena. Acreditem.

A sombra, as fotos e preguiça

Com a mota à sombra, bem como capacete, luvas e casaco deambulei um pouco, tendo fotografado o local um pouco ‘à sorte’, pois com a luz que estava não conseguia perceber o que estava a ver no écran do meu telemóvel. Pois, mais uma vez deu-me a preguiça de levar a Nikon e nestas situações é que vejo a falta que a mesma me faz.

Soube mesmo bem ter parado um pouco. Confesso que ultimamente nem me reconheço com tantas paragens que faço e quanto as aprecio. Huuuummmm, sinais de velhice ou apenas uma forma natural de dar um sentido diferente às viagens e passeios. Julgo que tem mais a ver com a segunda situação. Eheheh.

Não é que não queira reconhecer que brevemente estarei a festejar os meus 60 anos, com algumas complicações de saúde neste último ano. Mas de facto sinto-me sempre óptimo quando desço para a garagem e pego numa das minhas motinhas e arranco em direção a um destino planeado com antecedência.

Após esta paragem de alguns minutos, volto à estrada, debaixo de um calor bastante razoável, e atravesso então Arrimal e a sua lagoa pequena, chegando a Casal de Vale de Ventos. A partir daqui começo a descer e a deixar a Serra D’aire e Candeeiros para trás, com uma visão absolutamente incrível neste troço de estrada.

Recomendações à margem da EN 360

Chegado à IC2/EN1 percorra-a por algumas centenas de metros para então virar à esquerda em direção a Turquel, entrando na EN8-6 até Casal da Estrada, onde se encontra de novo a EN 360. Vão ficando para trás Santa Catarina, Portela, Carvalhal Benfeito e Cabeça Alta, onde são necessários alguns minutos para apreciar o local e registar o momento com algumas fotos e filmagens.

Da paisagem serrana que acabei de percorrer passo agora para uma paisagem mais plana. E apesar de em algumas zonas o piso estar muito degradado, a passagem por este troço e todas estas localidades foi interessante. Antes de chegar a Caldas da Rainha, passagem por Trabalhias, Salir de Matos, Casais da Ponte, São Jacinto, Casal do Regato e Casais de Santa Rita.

Estou a chegar a Caldas da Rainha, não sem antes passar por Trabalhias, Salir de Matos, Casais da Ponte, São Jacinto, Casal do Regato e Casais de Santa Rita.

E ao passar no Casal do Regato, uma grande surpresa, ao descobrir a empresa Águas do Areeiro. Não fazia a mínima ideia de que era para estes lados! É isto que tem de interessante viajar de mota por Portugal e conhecer as estradas nacionais, municipais e camarárias. Volta e meia encontramos ‘coisas’ que nem de longe nem de perto imaginávamos ir encontrar.

O vento do paraíso surfista

Chego a Caldas da Rainha e até consigo percorrer a cidade sempre pela EN 360. O passeio deste dia estava prestes a terminar pois a bem conhecida vila de Foz do Arelho estava já bem perto e com isto o final da própria estrada. Que desemboca numa estância balnear bastante concorrida na lagoa por ‘wind-surfistas’ e no mar por surfistas. Sempre que por aqui passei ou é azar ou é mesmo assim. A ‘ventosga’ neste local está sempre bem presente.

Tiradas algumas fotos no local junto à praia, porque marco quilométrico indicativo do final da estrada não o consegui descobrir, viro a mota para norte e volto para casa de barriga cheia de um passeio bem interessante. Reconheço que foram muito quilómetros para apreciar e fazer ‘done’ a esta estrada, de 95 km, tendo que percorrer mais 517 km para chegar ao seu início e para voltar a casa.

Se valeu a pena? Sim, valeu apena. Passear nesta Serra é sempre um enorme prazer e aqui fica mais uma estrada feita de fio a pavio… Venha a próxima!

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