Ducati à espreita!

  • Texto: Fernando Pedrinho
  • Fotos: WorldSBK, Fernando Pedrinho

Michael Ruben Rinaldi entrou embalado pela vitória na última corrida de Montmeló, na Catalunha, ficando logo atrás do super rápido Jonathan Rea, mas como diz o ditado, ‘nem tudo o que luz é ouro’. “Entrámos bem e é importante estar numa posição de topo, mas estou apenas a 95% do ‘feeling’ que necessito de ter com a moto”, disse-me o piloto de Rimini. “Se considerarmos que o Jonathan [Rea] meteu um pneu novo para fazer o tempo, percebes que há aqui muito jogo mental, pois ele está a lutar pelo campeonato e precisa mostrar ao Toprak [Razgatlioglu] todo o seu potencial e quem manda aqui. Eu não tenho necessidade de nada disso e apenas quero preparar a corrida. Se não coloquei hoje um pneu novo vou tê-lo disponível para amanhã. Não tenho de mostrar todos os meus trunfos, mas se olhares para os tempos por volta, o meu ritmo de corrida é superior ao do Jonny. Por isso, a diferença de quatro décimas não me chateia minimamente!”.

“Senti-me rápido, mas não fui rápido!

“Senti que andei muito rápido, mas não fui rápido”, dizia Scott Redding com um sorriso pelo meio. “É um problema, não é? Sinto-me bem mas acho que estou a pilotar em excesso, pois estou com as mãos cheias de flictenas [bolhas] e a suar imenso. A certa altura do ano compreendi o que teria de fazer para me sentir bem em cima da moto e maximizar o que posso extrair dela. Por isso, pilotar como fiz hoje não é de certeza a melhor forma. Mas quando tentei suavizar a minha pilotagem tornei-me mais lento, o que me deixou numa situação sem opções, como em Donington, mas aqui sem consequências tão graves”.

Parte do problema poderá residir no fato de a equipa ter “fundido duas afinações numa só, baseado no que usávamos no ano passado com as deste ano. Eu já esperava que isso não funcionasse, mesmo antes de subir para a moto. É como se juntasse metade de uma moto com metade de um automóvel: pode andar para a frente mas não te vai dar uma boa performance. Eu sei que tenho o ritmo e sinto-me a andar rápido, mas saber que não estou a ser na realidade não é de todo um mau sinal pois potencial está lá”.

É na frente da Panigale V4R que parece residir o problema. “Sinto-a a escorregar muito, mas o pneu não tem um aspeto tão mau quanto dá a entender em cima da moto. Parece estar cheio de ‘grão’, mas quando o observas não é isso que se vê. Ainda assim, acho que estou lá, mesmo sabendo que o Jonathan [Rea] fez uma volta-canhão, o que não vai acontecer na corrida, pois ao fim de três voltas ele começaria a andar para trás. Agora só tenho de manter a calma e resolver o problema da frente”. O que se pode esperar das Ducati com o tempo mais quente. “Eu não senti que tivesse a aderência de uma pista fria. Por isso, não acho que a temperatura venha alterar de forma substancial o cenário atual, mas antes dará uma sensação de asfalto ‘gorduroso’”.

O amigo que resolveu pendurar o fato

É indiscutível que Scott Redding e Chaz Davies sempre tiveram uma boa relação. O anúncio da retirada do galês da GoEleven tocou de perto o inglês. “Ahhhh o Chaz… queria tanto dizer coisas [na conferência de imprensa dedicada à saída do número sete] como o agradecimento de me ter trazido para a Ducati, ou relacionamento espetacular que tivemos, mas contive-me porque achei que ainda ía começar a chorar. É triste, mas partilho da sua opinião: quando acabou, acabou! As corridas não são tudo na vida de um piloto, ao contrário do que muita gente, que não faz competição, pensa. Quando o fizeste toda a vida, todos os dias e acaba… é tempo de fazer outras coisas, tratar da casa. Tenho muito respeito pelo Casey [Stoner] que decidiu pendurar o fato quando estava no auge, para se dedicar a outras coisas, independentemente da sua condição física. Mas acho que vai ser bom para o Chaz, pois entrou numa idade em que há mais interação com a família, com quem é importante passar mais tempo. Quando era novo, eu quase nunca via o meu pai. Ele saía para trabalhar de manhã e só vinha à noite, para me levar para as corridas ao fim de semana e voltar à rotina de ir para o trabalho e chegar tarde a casa na segunda-feira seguinte. Por isso nunca passava tempo com a minha família. Eu gostava que os meus filhos tivessem uma experiência diferente e acho que foi isso que pesou na decisão do Chaz. Talvez aquele fogo de vencer esteja a ser apagado pelo chamamento da família, o medo de contrair uma lesão e o tempo que já leva nas corridas. Por vezes é complicado ires buscar a motivação necessária para correr.  Eu estou-me nas tintas para o chavão de que estás motivado para ir para a pista diariamente. Quando tens 16, 17 ou 18 anos, acredito que isso acontece, mas à medida que vais envelhecendo chegas a um ponto em que percebes como é difícil esta vida”.

E muito tempo como piloto também não ajuda. “Que é o caso do Chaz. Depois há as lesões, as coisas não correm com queres… Olha para o Valentino [Rossi]. Se ele ainda lutasse pelos pódios não se retiraria no final deste ano! Quando ele passou pela Ducati cheguei a dizer que não me surpreenderia se ele se retirasse no fim da época, porque no momento em que os resultados não saem, deixas de gostar do que fazes. Isso só não aconteceu porque passou para a Yamaha e regressou aos bons resultados, ficou feliz e seguiu em frente. Mas quando as coisas começam a dar para o torto… tens de ir.

O Chaz foi fantástico comigo. Quando vim para a Superbike não podia ter pedido melhor companheiro de equipa.  Temos um relacionamento muito bom e não havia uma verdadeira rivalidade entre nós. Ele aceitou o fato de eu ser novo, ter sede de resultados, e de saber que com a sua experiência me ia bater algumas vezes, mas que eu também ia ficar à sua frente muitas vezes. Olha para a última corrida no Estoril, no ano passado, que eu queria mesmo ganhar para fechar a época em beleza, e acabei por levar uma ‘aviadela’ do Chaz. Ele é um tipo impecável e é difícil perder alguém como ele neste desporto, mas por outro lado é bom vê-lo que está bem com a situação. Eu acho que ele queria ter-se retirado no final de 2020, em alta, com a vitória no Estoril, mas continuou a pensar que seria capaz de continuar a vencer. Quem sabe se não o terei como meu treinador no futuro ou saímos à sexta feira à noite para aterrorizar cidades e vilórias (risos)”.

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