Do Mali ao Gana e República Dominicana, como se deslocam os locais em duas rodas?

Tocou-me em sorte a honra de redigir o ducentésimo artigo do MotoX.pt e para isso pensei em partilhar como se deslocam sobre duas rodas algumas das populações de países que acabei de visitar. Da insular República Dominicana, à África Ocidental e do Sahel, apreciem e sorriam com o que vos pode esperar se percorrerem as algumas estradas destes países.

Texto e fotos: Fernando Pedrinho

O paradigma da mobilidade citadina em regiões mais carenciadas é algo diferente daquilo a que estamos habituados na mais burguesa Europa. Contudo, o objetivo é idêntico e porventura ainda mais inclusivo. O acesso a um veículo de duas rodas por estas paragens não é fácil, para alguém que ganha uns quantos euros mensais, pelo que as escolhas tendem a recair sobre modelos de baixa cilindrada, normalmente não excedendo os 125cc. Claramente, as marcas asiáticas, sobretudo chinesas e indianas, ditam a lei, em urbes onde o caos predomina e onde se vive um salve-se quem puder permanente.

Uma família de Bamako

A segurança não é aspeto acautelado pelas autoridades e utilizadores destes motociclos, tal como o respeito pelas regras de trânsito, se bem que se viva uma misteriosa ‘ordem natural’ que tende a regular e a dar alguma organização a estes carreiros de formigas que se cruzam em múltiplas direções. Acidentes, não vi nenhum (embora uma mão cheia envolvendo automóveis e veículos pesados) para o que contribui uma relativa baixa velocidade de circulação e notável destreza de muitos utilizadores, já que o respeito dos automobilistas para as duas rodas é quase inexistente e as condições de algumas unidades são um paradoxo da fiabilidade e equilíbrio para qualquer motociclista.

Não raro, famílias inteiras deslocam-se num só veículo e o mesmo é utilizado para o transporte de todos os tipos de materiais e objetos, amiúde desafiando as leis da física clássica (e mesmo da quântica) para além de serem bastante utilizadas como moto-táxi, dada a rapidez com que se conseguem deslocar num trânsito literalmente parado, em boa parte do dia, das urbes africanas.

Do sol e mar da República Dominicana…

Eu bem tentei arranjar uma moto para dar umas voltas na metade leste da ilha de Hispaniola. Na verdade, Hispaniola está dividia ao meio, separando a República Dominicana do Haiti. Mas tal não foi possível pelo que tive de resignar-me a ver e a fotografar o que ia vendo, entre Bayaibe e Punta Cana.

Standard dominicano.

O parque motorizado é modesto, com diversas 125cc a dois tempos, ‘scooters’ e ‘mopeds’ com alguns anitos. Em Punta Cana ainda deu para ver umas Harleys já ‘entradotas’ e as BMW R1100RT da polícia local que esperavam os mais audazes do acelerador à sombra de uma árvore, em vários locais da via rápida que une aquelas duas estâncias balneares.

Caribenhamente colorida.
‘Mopeds’ na praia

As Suzuki AX100, a dois tempos e resultantes da colaboração da casa de Hamamatsu com a indiana TVS, bem como as inúmeras cópias chinesas dominam a paisagem nesta parte da ilha. Mas há um pouco de tudo, com modelos da local SuperGato (modelos até 200cc de origem asiática), Tauro, Bajaj, Jincheng, ou TVS, e diversas Yamaha, como a ‘scooter’ Jog, e até Honda Cub 90 ou CG125. Aqui, as moto-táxi designam-se por ‘motoconchos’ e uma trail, por exemplo, é apelidada de ‘saltamontes’. Não menos populares são os triciclos de carga, como os Loncin LX200, com motor monocilindrico a quatro tempos de 197cc, que são autênticas mulas de carga nas várias unidades hoteleiras espalhadas pelas praias banhadas pelo cálido mar do caribe.

Uma ‘saltamontes’… ‘made in China’.
O cozinheiro mais rápido do mundo.

Obviamente, o capacete quando é usado protege, exclusivamente, o cotovelo; vi pneus mais lisos que os de MotoGP e algumas manobras de ultrapassagem de extrema audácia ou pura fé em Deus. O chinelo e a camisa de alças são assumidamente, considerados como equipamento de motociclismo.

Uma moda que se repete por África: potentes luzes de led com efeito ‘strob’. Altamente agressivas para a vista!
Segurança por todo o lado. O antebraço está garantido!
Um herói local: aí vai ele.

… à poeira e buracos de Bamako

Passagem para o continente africano e na capital do Mali, Bamako (que muitos ainda se lembram do ‘Dakar africano’), as coisas mudam de figura pelo efeito de escala. As ‘mopeds’ são aos milhares e surgem de todo o lado. Não raro, o trânsito está literalmente parado e são as duas rodas que continuam o seu caminho. Aqui, as moto-taxi também desempenham o seu papel, com uma corrida com um ’telimaní’ a rondar um euro.

Bamako move-se literalmente em duas rodas e a grande dominadora do mercado é uma marca indonésia, a App KTM. Bom, se pensam que tem a ver com os austríacos de Mattighoffen, como logo acreditei, desenganem-se: Asia Putra Perkasa – Kingtown Tian Ma, é o significado do acrónimo que identifica esta ligação entre a marca indonésia e chinesa, fundada em 2000, em Jakarta. E é este o nome dado às ‘moped’ de 110cc de motor a quatro tempos, cujo modelo Power-K é a moto de eleição dos malineses de Bamako. É vê-los com todos os tipos de indumentárias, cobertos nos tradicionais ‘boubou’, algumas das senhoras e raparigas usando o ‘nijab’ ou ‘niqab’, e alguns dos homens com lenço tuaregue. Seguem imperturbáveis no meio da poeirada habitual de Bamako, ou do lamaçal constante na época das chuvas, já para não falar do calor tórrido e sufocante de Março em diante. E no meio de um casal podem ir dois miúdos, mais um à frente e outro atrás… ou algum tipo de animal, não necessariamente doméstico.

Os ‘telimani’, que conduzem as moto-táxi, optam geralmente por modelos utilitários de 125cc a quatro tempos. Usam capacete, mas o passageiro que se ‘amanhe’, e as suas motos surgem forradas nas partes metálicas por espessas áreas de espuma e cabedal. Aqui predominam as Boxer, Sanili, mas sobretudo a indiana Start HLX125.

Os triciclos não podiam faltar, mas os mais vistos são da chinesa Xingda, onde se vendem por cerca de 700 euros. Já as ‘Jakarta’ custam cerca de 110 euros, novas, numa cidade em que o salário médio é de 80 euros mensais e o litro de gasolina custa exatamente um euro.

Dois amigos marroquinos que tenho em Bamako, Abdelhak e Samir, riam-se quando olhava para qualquer lado e via surgir motorizadas de todos os lados. “Sabes”, dizia-me Abdelhak, “um carro aqui dura como novo apenas um dia!”. Perante o meu espanto, “as motos, mas sobretudo os triciclos e os furgões Mercedes – uma espécie de ‘chapa’ moçambicanos, ou ‘matutu’ quenianos – logo nos batem nos carros e deixam todo o tipo de riscos e mossas”. Em caso de um toque um pouco mais forte “dá-se qualquer coisa a eles para se irem embora e sem chatearem”, diz-me Samir. “Cada um fica com o seu estrago. O seguro não serve para nada e a polícia só aparece se houver feridos”.

Ficou prometido para a próxima uma volta em todo-o-terreno com Sory Ibrahima Maïga, um conhecido empresário da África Ocidental e marido de uma amiga minha, que já ligou o Mali à Serra Leoa na sua Yamaha WR450F. “Quando voltares, trás o equipamento e vamos para o mato”.

Gana, à imagem do continente

Depois de uma breve passagem por Abidjan, na Costa de Marfim, aterrei em Accra, a capital do Gana e tive hipótese de ligar por estrada até Tarkwa, no centro do país, passando por Takoradi. Ainda me lembrava do horror das estradas ganesas, com buracos assustadores para qualquer roda, a fazer lembrar os tempo vividos em Moçambique, os lameiros imensos, troços de estrada de rolar a 5 km/h e a perfeita inconsciência de quem se serve da via pública, sobretudo dos condutores de veículos pesados.

Accra tem um nível de vida superior ao de Bamako, mas assim que penetramos no interior do país, voltam de novo a ser visíveis as parcas condições em que a maior parte desta gente vive. O panorama motociclista não difere muito do de Bamako, mas as ‘Jakarta’ dão lugar às 125cc e 150cc utilitárias e em Accra já se podem ver muitas motos modernas e de segmentos superiores, sobretudo desportivas e ‘nakeds’.

‘Tuk-tuk pit stop’.

Uma oitavo de litro custa cerca de 4.000 a 5.000 Cidis, a moeda local, o que dá cerca de 580 a 720 euros. Estes são os modelos prediletos dos moto-taxistas, conhecidos como ‘Okada’, tal como na Nigéria, e dos radio-mensageiros, em que geralmente um indivíduo compra uma moto, monta uma ‘top case’ e começa a trabalhar a fazer entregas. As mais populares são de novo as Boxer 125 ou as Superstar CG125, mas há também as Royal Moto Rygy 150, ou as chinesas Haojin ou Sanya. A corrida numa moto-táxi custa cerca de cinco cidis (cerca de 70 cêntimos), contra 30 de um táxi (3,5 euros). De um modo interessante, qualquer pagamento pode ser feito por telemóvel, através dos serviços das operadoras, como a MTN, Vodafone Cash ou Tigo, à imagem da revolução operada pela pioneira Mpesa no continente africano.

Totalmente nas mãos de Deus.

No Gana também aparecem alguns ‘tuk-tuk’ ao lados dos habituais triciclos, cujo mercado é dominado pela Apsonic e Royal Motors, valendo cerca de 1700 a 1800 euros. Até há pouco tempo, o salário médio no Gana era de 150 euros por mês, valor que sobe bastante na classe média, sobretudo em Accra. Curiosamente, o valor da gasolina e gasóleo era idêntico, sendo mais elevado nas marcas de renome internacional, custando exatamente um euro por litro. Na obrigatória referência às motos da polícia, o que vi no Gana foram as Honda ST1300 Pan-European.

Se forem para aqueles lados: ‘ahwe yie’! Que é como quem diz em twi, tem cuidado!

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Muito estilo… e cor.
Há sempre lugar para mais um
Mula de carga motorizada.

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