CROM Ride 2021 revela paraíso com milhares de curvas em Girona

À descoberta de uma Costa Brava diferente entre os tons dourados do Mediterrâneo e o verde intenso dos Pirinéus

  • Texto: Paulo Ribeiro
  • Fotos: Félix Romero, Ula Serra e P.R.

A receita é simples. Quase como juntar farinha, água, açúcar e ovos para fazer um pão de ló. Afinal, basta adicionar boa disposição e uma organização eficiente, um ficheiro GPX (os mais clássicos até podem ter um road-book em papel…) com algumas das melhores estradas da Catalunha e polvilhar com milhares de curvas para criar um bom prato. Nada de muito requintado em termos gastronómicos, sem os salamaleques de alguns cocktails onde o social ganha outra dimensão. Não! Aqui o importante são apenas os ingredientes. E esses são da melhor qualidade, com garantia de origem dada pela proximidade com os Pirinéus. Mais de meio milhar de quilómetros carregadinhos curvas para cumprir ao longo de um dia intenso, é certo, mas vivido ao ritmo de cada um.

A CROM Ride, assim se chama a iguaria, é pensada para quem gosta mesmo de conduzir, para quem uma estrada deveria ser feita apenas de curvas. Para todos os que sentem a moto como continuação do corpo, verdadeiros atletas do asfalto na busca do prazer físico de desafiar as leis da Física. Para aqueles que gostam de gastar cada milímetro de borracha dos pneus, quanto mais não seja porque toda ela foi paga por igual… Das ‘carreteras nacionales’ até às ‘provinciais’ de Girona, passando pelas ‘autonómicas’ da Catalunha, são inúmeras as possibilidades que, desde 2017, permitem aos irmãos Joan e Jordi Martí Utset juntamente com o veterano jornalista Pere Casas oferecer paladares diferentes a cada ano. E como são exigentes estes comensais!

Um evento que surgiu como um desafio, lançado por alguns daqueles que, “no início dos anos ’90, participavam nas saídas ‘endureras’, muito intensas, ao longo de um dia inteiro em fora de estrada e onde era preciso rodar com road-book e com controlos de passagem”, recorda Joan Martí. Que logo desfaz qualquer dúvida: “Não havia qualquer tipo de competição ou classificação. Era apenas a parte lúdica, a diversão e a superação de cada um que contavam”. Filosofia de paixão que, agora, surge perfeitamente refletida em evento asfáltico, onde o que conta é a diversão, o mais puro prazer de condução, desfrutar as mais recurvadas estradas.

Quase três décadas depois, numa região onde a paixão ‘motera’ é, talvez, a mais intensa da Europa, “muitos foram os que queriam um evento em estrada, devidamente organizado, com muitos quilómetros e, sobretudo, muitas curvas”. Em conversa com o irmão Jordi, “que além de sócio da CROM Events & Communication – a empresa – está ligado ao Patronato de Turismo Costa Brava Girona, foi encontrado um ponto de equilíbrio entre um percurso com muita condução, entremeado com a visita a sítios icónicos, pitorescos e históricos da província de Girona”.

Um evento cada vez mais atrativo para os ‘espanhóis’ (aparecem sempre alguns franceses, andorrenhos ou italianos e uns poucos portugueses) mas em que “predominam os ‘moteros’ da Catalunha. Porquê? Talvez pelo facto de ser um evento de um único dia que complica a logística (e os custos) de quem pretenda vir de mais longe. Também não há aqui grande preocupação com o incremento de adesão porque não queremos que este evento cresça em demasia. O facto de haver demasiadas motos na estrada pode limitar a liberdade e a descontração com que queremos que a CROM Ride seja encarada”.

E se, no primeiro ano foram cerca de 200 os motociclistas que marcaram presença em Fontajau, junto ao pavilhão polidesportivo municipal de Girona, o pelotão ultrapassou as três centenas em 2018, atingindo e depois superando a marca das 500 inscrições nos anos seguintes. Em 2021, numa aberta proporcionada pela crise sanitária mundial “foram um pouco mais de 750 as pessoas que participaram, número que, pelos cálculos em termos de tempos de saída e do tempo médio para cada um dos cinco troços, está mesmo no limite. Caso contrário, os últimos partiriam muito tarde e, por consequência, chegariam também mais tarde, noite adentro. Além de que não é fácil encontrar sítios para montar os controlos, com espaço para acolher muitas motos sem criar filas intermináveis”.

Um evento de um dia que começa… na véspera! “O dia anterior serve para confirmar as inscrições, recolher os números para colar na moto, a t-shirt e outros brindes, existindo ainda uma espécie de minifeira, com diversos expositores, sobretudo de marcas de motos, e onde é possível testar algumas motos, ver e comprar acessórios e equipamentos”.

Por falar em motos, também as há para todos os gostos ainda que predominem as naked de vocação desportiva e as trails estradistas, como a Kawasaki Versys 1000 SE Grand Tourer utilizado por MotoX. Mas há scooters e custom, baggers e choppers, superdesportivas e clássicas. O ecletismo, a heterogeneidade e a variedade de marcas e modelos, cores e cilindradas são, afinal, um reflexo da própria cultura motociclística catalã. Onde a moto é vista como um elemento de superior mobilidade e economia (de tempo e dinheiro…), mas onde é enaltecida a sua vertente de lazer, seja no capítulo turística seja através da competição.

Mas aqui não se trata de uma pista de corridas. Antes um gigantesco ‘open space’, um verdadeiro ‘playground’ de luxo onde cada um pode brincar ao seu ritmo, em função do seu estilo, da sua moto, da sua filosofia. Onde é possível apreciar a paisagem e visitar locais icónicos ou, simplesmente, arredondar pneu com os amigos. Daqueles que passaram ao lado de uma grande careira no MotoGP como os outros, conscientes das suas limitações, mas que não perdem a oportunidade de um divertimento ímpar em estradas de bom piso, bem desenhadas e, regra geral, com muito boa marcação.

O pacote custa 65 € e dá direito ao ficheiro do trajeto para o GPS (em papel custa mais 15 euros), ao serviço de controlos onde são carimbados os passaportes que atestam a passagem pelos locais e ajudam no controlo da extensa caravana, uma t-shirt alusiva ao evento, o pequeno-almoço no local da partida e um lanche (que até pode ser ceia) à chegada.

O que, bem vistas as coisas, torna o Portugal Lés-a-Lés num excelente negócio… para os participantes. Para aqueles que se queixam do valor de inscrição cobrado pela Federação de Motociclismo de Portugal, talvez não fosse descabida a participação (ou pelo menos o conhecimento…) do que se faz por esse mundo fora neste capítulo.

Enaltecer as belezas e os produtos da terra

Durante o dia, em alguns dos controlos, os participantes foram recebidos com produtos regionais, da famosa água mineromedicinal cujas propriedades curativas são conhecidas desde o séc. X, a Aigua de Villajuïga (em Port de la Selva/La Ribera) logo no primeiro ponto de paragem até à Poma de Girona, maçã com Indicação Geográfica Protegida. À passagem por Campodron (El Pont Nou ou Ponte Nova), Alp (Palácio de Congressos), Ripoll (Mosteiro) ou Sant Hilari Sacalm (na praça que homenageia o General Josep Moragues, herói da Guerra da Sucessão, no início do Séc. XVIII, lugar ainda à presença de apoiantes técnicos como a Shoei, que garantia assistência necessária aos capacetes a meio do percurso, e a Motorex, que lubrificava correntes, limpava viseiras e estava ali com os lubrificantes e outros itens para que nada faltasse aos participantes.

Sempre atento a todos os pormenores, Joan Marti dá indicações de última hora e relembra cuidados a ter nas estradas catalãs

Com imensa experiência na criação de percursos e eventos, Joan Martí criou a CROM Events & Communication em 1987, “dedicada à organização de todo o tipo de eventos, mas, essencialmente, centrados no mundo motorizado e nas motos em particular. Como por exemplo as apresentações de novos modelos à imprensa internacional, trabalhando para várias marcas de motos e, neste momento, sobretudo para a Kawasaki”.

A aprender no Portugal de Lés-a-Lés Off-Road

Uma vontade de conhecer e melhorar que, juntamente com o caráter lúdico e a diversão, o levou a alinhar no 3.º Portugal de Lés-a-Lés Off-Road, em 2017, de Boticas a Lagos, com um grupo de amigos aos comandos das Honda XRV 650, as originais Africa Twin. “Existem de facto algumas parecenças entre os dois eventos, mas o Lés-a-Lés tem três dias e uma organização que é muito maior e naturalmente muito mais complexa. O que diferencia a CROM Ride? É algo diferente para os portugueses, que só participando poderão entender o espírito. Tentamos que seja mais simples, que haja muito liberdade de movimentos, entregamos uma rota com as estradas que aconselhamos, mas cada um pode fazer um percurso à sua medida. E se estiver cansado, pode apanhar uma estrada principal e deslocar-se para o controlo seguinte ou diretamente para o final, em Girona”. E, em jeito de provocação desafiadora, lança uma última dica “é sempre no último fim-de-semana de junho ou no primeiro de julho…”

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