Correr nas clássicas para fugir da jardinagem!

  • Texto e fotos: Alberto Pires
  • Fotos dinâmicas: Hellofoto

Alguém, espantado, perguntou ao Peter Howarth se valia a pena fazer 6.000 km neste verão para correr nas clássicas. Yes, disse ele, to staying away from gardening!

MotoX – Seguramente que te lembras como começou…

Peter Howarth – Comecei a correr em 1967, tinha 18 anos, e a minha primeira prova foi numa pista feita num campo de aviação, em Darley Moor. Foi numa Yamaha AS1, uma bicilíndrica de estrada com 125 cc, que apenas tinha montada uma carenagem e depósito em fibra de vidro, e avanços. Tudo o resto estava de origem. O meu mentor na altura disse-me para não ter expectativas, nem sequer de me qualificar. Eram duas sessões de treinos, com 24 pilotos em cada, mas fiquei em 17º nessa sessão e 30º na geral. Devia estar inspirado! Foi assim o meu início. Depois, gradualmente, fui pontuando, consegui a licença nacional, depois internacional e mais tarde a de GP. Fiz o meu primeiro GP em 1975, em Silverstone, numa 125 cc. Acabei em 6º. Era bem mais pequeno que agora! Em 1976 comprei uma 350 cc, acabei em 22º, e em 1977 corri numa 250 cc do Charlie Williams, mas, para mim, tinha o selector de velocidades no lado errado. Mesmo assim terminei em 26º no GP. Era bastante divertido nessa época, mas bastante duro, vivia no interior de uma Ford Transit Mk1, não havia Motorhomes nesse tempo! Só mais tarde é que nos começámos a mimar ao atrelar-lhe uma roulote ! Era divertido. Deixei o mundial em 1981, quando a FIM acabou com a classe 350 cc. Curiosamente foi quando eu tinha decidido envolver-me mais profundamente nas provas internacionais. Eu era demasiado pesado para as 125 cc e não conseguia comprar uma RG 500. Vendi as duas motos que tinha, o furgão, arrumei o meu fato no armário, cancelei a assinatura da Motor Cycle News e não quis saber mais nada sobre de corridas, nem do que lá se passava.

Richard Peers-Jones – Comecei a correr há muito tempo, em 1968. Era estudante e como todos, não tinha dinheiro. Como todos, também, fazíamos corridas na estrada, com as BSA e Triumph 650 cc, a quatro tempos. Apercebi-me no entanto que mais cedo ou mais tarde acabaria por me matar. Então, com um amigo, decidimos correr juntos e partilhar o que fosse possível. Fui para Brands Hatch num side-car, colocámos a Norton 650 na plataforma do passageiro, e atámo-la. Com a mão direita acelerava e com a esquerda segurava a Norton. Cheguei à pista em grande estilo! A corrida foi uma desgraça, e percebemos que numa pista tudo é diferente, mais sério. Fizemos isto durante um ano, sem dinheiro, e conseguimos rodar no meio do pelotão. Tínhamos cada um o seu capacete mas partilhávamos o fato de couro. Assim que acabava uma sessão de treinos tínhamos que nos despir rapidamente para passar o fato ao outro. Numa altura, em Oulton Park, só havia uma sessão de treinos para todos e tivemos que decidir qual dos dois a fazia. Um de nós teve que correr numa pista que desconhecia sem ter treinado.

Sobrevivemos a esse ano e para fazer melhor percebi que tinha que ter uma moto melhor. Comprei então uma Metisse 750, bastante competitiva. Comecei a conseguir resultados, dentro dos seis primeiros, sobretudo por causa da moto. Em 1973 comprei a TR 500 que era do Barry Sheene à Suzuki. Ele queria a moto para a sua coleção, já que tinha ficado em Silverstone à frente do Agostini com essa moto, e ficou aborrecido com a marca por tê-la vendido, mas foi muito simpático comigo, deu-me peças e os pneus que tinha para ela. Tentei correr em Silverstone e em Assen, mas não tinha ainda pontos para conseguir a licença internacional, de maneira que fui à Finlândia, a Imatra. Como não era um piloto reconhecido, tive que me qualificar para correr e, simultaneamente, receber um prémio por alinhar. Fiquei em 17º, numa grelha com 36 pilotos. A prova não correu bem, a caixa partiu e não terminei, mas como corrida internacional foi fantástico, e as pessoas eram muito simpáticas. O nível técnico era inimaginável. Lembro-me que numa prova internacional em Nurburgring, me perguntaram se queria partilhar a box com o Jon Ekerold, que estava de regresso depois do acidente em que partiu a anca e a perna. Claro que aceitei e o Ekerold era de uma enorme simpatia. Fiquei em êxtase com a sua Solitude 350, o peso parecia o de uma 125 ! Estava repleta de metais leves e a carenagem era feita de plástico muito fino.

MotoX – Relativamente à melhor memória do primeiro período…

Peter Howarth – As mulheres, as mulheres. Era o tempo do flower power. Memórias… Alguns bons resultados, venci em Cadwell Park, numa prova internacional, feita em duas mangas. Fiquei em 4º na classificação combinada, mas na frente de Derrick Chathan e do Tony Rutter. Também tenho saudades da quantidade de espectadores. É muito bom, quando estamos numa pista, e vemos o público a vibrar!

Richard Peers-Jones – Por volta de 1978 tive que abrandar, continuava a estudar e não tinha dinheiro. No entanto, como havia um monte de TZ’s 350, já que todos corriam com estas motos, comprei uma e apesar de não correr tratei de a cuidar devidamente. No ano seguinte, em 1979, dei um passo atrás e dediquei-me apenas às corridas de clube, mas levei as coisas a sério. Corria todas as semanas, e fiz 169 corridas nesse ano. Nessa altura corria-se ao Sábado numa pista e no Domingo noutra, e seis vezes em cada dia! Com a TZ 350 participava na classe 350, na classe 500 e na Open. Com a TZ 350 podíamos ganhar todas as corridas. Ganhei 71 corridas nesse ano, caí uma vez e avariei noutra. No livro de manutenção dizia quando mudar as juntas, os pistões, os vedantes, tudo. A moto era 100% fiável, mas ficava caro. No banco perguntavam-me como era possível entrar o dinheiro todos os meses na minha conta e sair todo no dia seguinte, se havia algum problema! Eu dizia-lhes que não, simplesmente corria de moto!

Em 1983 comprei um quadro Spondon F2 novo, que é o que ainda tenho, feito para o motor 350 de F2 desenvolvido pelo Andy Fletcher. Era um conjunto extraordinário. Fui a Jerez, estavam lá 75 pilotos a tentar a qualificação. Pensei que não tinha hipóteses, só tinha um dia, não conhecia a pista. Na segunda sessão de treinos fiquei em 10º. A corrida era de 32 voltas, cerca de 70 minutos, debaixo de um sol abrasador e estava em 5º. Na frente o Brian Reid, o Graeme McGregor, o Eddie Laycock e outro de que não me recordo. E de repente os braços perderam a força, a 3 voltas do fim. Ainda terminei em 8º, e ganhei dinheiro suficiente para fazer umas férias! Fiquei com a certeza de que tivesse uma moto em condições conseguia andar à frente.

MotoX – Este segundo capítulo já vai com quantos anos?

Peter Howarth – Porque decidi abandonar tudo, quando regressei não sabia quem era o Wayne Rainey, nem o Schwantz. Eram todos estranhos para mim. Wayne Gardner, quem é ? Vinte e seis anos depois de abandonar, em 2007, um amigo meu, o Roger Dickson ( campeão inglês de side-cars) convenceu-me a ir com ele a uma corrida de Clube, em Cadwell Park. “Anda, vais gostar”, disse-me ele. “É divertido, não tem nada a ver com corridas. Vamos dar uma volta, saborear um churrasco, esquecer as chatices, blá, blá, blá”… Eu estava determinado a nunca mais correr, mas assim que entrei no paddock, senti o perfume do Castrol R, e foi como um “chuto” de heroína ! De repente dei-me conta de que só pensava numa coisa: comprar uma moto ! E aqui estou, num longo segundo período de corridas.

Já lá vão 15 anos, bem, os dois primeiros foram para recuperar o ritmo… Estou a gostar, é um desafio estar aqui, e quando vamos ao pódio e vemos os mais novos atrás de nós ficamos com a certeza que o estamos fazer bem. Na prova em Anderstorp, na Suécia, eu e o Richard ficámos nos dois primeiros lugares e, em terceiro, um jovem, um “Speed King” local, que nos olhava com arrogância enquanto se perguntava como é que tinha ficado em terceiro! São momentos que nos incham o ego e nos incentivam a fazer mais um ano. Entretemo-nos também a melhorar a moto.

O nosso amigo Reinhard Roll desenvolveu um cilindro com 7 transferes, que debitou imediatamente 90 cv. A TZ 350 tem de origem 72 cv, e estamos sempre a tentar melhorar o comportamento em curva, os travões, tudo. Exatamente como antigamente, estamos sempre a tentar encontrar algo mais que nos dê vantagem. É sempre uma aventura ir para fora. Em Donington, Caldweel, já lá fizemos milhares de voltas. Donington está a 20 quilómetros da minha casa, quando lá chego o motor da autocaravana ainda não aqueceu. Sei onde vou parar, o que vou fazer, por onde vou passar. Chego ao final do dia e não acrescentei nada à minha vida. Quando viajamos para o exterior, todos os fins de semana são uma aventura, ficamos em locais onde nunca pararíamos, convivemos com culturas diferentes, saboreamos outras comidas e passamos momentos óptimos.

Richard Peers-Jones – Em 2006, o meu pai faleceu, depois de alguns anos a tratar dele. Decidi que tinha que ocupar o meu tempo, e decidi voltar às pistas. Como o Eric Saul criou o ICGP em 2007, e havia duas provas em Assen e em SPA, decidi ir até lá, sem dizer nada a ninguém. Em Assen fiquei em 6º e em SPA terminei em 3º. Desde então eu e o Peter fazemos esse campeonato. Foi uma forma de andar a correr pela Europa, em circuitos bons, com ambiente muito amigável e com corridas divertidas. O problema é que agora o aluguer das pistas está muito caro e o custo da inscrição aumentou. É um problema que não vai acabar. Este ano já fomos a Imatra, vamos a Jarama, Cartagena e BRNO, e voltamos aqui em Novembro. Enquanto nos divertirmos estaremos por cá!

MotoX – Relativamente ao TT, nunca experimentaram ?

Peter Howarth – Apenas uma vez, como mecânico do John Newbold numa TZ 700. Eu tinha 20 anos, o John 20 e o Martin Ogbourne (seria mais tarde um dos mecânicos da Suzuki de fábrica) 19. O pai do John pediu-me para ir com ele porque o Martin, segundo ele, não conseguia distinguir uma vela de outra! Foi uma semana fabulosa, o John fez uma prova excelente na 700, rebentou a caixa na 350, mas na 250 classificou-se para a corrida principal, terminando em 3º, atrás do Tom Heron e do Stan Woods. Foi fantástico como estreante na Ilha de Man. Mas eu nem dei uma volta ao circuito. Lembro-me de estar no ferry, de volta, e não sentir vontade de gastar todo o orçamento de um ano em 15 dias de corridas. A alternativa era não ir e poder correr um ano inteiro. Nessa altura não havia patrocínios, lutava-se para se conseguir viver e correr.

Richard Peers-Jones – Julgo que nunca fui um piloto de “estrada”. Em 1983 fui a Dundrod, na Irlanda, participar na prova de F2. Os pilotos irlandeses são mais rápidos à chuva que eu no piso seco, e faziam uma média de 180 km/h.

MotoX – É interessante também a tua aventura enquanto fabricante da “Sankito”…

Peter Howarth – O início deu-se em 1974, eu trabalhava como projetista nos caminhos de ferro ingleses, e entretinha-me a desenhar cárteres para a possível adição de um terceiro cilindro numa TZ . Entretanto, um amigo meu, engenheiro na Spondon, fez os moldes para a fundição dos cárteres, e foi bem sucedido. Ao todo produziu seis conjuntos, e eu corri com uma em Donington, em 1977, e acabei em 9º na prova de 500 cc. Foi um revelação, não ficava cara e era muito competitiva relativamente à RG 500 Mk1. Uns anos depois, o dono de uma destas unidades veio ter comigo e disse-me que precisava de fazer uns cárteres novos, porque os dele estavam demasiado gastos. Perguntei-lhe o que queria fazer com os originais, e ele disse-me que eu podia ficar com eles! Eu sempre quis fazer a versão de 350 cc, com que Katayama foi campeão em ’77, e são os que tenho na minha Sankito, depois de os ter reparado. Fiz no entanto outros cárteres, desde o zero. É a piada que tem este desporto, acabamos por nos envolver profundamente nas questões técnicas.

MotoX – O teu fato da BP já é famoso…

Peter Howarth – A BP patrocinou-me em 1977 e, infelizmente, já não consigo entrar dentro do fato original, devo estar com o dobro do tamanho! Decidi fazer um novo, e tem-se aguentado. Apesar de ter decidido que não ia cair nem fazer disparates, já fui ao chão cerca de doze vezes.

Por exemplo, em Sachsenring, estava eu na Sankito, um piloto numa 125 passa por mim numa zona sinuosa e era evidente que conhecia a pista. Nas retas eu conseguia recuperar terreno e quando cheguei à esquerda rápida decidi passar por ele. De repente descolei, e o meu rabo não tinha ainda aterrado na gravilha quando percebi que fui tolo, ele estava com pneus slick e eu não. Demorei 3 anos a reparar a Sankito. Conhecer pessoas, circuitos e enfrentar os desafios é o que me motiva e me faz feliz.

A agora, um vídeo com os dois, a título de resumo!

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