CFMOTO no Mundial de Moto3: o triunfo logo no ano de estreia?

O construtor da cidade chinesa de Hanchéu surgiu nas grelhas da Moto3 este ano com duas KTM, pintadas num fácil de identificar azul-marinho, e entregues a dois dos mais promissores jovens da ‘cantera’ espanhola. Capitaneados pelo experiente Thomas Lüthi, a equipa está baseada na estrutura da Prüstel GP, o empreendimento desportivo da empresa da Saxónia fundada por Ingo Prüstel como grossista de bebidas e que, mais tarde, enveredou pela logística.

  • Texto: Fernando Pedrinho
  • Fotos: MotoGP, CFMOTO Racing Prüstel GP, Peter Bom e Fernando Pedrinho

O projeto surge alicerçado nas KTM RC250GP, fruto do acordo de cooperação entre a CFMOTO e a KTM e deu à pequena, mas muito bem organizada estrutura da Prüstel GP, o fôlego financeiro necessário para a formação alemã poder representar o construtor asiático da forma mais condigna possível. Equipa esta que necessitava de algum ânimo e alento depois de perderem Pedro Acosta, com quem havia assinado um contrato de dois anos, e verem o suíço Jason Dupasquier desaparecer tragicamente na passagem por Misano do ano passado.

Carlos Tatay com a azulinha nos altos e baixos da montanha algarvia.

Desconhecemos os pormenores do acordo entre a CFMOTO e a Prüstel GP, mas fontes próximas da marca que contactámos dizem-nos que a marca chinesa veio para durar nas grelhas do Mundial, muito provavelmente contagiada pela sua parceira austríaca, que subiu todos os degraus do Mundial de MotoGP para se estabelecer como um construtor vencedor. Os recentes surtos de Covid-19 no país do ‘Império do Meio’ impediram que os responsáveis da marca, nomeadamente o seu diretor desportivo, Su Zhen, estivessem presentes nas provas que coincidiram com a nossa visita aos Grandes Prémios, o que impossibilitou saber algo mais em profundidade sobre o projeto. Contudo, o recrutamento de Massimo Cappana para diretor técnico, que vem da Gresini Moto3, e a presença de Jens Hainbach, o vice-presidente de competição e velocidade da KTM na boxe da equipa, deixam entender bem a importância que esta aventura ao mais alto nível do desporto motorizado em duas rodas representa para ambas as marcas.

E poderá mesmo a CFMOTO enveredar pela conceção e desenvolvimento dos seus motores e quadros? Sim, poder pode, mas não creio que isso possa acontecer nos próximos tempos, onde fará todo o sentido capitalizar os ensinamentos e as muitas tentativas e erros da sua parceira nas categorias da MotoGP, para poder maximizar o esforço de competição na obtenção de resultados palpáveis a curto prazo, o que já sucedeu logo no ano de estreia.

Para pilotos a equipa capitaneada pelo ex-campeão mundial de 125cc e várias vezes vice-campeão de Moto2, Thomas Lüthi, escolheu dois jovens lobos da ‘cantera’ do país vizinho, que passaram pelo FIM CEV e pela ‘Red Bull Rookies Cup’, os quais estão ambos no ‘top ten’ do campeonato a meio da temporada.

Xavier Artigas e a promessa de vencer ainda em 2022

Nascido em Barcelona em 2003, deu nas vistas na ‘Red Bull Rookies Cup’ de 2018, onde terminou em terceiro, atrás dos gémeos turcos Öncü [Dennis e Can]. Em 2019, no ‘wildcard’ de Valência, ‘Xavi’ subiu mesmo ao pódio na corrida de estreia do Mundial de Moto3 com a equipa júnior da Leopard Racing, o que lhe valeu o acesso ao campeonato a tempo inteiro, com a Honda NS250RW da equipa principal, no ao seguinte, ao lado do experiente Dennis Foggia. Terminou em décimo quinto, vencendo a última prova desse ano, de novo em Valência, que parece ser o circuito talismã do catalão, o que lhe valeu o contrato com a CFMOTO para 2021. “A época de 2018 foi muito bonita, pois repeti a ‘Red Bull Rookies Cup’ e fizemos um bom trabalho que recordo com muita alegria”, disse-me após uma sessão de qualificação enquanto descontraía na box e me mostrava os pormenores da sua moto. “Já a época de 2020 começou de uma forma muito má [NDR – com três abandonos consecutivos] e continuou com diversas falhas, para terminar com o melhor resultado possível na última corrida”.

Xavi Artigas ladeado pelo seu chefe de equipa, Rubén Muñoz García, e Tom Lüthi, em pé. O outro chefe de equipa, o de Carlos Tatay, surge incógnito por detrás da cartolina, num espírito de equipa bem divertido e colaborante.

Ano novo e equipa nova, para 2022. “Este ano sinto-me muito melhor com esta equipa e com as sensações que obtenho em cima da moto. Depois de ter tido um ano tão mau como o de 2021, a CFMOTO confiou em mim e a mudança foi para melhor. O ‘feeling’ com a equipa é excelente e sinto-me cada vez mais forte. Já vimos que em corrida consigo andar no grupo da frente e só falta aquele bocadinho no final da mesma”.

E a diferença da Honda NS250RW para a CFMOTO [ou KTM]? “A pilotagem das duas é diferente. A KTM permite-me atacar muito mais em curva, entrando pendurado nos travões e com o corpo mais apoiado. Adapta-se mais ao meu estilo de pilotagem, pois sou um dos mais fortes na travagem”. A promessa de uma vitória ainda este ano com a CFMoto ficou bem expressa com um largo sorriso na cara do catalão.

Carlos Tatay: confiança para ‘dar e vender’

Valenciano de Alacuás, Carlos Tatay tem a mesma idade de Artigas e iniciou-se, à imagem do seu colega de equipa, na “Red Bull Rookies Cup”, em 2018, que terminou em quinto, para vencer no ano seguinte, onde também realizou os seus primeiros ‘wildcards’ em Moto3, em três das quatro provas realizadas em Espanha, com a equipa andorrenha da Avintia Racing, que o manteve a tempo inteiro no mundial em 2020 e 2021. A mudança para a estrutura da Prüstel GP e da CFMOTO deu-se porque “necessitava de uma mudança. Havia ganho a ‘Rookies’ e sido vice-campeão no FIM CEV com quatro vitórias, em 2019, no que constituiu um ano muito bom para mim. Só que a primeira época no Mundial não correu como esperava, mas como era um iniciado tudo podia acontecer. Já na segunda temporada esperavam-se resultados que não apareceram e entrámos numa dinâmica negativa, pelo que decidimos mudar. Falámos com a KTM e com o Florian [Prüstel] e aqui estou, muito contente e com a motivação extra que necessitava. É uma equipa que me estima e me pode ajudar em todos os pontos, para continuar a crescer e poder melhorar pessoalmente. Na CFMOTO encontrei a tranquilidade que necessitava! Cheguei ao mundial com 16 anos e desde aí tudo havia sido algo caótico, com corridas todos os fins-de-semana, que me levaram mesmo a pensar deixar tudo e dedicar-me a outro mundo. Estou muito agradecido e agora quero dar tudo para devolver-lhes este favor”.

Com muita confiança demonstrada logo no início do mundial, Carlos logrou alcançar a sua primeira ‘pole position’ e a primeira subida ao pódio logo na segunda corrida, realizada no circuito estreante de Pertamina Mandalika, na ilha indonésia de Lombok, no fim-de-semana onde também Miguel Oliveira subiu ao pódio, mas em MotoGP e ao lugar mais alto. “Foi muito importante para demonstrar a mim próprio o que posso fazer, depois de ter perdido a confiança e não perceber o que se estava a passar no ano anterior, pois passei de vencedor a último, o que não é fácil de compreender para um ‘chaval’ de 16 anos. Agora desfruto cada minuto que passo neste ‘paddock’ e isso era algo que me fazia muita falta”.

E que tal é ter como diretor de equipa um ex-campeão mundial? “Não é a figura a que estamos habituados num diretor de equipa. Com o ‘Tom’ podemos conversar sobre o que se passa com a moto, como te estás a dar com a pista, podes explicar-lhe as sensações mas, sobretudo, perguntar-lhe o que quiseres pois ainda tem uma visão muito recente do que é pilotar uma moto. Isso é algo de muito positivo e que me ajuda muito”. Como por exemplo, “quando sai da box e vai ver-nos em pista e me diz para tentar isto e aquilo em diferentes pontos do traçado, onde estou lento ou onde posso travar mais tarde. Quando comparamos com a telemetria vemos que tem razão. Isso dá-te a confiança para aceitar cada conselho seu como a realidade e que vale a pena ouvir o que tem para dizer”.   

Tal como Artigas, Carlos Tatay promete que a primeira vitória da CFMOTO vai surgir ainda este ano. E quanto ao mundial… (risos) “veremos, espero que a moto seja azul!”

Prüstel GP, a paixão pelo motociclismos que se ´bebe´ na Saxónia

A Prüstel GP é uma equipa alemã que só podia ter nascido na região da Alemanha onde o motociclismo conhece maior expressão e fervor: a Saxónia. A equipa surgiu em 2016 quando Ingo e Florian Prüstel, pai e filho que lideram a empresa de logística com o mesmo nome, adquiriram a equipa de Dirk Heidolf (ex-piloto dos Mundiais de 125 e 250 entre 1997 e 2007), em 2016.

Logo no primeiro ano, a formação de Oberlungwitz mostrou a sua vocação para representar fabricantes de motociclos, ao inscrever as Peugeot MGP3O no mundial de Moto3, com a tradicional base na KTM RC250GP, para Alexis Masbou e John McPhee, associação que se manteve em 2017, com Jakub Kornfeil e Patrik Pulkinen como pilotos.

Nunca esquecido

Pela Prüstel já passaram outros nomes bem conhecidos como Albert Arenas, Marco Bezzecchi, Filip Salaç, Ryusei Yamanaka ou o malogrado Jason Dupasquier. Pedro Acosta estava contratado, mas acabou na equipa laranja de Aki Ajo.

Em 2022, a associação com a CFMOTO surpreendeu muita gente, com as motos pintadas de azul-marinho – novamente baseadas na KTM RC250GP – a serem entregues a Xavier Artigas e Carlos Tatay.

A Prüstel foi fundada em 1990 por Ingo Prüstel como empresa grossista de bebidas, mas ganhou dimensão na área da logística para as indústrias do papel, bebidas, construção, automóvel, aço e alumínio, e da reciclagem.

Atualmente com 208 tratores de semi-reboque, a empresa de Callenberg trabalha diretamente com 80% dos seus clientes e Florian Prüstel tem a seu cargo o desenvolvimento da atividade comercial e da Prüstel GP, enquanto Ingo se mantém na gestão da empresa que fundou.

Tom Lüthi, o diretor de equipa da CFMOTO Racing Prüestel GP, à direita, em conversa com Jens Hainbach, vice-presidente de competição e velocidade da KTM, cuja constante presença na box da equipa sino-alemã mostra a importância do projeto para a marca austríaca.

CFMOTO a primeira marca chinesa a fazer história na MotoGP?

Fundada em 1989 na cidade de Hanchéu, a designação portuguesa de Hangzhou, a capital da província de Chequião (ou Zhejiang, a romanização do nome em mandarim desta província), a CFMOTO tornou-se num gigante industrial para a produção de motos e ATV. Ocupando uma área de 260.000 metros quadrados e empregando mais de 3.000 pessoas, a empresa gerou uma faturação de 4,5 mil milhões de yuans, algo como 657 milhões de euros ao câmbio atual.

Com a visão de se tornar numa marca global de prémio no segmento ‘powersports’, a casa asiática tem por missão tornar o mundo um local mais divertido, convidativo e acessível para ser explorado.

No seu trajeto iniciado há 33 anos, a companhia desenvolveu o primeiro motor monocilíndrico de 125cc em 1997, lançando a primeira ‘scooter’ em 2000 e o seu primeiro ATV em 2006. O ano de 2013 marca o acordo estabelecido com a KTM para se tornar no distribuidor exclusivo da marca austríaca e produtora de ‘knock-down kits’ que são montados no país destino.

No ano seguinte, a CFMOTO tornou-se no primeiro fabricante chinês a alinhar no Tourist Trophy, da Ilha de Man, com Gary Johnson a alinhar na categoria Lightweight com a WK650 – uma moto baseada na Kawasaki ER-6F.

Em 2017 surge cotada na bolsa de Changai e constitui uma empresa conjunta com a KTM para a produção de vários modelos (KTM e Husqvarna) e partilha de tecnologia e componentes. Em 2020, a apresentação da 1250 TR-G marcou o lançamento do primeiro modelo de fabrico chinês de mais de 1.000 centímetros cúbicos.

A CFMOTO é a líder de mercado no país natal, com 20% de cota de mercado, à frente da Benelli, esta com 18%, graças às mais de 70 mil unidades vendidas pelos mais de 500 concessionários que cobrem o território.

A título de curiosidade, o nome original da marca é Zhejiang Chunfeng Power Limited Company. Ora ChunFeng em mandarim significa brisa suave, pelo que a CFMOTO Power Co. Ltd.  vai buscar o seu nome às iniciais da Chunfeng Holding Group.

Com base na KTM RC250GP

A CFMOTO utilizada pela equipa da Prüstel GP no campeonato de Moto3 tem por base a KTM RC250GP, à semelhança do que sucede com as GasGas e Husqvarna, ambas as marcas propriedade da Pierer Mobility, o que não surpreende dada a interligação da marca austríaca com a casa de Hanchéu.

O motor monocilíndrico de 250cc está limitado, por regulamento, a 14.000 rpm e, em conversa com um dos chefes de equipa, confidenciaram-me que a potência debitada pode superar os 60 cavalos e que estes motores têm uma faixa de utilização que pode atingir 5.000 rpm. A equipa pode utilizar seis unidades por época, em cada moto.

Nas pequenas cilindradas os detalhes contam a dobrar para aumentar o rendimento. O escape da KTM monocilíndrica é uma autêntica obra de arte onde não faltam duas câmaras de ressonância para ampliar a pulsação que ajuda à extração dos gases de escape e assim ganhar um pouco mais de binário e potência ao longo do regime de utilização.

As limitações impostas pelo regulamento que visam conter os custos de participação de uma categoria que se pretende de iniciação, não impedem que a criatividade dos engenheiros consiga descortinar todas as possibilidades de ganhar um pouco mais de potência e binário, como se pode ver neste belíssimo escape da Akrapovic montado numa das motos da equipa.

A KTM reganhou a competitividade de anos anteriores face às Honda NSF250RW de Foggia e seus pares – arriscando-se mesmo a ganhar o título este ano, ainda que disfarçada de GasGas ou Husqvarna – e é bem possível que permita à CFMOTO juntar o seu nome à lista de marcas vencedoras em Moto3 no ano de estreia. Os dados estão lançados e ingredientes de qualidade não faltam para concretizar as intenções da marca chinesa.

Um grupo de seguidores da marca que não hesitou em marcar presença na passagem da equipa pelo AIA, em Portimão, junto aos pilotos Carlos Tatay e Xavier Artigas.

Comments are closed.