Carlo Baldi, o jornalista movido pela paixão

Carlo Baldi com os Doze Apóstolos de fundo, na Grande Estrada Oceânica, a via costeira no estado de Victoria, Austrália, que percorreu com o seu inseparável amigo, Gordon Ritchie.

Carlo Baldi nasceu em Abbiategrasso, pequena comunidade situada a sudoeste de Milão e na margem do rio Pó, a 31 de Julho de 1955, sob o signo do leão. Há doze anos a seguir o campeonato do mundo de Superbike, escreve para duas das maiores revistas transalpinas dedicadas ao motociclismo, liderou o gabinete de imprensa de muitas equipas ao longo de várias temporadas, e é um perito em capacetes, que produziu e comercializou. Viajou ao longo da sua vida por África, Ásia e Europa. Casou em 1986 e mudou-se para Castiglione della Pescaia, na província de Grosseto, Toscana. O seu lugar preferido no calendário da Superbike é Phillip Island, na Austrália. Tem casa em Fuerteventura, no arquipélago espanhol das Canárias, onde ainda vive porque, como costuma dizer: – aqui é Verão durante todo o ano. Gosto de lhe chamar ‘Carlo, o Africano’, por causa da sua longa estadia na Somália, que permanece nas suas memórias e recorda sempre com carinho. Entrevistá-lo é um sinal da estima que ele granjeou em pouco mais de uma década. Das suas respostas emergiram, como sempre, a humildade, o conhecimento e a experiência de um profissional competente, sincero e, por vezes, até comovente.

  • Texto: Alex Ricci
  • Fotos: Alex Ricci e arquivo pessoal de Carlo Baldi
Alex Ricci, à esquerda, e Carlo Baldi, durante uma das passagens do CIV, o campeonato italiano de velocidade), pelo circuito de Mugello

Alex Ricci / MotoX: Carlo, vamos começar pelo princípio: como se deu e teve início a tua paixão pelas motos?

Carlo Baldi: A minha paixão por motos nasceu comigo, porque não me lembro de ter tido essa paixão. Quando eu era pequeno, o meu pai tinha uma Iso Moto 150, uma moto que era bastante famosa porque tinha dois êmbolos no mesmo cilindro, era muito estranha e feia de morrer. Nela levava-me a mim e à minha mãe de Abbiategrasso para Ferrara, e deve ter sido assim que nasceu a referida paixão, entalado entre a minha mãe e o meu pai, pois a partir desse momento nunca mais desmontei de uma mota.

AR / MotoX: Já viajaste muito por África e pela Ásia. Que influência tiveram estas viagens no teu desenvolvimento humano e profissional?

CB: Seguramente bastante do ponto de vista humano, porque se aprende a não ter um lugar fixo, tanto no emprego como no lugar onde se vive. A tua casa torna-se aquela onde vives naquele momento, onde tem os teus afetos, e isso pode ser na Índia, na China, na Somália, Arábia Saudita, em Grosseto, em Abbiategrasso ou em Settimo Milanês, e estou contente que assim seja porque não gostaria de ficar sempre no mesmo lugar. Gosto de mudança, de novidade, de conhecer novas pessoas e diferentes ocupações. A minha vida sempre foi muito variada e fico contente por ser assim. Ainda não acabou e vamos ver o que o futuro me reserva.

Carlo Baldi parece ‘desesperado’ com as perguntas de Alex Ricci, em plena sala de imprensa do AIA, durante a ronda de Portimão do Mundial de Superbike. Fernando Pedrinho, do MotoX, parece ‘espreitar’ por cima do ombro direito do entrevistado.

O início nos capacetes

AR / MotoX: Costumavas estar totalmente envolvido com a produção e comercialização de capacetes. Ainda o fazes? Conta-nos como surgiu este percurso na tua vida.

CB:De facto, nasci como ‘cascaro’ [expressão italiana para um fabricante de capacetes], mesmo antes de me tornar um ‘rabiscador’ no mundo das corridas. Na verdade, foram os capacetes que me trouxeram até ele. Em 1987 comecei a trabalhar na Vemar. Entrei para a empresa, em Grosseto, e éramos apenas quatro: o proprietário, dois trabalhadores e eu. Quando saí, três anos mais tarde, e sem falsa modéstia, já havia duzentas e cinquenta pessoas a produzir e comercializar os capacete Vemar. A partir daí, numa sequência capacete – piloto – moto, foi um pequeno passo e comecei a aproximar-me cada vez mais do mundo da competição. Deram-me o meu primeiro passe, em 1987, para ir a Magione, a uma corrida de  ‘Sport Production’, onde conheci pessoas como Salvatore Giorlandino, com quem ainda me dou e está agora na equipa Prodina [a Prodina Ircos faz alinhar os italianos Hugo de Cancellis e Thomas Brianti no Mundial de Supersport, enquanto no campeonato ‘caseiro’, o CIV, inscreve três pilotos na Supersport 300]. Continuo a trabalhar com capacetes, mas já não do lado da produção, pois coloquei de parte a fabricação e  homologação. Trabalhei com marcas como a Vemar, Yes, Kiwi, Premier e atualmente com a Caberg, LS2, ou a Staz Índia – que é pouco conhecida mas é uma das maiores empresas do mundo e produz mais de cincomilhões de capacetes – ou a HJC. De momento combino as duas coisas, corridas e capacetes, ocupando-me da área específica dos patrocínios. É um mundo muito importante e fascinante este dos capacetes. Descobri, mais tarde, que o capacete não é a parte mais importante do vestuário de um piloto, mas sim o fato de competição. Quando o piloto cai, é a forma como impacta no chão que faz a diferença. Pode nem sequer bater com o capacete no asfalto, mas o fato, definitivamente, fá-lo-á.

Com Troy Bailyss, à esquerda, em Buriram, na Tailândia.

AR / MotoX: Como é que te juntas às Superbike e porquê? Como surgiu a ideia de escrever, primeiro, para as equipas e depois dás passo para o jornalismo?

CB: As ‘Superbike’ têm sido sempre a minha paixão. Graças à Vemar, estive no mundo do MotoGP entre 2003 e 2004. É bonito, claramente, mas não me agrada. Não é uma opinião negativa, mas não gosto, é um problema meu. Demasiada gente, muita confusão, público a mais. São horas para entrar no circuito. Gosto do CIV e do Mundial de Superbike, que têm dimensões mais humanas. Assim que pude, escolhi as Superbike e, com Salvatore Giorlandino, que costumava patrocinar com capacetes quando ele corria, mantivemo-nos em contacto. Ele sempre me disse que iríamos fazer algo juntos. Em 2008 telefonou-me, estava a trabalhar na equipa da Honda Hannspree Althea e disse-me: – Precisamos de um gabinete de imprensa para tratar da comunicação. Sempre fizeste isto, então porque não vens dar-nos uma ajuda?

Comecei a colaboração com a equipa Hannspree Althea, que depois evoluiu ao longo do tempo para Team Althea e veio a vencer o campeonato mundial com o Carlos Checa. Foi assim que me juntei à caravana do Mundial de ‘Superbike’, em 2008, e ainda aqui estou. No que diz respeito à escrita, sempre colaborei com a Moto.it, porque o proprietário deste site, quando terminou a universidade, juntamente com um amigo seu, abriu-o para a compra e venda de motos usadas. Sendo dois tipos muito inteligentes, bem como duas boas pessoas, decidiram expandi-lo e transformá-lo num portal, e começaram a chamar marcas de vestuário, empresas de motociclismo e muitas outras. O proprietário, Ippolito Fassati, costumava dizer-me que telefonava a uma empresa de capacetes, falava-lhes do site e eles desligavam a chamada. Um dos poucos que o ouviu e até lhe enviou alguns capacetes, um dos quais ainda está atrás da secretária do Ippolito, fui eu e foi assim que a colaboração começou. Ajudei-os a entrar no mundo do equipamento, pediram-me para começar a escrever e ainda estamos aqui.

Altos e baixos

AR / MotoX: Qual foi o momento mais triste e o mais emocionante que viveste no Mundial de Superbike?

CB: O mais triste, infelizmente não há muita história para contar, foi a de 21 de Julho de 2013, no Grande Prémio de Moscovo, quando o Andrea Antonelli morreu. Era um amigo, fazia parte da equipa Hannspreee Althea, em 2008, era alguém que vi crescer e estava sempre connosco. No circuito, no sábado à noite após o treino, ele vinha à sala de imprensa, pegava na folha de tempos e nós vimo-la juntos. Esteve lá durante dez minutos, no total. No sábado anterior ao acidente, ele permaneceu na sala de imprensa durante quase uma hora, a falar de tudo. Penso que ele veio ‘despedir-se’ de mim, já que depois do sucedido nunca mais o voltei a ver. É sempre difícil quando um piloto desaparece. Aconteceu agora o mesmo com o Dean Berta Viñales, que não conhecia.

Não consigo encontrar o melhor dia, porque há tantos. Tenho sentido imensa alegria quando os pilotos que me são mais chegados vencem. A minha satisfação tem sido sempre a de ver a satisfação dos outros. Quando vi a equipa Evan Bros. ganhar o título com o [Randy] Krummenacher, ou o Carlos Checa conquistar o título de pilotos. Ver a rapaziada de Colleferro partir para o Campeonato Europeu, em 2002, com o Alessio Corradi e vê-los chegar ao topo do mundo é uma cena de ir às lágrimas. Assim como o primeiro pódio do Alessio.

AR / MotoX: Quem são as personagens que conheceste no ‘paddock’ que mais te conquistaram?

CB: Tantos! Como amigo, Gordon Ritchie, que é a minha referência como jornalista desde que aqui cheguei. Por falar em pilotos, os três monstros, os três campeões foram sempre [Carlos] Checa, [Max] Biaggi e [Jonathan] Rea. Falando sobre as pessoas no ‘paddock’, há muita gente ‘porreira’. Mais do que o lado técnico-desportivo, eu sigo o lado humano. Encontrei muitas pessoas interessantes. Amigos menos, porque a amizade é uma coisa séria, mas encontrei algumas. O ‘paddock’ é um ambiente difícil, com tantos interesses e tantas rivalidades. No entanto, encontrei pessoas que têm profundidade. A minha amizade com o Gordon não se deve apenas ao facto de sermos colegas, mas também porque, humanamente falando, somos muito próximos. Ele esteve lá para mim num momento muito difícil e foi um divisor de águas entre amigos reais e aqueles que são apenas de fachada ou superficiais. Naquele momento compreendi quem gostava verdadeiramente de mim.

AR / MotoX: Atualmente, és reconhecido como um dos principais expoentes da informação sobre motos derivadas de produção. Devemos recordar que uma das tuas ‘casas’ é o CIV. Concordas?

CB: Sim, absolutamente, é o CIV. Quando me perguntam se vou para Vallelunga, digo sempre: – Se eu não for, eles não correm! Piadas à parte, mas de acordo com os organizadores, consegui ser parte integrante do CIV. Se no Mundial de Superbike sou um jornalista que acompanha as corridas, no CIV colaboramos com o gabinete de imprensa, fui mais do que um correspondente, precisamente porque me preocupo muito com este campeonato. É o campeonato nacional, que lança os jovens, penso em [Lucca] Bernardi que já chegou ao mundial, mas também em  muitos outros exemplos, como [Fabio] Digiannantonio ou [Marco] Bezzecchi. Ver todos estes rapazes evoluírem, como o Celestino Vietti que era realmente um pequeno prodígio, bonito e simpático, e agora está na Moto2. Gosto de fazer parte do palco principal do motociclismo em Itália. Tudo começa aí, e é esse o campeonato de onde partem para os mundiais. Estar nesse mundo dá-me particular prazer e eu tenho procurado, no meu microcosmos, colaborar com a Federação Italiana, gratuitamente, porque o posso fazer, e pelo CIV faço-o sempre com grande satisfação.

Deixem-se levar pela paixão

AR / MotoX: Há muito a aprender contigo. Que conselho darias àqueles que têm vindo a fazer este trabalho há menos tempo?

CB: Eu não tenho muito para ensinar, só posso partilhar a minha experiência. Deixa-te levar pela paixão, pois sem ela tudo é inútil. Na minha opinião, há duas, ou talvez três, coisas necessárias. A paixão, porque quando as pessoas me contam como é bom ir às corridas, eu digo que sim, mas não se vai ao circuito na quinta-feira à tarde e sai-se à noite no domingo porque é bom. É preciso ter paixão, caso contrário, após quatro dias no circuito enlouquecemos. A segunda coisa é ter muita humildade. A humildade de olhar para todos os outros, sabendo que todos podem ensinar-nos algo. A terceira é a curiosidade. Curiosidade de estar informado sobre tudo, de tentar saber tudo, de ir a todas as boxes, a todas as ‘hospitalities’, a todas as equipas para aprender. Tudo aqui muda diariamente, em todas as sessões. Estes são, na minha opinião, os três fundamentos. E depois, a alegria de o fazer, logicamente. Para além da paixão, é preciso ter o prazer de o fazer. No dia em que pegar na minha mala e me queixar de ter de ir a Portimão, coloco-a no chão e fico em casa.

Carlo e Alessandra

AR / MotoX: E no dia em que abandonares esta vida o que vais deixar para trás e perder?

CB: Não vou deixar nada! Este é um mundo muito próprio. Quando aqui cheguei, em 2008, das pessoas que estavam na sala de imprensa, restam talvez duas ou três. Todas as outras já pararam, mudaram de profissão ou foram para a MotoGP. Um dos que abandonou ficou ofendido, dizendo que já ninguém o procurava. Este ambiente é assim. Se eu não for a duas corridas, esquecem-se de mim. É um mundo tão competitivo, onde tudo corre a trezentos por hora, que não é por não estares lá que vai parar. Alguns, amigos, esses podem lembrar-se, mas os outros substituem-te. Deixarei muito pouco para trás, espero que alguns artigos que alguém se lembre de ler e, certamente, a memória nos amigos que referia atrás, com os quais me manterei sempre em contacto fora das corridas. Vou sentir falta de tudo. Não vou cometer o erro, que muitos cometeram, de me desligar completamente e decidir que a partir de amanhã não seguirei mais as corridas. Isso é impossível! Podes fazê-lo, mas vai ser terrível porque este mundo é como uma droga. É difícil desligar-se das corridas, da adrenalina, não aquela dos pilotos, mas a que tu sentes. Sabes muito bem que, quando uma corrida termina, tens de correr porque há que escrever e depressa. E sente-se falta deste compromisso que quase te tira o fôlego. Por um lado, odeia-se, mas pelo outro, adora-se. Vou tentar não cometer o erro de dizer: – a partir de amanhã o campeonato acabou e já está. É muito difícil, mas estou já a afastar-me, embora lentamente, fazendo cada vez menos corridas, até ao final, quando apenas pedir um passe para ir à corrida de Phillip Island.

AR / MotoX: És feliz?

CB: Se falares de trabalho, talvez sim, mas como sabes, desde que a minha mulher faleceu, a minha vida tornou-se muito difícil. Seguimos para a frente.

Quem é Alex Ricci?

Nasceu em Faenza, em 1979, mas as suas origens estão em Fusignano, na província de Ravenna. É filho de um orgulhoso pai romanholo e de uma mãe originária de Ladinia, na província de Belluno. Motociclista. Escritor ‘neo neo realista’. Repórter ‘freelancer’ e também fotógrafo, para alguns. Divulgador de motociclismo. Adora literatura, música, toca baixo e é fã de Sting e Depeche Mode. Apaixonado por história, geografia e literatura. O seu escritor preferido é Ernst Junger e o repórter preferido, Ryszard Kapuściński. Gosta de contar histórias. Benvindo ao MotoX, Alex!

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