Câmaras nas motos, ou a história da partilha da emoção !

  • Texto: Alberto Pires

Dá-se o nome de câmara subjectiva ao plano que simula o que o personagem da ação está a ver. É a forma criada para colocar os espectadores no centro da ação, vivendo-a na primeira pessoa, sendo frequente estar associada a um movimento com vista a acrescentar dramatismo. Não é de difícil execução, mas se pretendermos transmitir o que vivemos quando vamos em cima de uma moto as coisas complicam-se!

Mikhail Kaufman, em 1929, com o sistema criado para recolher imagens para o filme “Man with a camera”
Fotos: manwithamoviecamera.uk

É frequente, no cinema, recorrer-se à câmara subjectiva como forma de envolver o espectador na ação, desde a clássica perseguição ao bandido à fuga desesperada em face de uma ameaça. Na maioria das vezes recorre-se a planos curtos, e a razão é simples, o realismo produzido é inversamente proporcional à sua duração.

Outro dos problemas prende-se com as dimensões da câmara e o espaço disponível para a sua colocação. Inicialmente as câmaras eram simples e pequenas, mas o incremento da qualidade técnica implicou um aumento exponencial das suas dimensões. Ou seja, foi necessário criar câmaras pequenas, adaptadas para o efeito, sem que isso comprometesse a qualidade. Mesmo assim, em formato 35mm, eram sempre volumosas. Simular a situação dentro de uma automóvel continuava a ser muito complicado, e numa moto mais ainda. Acresce a esse problema o facto do mecanismo de uma câmara de filmar ser muito sensível ao movimento, não gostando de vibrações. As soluções encontradas implicavam sempre encontrar um suporte que as absorvesse, mas rapidamente se chegou á conclusão de que o corpo humano seria a base ideal.

Christian Le Liard, na ElF 500 Honda, em 1985, no circuito de Misano.

As primeiras experiências nos desportos motorizados foram feitas com câmaras fixadas aos capacetes com fita americana. Jackie Stewart, em 1966, colocou uma câmara fotográfica para produzir algumas imagens e Steve McQueen, em 1971, recolheu algumas imagens a conduzir para o filme Le Mans.

Não era seguramente prático… Foto: Kotke.org

Nesse mesmo ano, Bruce Brown usou a mesma técnica para mostrar o que um piloto de motos vive em competição. No filme “On any sunday”, os espectadores têm uma pequena amostra do que é estar numa moto de “Flat Track” ou numa pista de velocidade.

Fotos: video&filmmaker.com

É inacreditável a imaginação e o espírito de sacrifício dos operadores de câmara para conseguir o melhor plano nos filmes com automóveis, mas não me esqueço das imagens em movimento captadas em cima de uma moto, quando vi pela primeira vez o filme Mad Max, realizado em 1979. Acabaria alguns anos mais tarde por fazer o mesmo!

Não importa o que tem de ser feito, desde que o plano fique bom ! Foto: Reddit.com
David Eggby, agarrado a uma das figuras principais do filme Mad Max, para captar imagens da perseguição. Foto: David Eggby

O passo seguinte demorou alguns anos. Foi a televisão, na luta pelas audiências recorrendo à diferença na apresentação de imagens mais espetaculares, que criou a necessidade de desenvolver uma solução técnica capaz de mostrar as competições em direto. A empresa AVS ( Aerial Video Systems) criou, em 1986, um sistema capaz de enviar para o camião “regie” da ABC as imagens produzidas por uma mini câmara, enriquecendo assim a transmissão em direto da prova de motocross de 500 cc. O sistema, absolutamente revolucionário na época, utilizava uma câmara Canon Ci-10 presa no lado direito do capacete do piloto, e no outro lado ficava a bateria e o emissor de microondas. Dirk Garcia inaugurava assim as transmissões em direto das pistas, processo que não mais parou.

Em 2004 dá-se início a uma revolução, quando Nicholas Woodman apresenta o protótipo da sua GoPro. Ainda era com filme de 35 mm, mas dois anos depois surge a primeira versão capaz de gravar sequências de 10 segundos em vídeo. Desde então não parou de evoluir, sendo dotada atualmente de uma infinidade de funções com qualidade profissional. Prova disso a parceria efetuada em 2015 com a Dorna, com a duração de cinco anos, para o fornecimento de câmaras, permitindo captar imagens onboard cada vez mais espetaculares. A importância televisiva e a complexidade técnica deste tipo de imagens cresceu entretanto exponencialmente. É quase inacreditável a evolução registada até aos dias de hoje desde a estreia em 1985, no GP da Holanda, de imagens em direto com uma câmara montada na Honda NS 500 de Randy Mamola.

São utilizadas hoje mais de uma dezena de câmaras de alta definição, colocadas em vários locais da moto, proporcionando uma envolvimento com a ação superior ao que os melhores videojogos conseguem oferecer. Os ângulos oferecidos, os pontos de vista e os grafismos que lhe são associados transformaram a emissão televisiva de uma prova de velocidade num espetáculo imersivo autónomo, surpreendente e envolvente, sem desvirtuar o que lhe está na origem.

As motos transformaram-se em estações emissoras, decidindo a realização ao longo de cada prova qual o momento mais emocionante a ser mostrado ao espectador. Foto: live-production.tv

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