“Assumo toda a responsabilidade pelas decisões no Extreme XL Lagares”

Texto e fotos: Paulo Ribeiro

No calendário da Federação Internacional de Motociclismo surgiu, este ano, uma nova coluna de eventos, respeitante ao Hard Enduro, ‘promovido’ a Campeonato do Mundo depois da experiência positiva de duas temporadas (2018 e 19) com as World Enduro Super Series. A Portugal cabia a sempre importante, prestigiosa e comprometida tarefa de inaugurar uma nova competição, com responsabilidade a cargo do experiente Extreme Clube de Lagares e o apoio do Melícias Team. A 16.ª edição do Extreme XL Lagares tinha tudo para ser palco do mais brilhante arranque do Mundial que se podia imaginar. Mas nem tudo correu a preceito. Bem antes pelo contrário…

Ao longe as serras por onde deveria ter passado o 16.º Extreme XL Lagares, prova de abertura do FIM World Championship Hard Enduro

De quem foi a culpa pelo que aconteceu na 16.ª edição do Extreme XL Lagares? Pois bem, os dedos podem ser apontados em muitas direções mas MotoX esteve no terreno durante três dias bem intensos, acompanhando de perto todas as incidências e garante que, neste caso, a culpa bem poderia morrer solteira. Não foi, seguramente, do incansável Paulo ‘Melícia’ Moreira, rosto de uma equipa inquebrantável perante as adversidades, e não foi do diretor de prova, o experiente Pedro Bianchi Prata, bem conhecedor dos meandros das corridas. Tão pouco foi dos elementos federativos presentes, com um esforço enorme para levar o barco a bom porto, com o presidente da Federação de Motociclismo de Portugal, Manuel Marinheiro, a desdobrar-se em contactos para ultrapassar uma situação extremamente complexa criada por um parecer negativo de última hora (às 18.40 h. de quinta-feira, já com centenas de pilotos e equipas instaladas no paddock) dado pela Delegada de Saúde do Vale do Sousa Sul. Enquanto isso, Pedro Mariano, António Pego e Nélson Correia tudo faziam para gizar novas soluções capazes de resolver o imbróglio. E claro que também não foi dos pilotos, desejosos de voltar à competição, com o aliciante de ‘Lagares’ ser das provas mais queridas do pelotão internacional.

Winfried Kerschhaggl ‘deu a cara’ desde o primeiro momento e ouviu sempre as preocupações dos pilotos

No meio de tamanho emaranhado, alguém, que não o verdadeiro culpado pela situação sublinhe-se, deu a cara e assumiu toda a responsabilidade por uma prova que, realizada em moldes completamente diferentes do delineado, acabou por não pontuar para o estreante Mundial de Hard Enduro. Winfried Kerschhaggl, diretor geral da Seven MMD GmbH, empresa promotora da competição assumiu, sem rodeios «toda a responsabilidade pela decisão final» e não se cansou de elogiar todos os envolvidos, dos pilotos à organização e membros do júri. «Tudo foi feito para que a competição pudesse acontecer de forma normal, mas, quando tomamos conhecimento da decisão das autoridades sanitárias portuguesas, começamos de imediato a trabalhar em todas as alternativas possíveis». Sem poder utilizar o inovador percurso com cerca de 60 quilómetros que Paulo ‘Melícia’ e a sua equipa traçou na Serra da Boneca, com promessas de tanta dificuldade quanto a beleza do maciço montanhoso mais próximo do Porto, o austríaco, antigo piloto amador e ex-diretor desportivo da KTM, juntamente com o Júri da Prova e organizador, começou a estudar a forma de tornear as limitações impostas pelo parecer da Direção Geral da Saúde.

«Primeiro surgiu, naturalmente, uma sensação de desapontamento, de desilusão pura, para a organização, para os pilotos, para todos os envolvidos. Mas, após esse primeiro momento, todos foram unânimes na decisão de tentar perceber o que era possível fazer. O certo é que, e isso é importante salientar, a ideia de regressar a casa foi imediatamente colocada de parte e todos pensámos o que poderíamos fazer com as ferramentas que tínhamos».

Diogo Vieira (Gas Gas) foi o melhor português no conjunto das três mangas finais (13.º) mas «preferia a exigência técnica e o sofrimento que só a serra oferece»

A prova ficava, a partir desse momento (manhã de sexta-feira) circunscrita ao espaço do Parque de Manobras do Quartel do Regimento de Artilharia N.º 5, na gaiense Serra do Pilar. Kerschhaggl reconhece que, «dentro das possibilidades fez-se o melhor e os portugueses trabalharam de uma forma exemplar, sem nunca baixar os braços, dando o máximo, aceitando o desafio e fazendo todas as mudanças necessárias depois do primeiro momento de puro desapontamento». Claro que a corrida nunca iria ser a mesma, mudava definitivamente de perfil, mas «todos começaram de imediato a pensar e avaliar todas as possibilidades. Ninguém começou a lamentar-se ou a virar a cara ao desafio. Foram simplesmente fantásticos. Claro que ninguém quer uma má corrida e, por isso, quanto mais depressa aceitarmos o facto de como as coisas estavam a correr, mais tempo havia para a melhor adaptação».

Quanto aos pilotos e equipas, «a primeira reação foi de um enorme desapontamento porque chegaram aqui prontos para um extraordinário esforço físico, um desafio enorme para homens e máquinas, que não era possível cumprir da forma como o promotor, organização gostariam nem ao nível dos que os pilotos desejam. Mas, mesmo assim, no final, o mais rápido seria sempre o vencedor pelo que o desafio, talvez mais fácil, não deixa de ser um desafio onde todos se empenham ao máximo, com aqueles que andaram na frente a ser os mesmos que andariam numa situação normal».

A pista foi alterada e todo o programa foi adaptado à nova realidade, levando mesmo a um esforço sobre humano para construir uma pista completamente diferente para as mangas e finais de domingo. Aquelas que pontuariam para o Mundial!

Para o promotor do FIM World Championship Hard Enduro foi uma forma complicada de começar uma nova competição. «Pode não ter sido a pior forma, mas foi, sem dúvida, o arranque mais desafiante. É impossível pensar numa sucessão de complicações maior como é inimaginável pensar numa equipa tão fantástica que tudo fez para que a prova fosse avante. Mas estamos a viver circunstâncias extraordinárias, não apenas no desporto motorizado mas de uma forma geral. Toda a gente, em todas as áreas de negócio ou enquanto simples cidadãos, tem que viver com estas condições e tentar o melhor. Foi o que tentamos fazer nesta prova. O que conseguimos não foi o planeado e estava muito longe do ideal, mas, ainda assim, juntamente com todos, desde logo os pilotos, FIM e o organizador local, foi possível fazer alguma coisa». Uma pista desafiante, é certo, ainda que a milhas do que seria o traçado do evento original e que até poderiam favorecer alguns pilotos, mais preparados para as características de um Super Enduro, de filosofia bem diferente do Hard Enduro que é e sempre foi o Extreme XL Lagares. A pista cresceu durante uma noite de trabalho contínuo, aproveitando ao máximo toda a área militar, para tentar conferir a maior verdade desportiva à competição e equilibrar o favoritismo de alguns nomes.

‘Billy’ Bolt (Husqvarna) na classe Pro e Francesc Clota (Rieju) entre os Expert venceram numa pista levada aos limites da área militar do Quartel da Serra do Pilar

Tudo parecia encaminhado para, dentro de todas as limitações, haver uma prova válida para o Mundial, mas veio a chuva e arrastou, literalmente, todos os esforços. Winfried Kerschhaggl assume sem tibiezas: «Com a chuva que caiu durante a madrugada deixaram de existir as condições necessárias para uma prova de um Campeonato do Mundo e, com muita pena, tomei a decisão de não contabilizar a classificação e dei conta dessa decisão ao Júri. Foi um momento difícil para todos e, naturalmente, muito duro em termos pessoais, enquanto promotor do campeonato. Compreendo a frustração dos pilotos e, ainda mais, da organização, que não teve culpa nenhuma em tudo o que aconteceu. A verdade é que foi feito tudo o que era humanamente possível para cumprir o evento, mas tive de tomar esta dura decisão. Não seria justo comparar esta prova, nestes moldes, com esta quilometragem e estas dificuldades, com, por exemplo, os cinco dias de competição do Red Bull Romaniacs e atribuir os mesmos pontos aos vencedores. E, acredito, não seria correto para o campeonato e até para o grande prestígio que a Extreme XL Lagares já conquistou. O organizador tentou tudo para concretizar a prova, mas, em suma, sou eu o responsável pelo campeonato e não apenas por esta corrida e assumo a decisão tomada. Que foi uma decisão muito dura e talvez incompreendida por muitos».

A chuva foi a ‘grande’ culpada por afogar os pontos da jornada portuguesa que contavam para o Mundial de Hard Enduro

Mas os problemas de ‘Winnie’ não terminaram no momento em que embarcou no Aeroporto do Porto rumo à Áustria. A anulação do mítico e gigantesco ErzbergRodeo, no seu próprio país e bem perto da sede dos principais patrocinadores do campeonato, «é um problema imenso, sempre com a questão do COVID-19 a impedir viagens e a colocar todas as restrições em termos de público. É um problema à medida da dimensão de um evento que conta com cerca de 2000 inscritos e que poderá não aguentar com o cancelamento de dois anos consecutivos».

Dificuldades financeiras que, tal como no ‘Lagares’, «terão o apoio possível por parte do promotor que, depois de ter abdicado das taxas de inscrição para as provas, está já a estudar outras formas de ultrapassar este momento tão complicado». Mas, mesmo sem saber deste hipotético apoio, a organização do Borilli Extreme XL Lagares antecipou-se e, mostrando uma forma ímpar de estar na modalidade, garantiu já a oferta do valor de inscrição para 2022 a todos os pilotos que alinharam este ano.

Voltaremos em 2022!!!

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