A estratégia de Scott Redding: ainda dá para sonhar com o título?

  • Texto: Fernando Pedrinho
  • Fotos: WorldSBK, Aruba.it Ducati, Fernando Pedrinho

Scott Redding saiu de Navarra com duas certezas: a de que em 2022 não irá pilotar uma Ducati e que após a prova espanhola ainda tem sérias hipóteses de se bater pelo Mundial de Superbike.

O piloto inglês chegou ao Mundial da categoria pela mão da marca italiana, depois de vencer o  campeonato britânico da categoria em 2019, ano em que Álvaro Bautista falhou estrondosamente a conquista do ceptro máximo, depois de uma entrada de rompante em que venceu onze provas consecutivas com a estreante tetracilíndrica da casa de Borgo Panigale, até à queda sofrida em Jerez de la Frontera, quando liderava isolado, e que marcou um período de acentuado declínio, aproveitado por Jonathan Rea e a Kawasaki para o norte-irlandês rumar ao penta.

Com os cifrões da Honda a falarem mais alto, assim como a aura do HRC e o envolvimento oficial da Honda no projeto CBR1000RR-R Fireblade SP, para levarem Bautista para o regresso oficial da marca da asa ao mundial de SBK, a Ducati apostou todas as ‘fichas’ em Redding, como o homem capaz de acabar o que Bautista havia mostrado sobre o potencial da Panigale V4R: bater, finalmente, Rea e a ZX-10RR Ninja.

Se 2020 foi o ano de adaptação ao regresso a um campeonato mundial, depois de ter andando na Moto2 e MotoGP, o seu companheiro de equipa, Chaz Davies acabou em crescendo, depois de um início a roçar o desastroso. Nem a vitória no Estoril salvou o galês de ser relegado para a equipa privada da Go Eleven, por troca com Michael Ruben Rinaldi, que venceu espetacularmente no Motorland Aragão, em 2020, batendo as motos oficiais.

Esperança vermelha para 2021.

A Aruba.it Ducati Racing não desanimou e esperava que este ano fosse o da confirmação, mas tudo começou mal para os seus pilotos, apesar da vitória de Redding na segunda corrida, numa aposta de casino em pneus ‘slick’, quando a pista estava molhada e recomendava a opção mista como a menos arriscada.

O britânico voltou a vencer no Estoril, mas a inconstância era a pedra de toque do início de época dos pilotos da marca, que nem o brilharete de Michael Ruben em Misano conseguiu disfarçar.

Depois da  prova portuguesa, Scott só voltaria a vencer em Most, no início de Agosto, onde chegou com 81 pontos de vantagem, longe do projetado por ele e pela marca, num vazio muito bem ocupado por Toprak Razgatlioglu e a YZR R1 da Pata Yamaha With Brixx como o mais sério oponente de Rea e da Kawasaki com o número um.

A clivagem entre o natural de Gloucester e a casa de Bolonha começou cedo desde o Mortorland Aragão, atingindo o pico de afastamento em Donington, com Redding a acusar a espaços que a Ducati estava mais empenhada na MotoGP, deixando para segundas núpcias o Mundial de SBK em termos de recursos e investimento para o desenvolvimento da Panigale V4R.

Então como explicar o súbito renascimento do piloto da moto com o número 45, quando ele dizia que em Navarra e Most a moto utilizada era “exatamente a mesma com que corri em Donington”? Os erros de Jonathan Rea na República Checa e as dificuldades da Ninja no calor navarro não são suficientes para explicar a redução dos 81 pontos com que saiu de Assen para os 38 de atraso que leva para Nevers Magny Cours.

O que mudou?

Entretanto, uma das notícias mais inesperadas foi o anúncio da passagem do calmeirão britânico das hostes bávaras da BMW Motorrad, onde estará ao lado de Michael van der Mark, na M1000RR que deixará de ser pilotada pelo seu compatriota Tom Sykes. De que modo condicionará este anúncio a meio da temporada o desempenho do piloto inglês?

Scott estava mais uma vez banhado em suor, depois de terminar a segunda corrida, a única que não venceu no fim-de-semana, terminando atrás de Toprak. Inquirido sobre mais um dia de calor, o britânico disse algo de interessante. “Senti mais calor nesta corrida pelo simples fato de ter duas motos mesmo à minha frente durante 23 voltas. Também foi uma corrida mais exigente do ponto físico, pois podia ter pilotado a moto a extrair todo o seu potencial, mas tive um ‘feeling’ algo ‘gorduroso’, com a frente a escorregar muito. No sábado saiu tudo de forma mais limpa, entrava na trajetória e levantava a moto para acelerar. Hoje estava a ir muito mais fundo nas linhas de alguns pontos e quando isso acontece não consigo utilizar a capacidade de tração, o que me impedia de ultrapassar na reta da meta. Era mais do estilo chegar ao vértice da curva e escorregar, deixar ir… escorregar e deixar ir na curva seguinte. Mas estou feliz! Estou verdadeiramente nas nuvens”.

Coração Ducati… até ao fim da época!

Mas cansado igualmente. “Sim, bastante! Efetuei duas simulações de corrida no sábado e isso talvez não tenha sido a coisa mais inteligente que fiz este fim de semana, para te ser franco. Dei muitas voltas, o que debaixo de tanto calor acaba por passar a devida ‘fatura’. Depois dormi mal o que acabou por se refletir no meu estado de cansaço na segunda corrida. Pensei que o terceiro lugar seria o resultado possível. Ainda consegui passar o Jonathan [Rea] e forcei para ir buscar o Toprak mas ahhhh, comecei a arriscar mais do que devia e passar de bestial a besta pode acontecer muito rapidamente. Acho que se estivesse na frente tinha ritmo para ganhar e manter a oposição. Mas estou contente, como te disse. Voltámos a conquistar pontos no campeonato  e já não ganhava uma ‘Superpole Race’ faz tempo”.

Fator BMW teve influência?

A assinatura pela BMW teve alguma influência neste ‘renovado’ e competitivo Scott Redding? “Não! Não faz qualquer diferença para mim. É o que é! Assinar um contrato não te faz pilotar de maneira diferente. É capaz de ter influenciado o meu treino de bicicleta de terça-feira, quando aqui cheguei, do que na corrida propriamente (risos)”.

Já aqui havíamos falado do novo ‘estado zen’ que Redding adotou após a catástrofe de Donington. “Estou a lidar com cada corrida de uma forma muito simplificada e descontraída”, reafirmou Scott. “Isso tem-me ajudado muito após a ronda de Donington… onde disse para mim mesmo (suspiro): pára de te estressar dessa maneira! Consegues pilotar de forma rápida e faz o que sabes fazer bem! Isso parece ter funcionado e é onde estou em termos de abordagem à competição”.

A corrida de Domingo trouxe uma boa interpretação a esta nova filosofia de competição adotada pelo piloto do condado de Gloucestershire. “Mesmo que não tenha sido fácil para mim a parte final da corrida, eu estava na contenda pela vitória ou por um lugar no pódio, e não com a faca no pescoço para terminar em terceiro. A maneira como me sinto agora permite-me ser competitivo. Se mantiver este andamento posso lutar pelo título nas últimas rondas do campeonato. Bem sei que vamos ter pela frente algumas pistas mais complicadas para nós, mas se me mantiver descontraído e conseguir dois terceiros em vez de dois quartos lugares , vamos estar lá na luta”.

Panigale imutável

A Ducati alterou muita coisa na moto? Treta! “Não mudámos nadinha na moto! F***in zero! Até o Gio [Giovanni Crupi, o diretor técnico da Panigale de Scott] começou a querer fazer isto e aquilo eu disse-lhe: não faças nada, não te preocupes! Porque quando a moto está numa zona de conforto conhecida, eu consigo contornar os problemas. Se a mudarmos o mais certo é que as coisas piorem. A moto ganhou ontem, ganhou esta manhã, não havia razão para não poder ganhar esta tarde. É certo que nem sempre a consegues ter como gostarias, mas se der para terminares em segundo eu corro esse risco o dia todo”.

“Jonathan: estás feito!”

E quando vês um piloto em dificuldade, como sucedeu com o Jonathan debaixo de calor? “Eu vi que ele estava com alguns problemas e disse para comigo: já te apanhei! Eu estou com dificuldades, mas tu estás feito! Vi que ele teve outro momento de aflição e dizia: respira em cima do pescoço dele! Respira em cima do pescoço dele! Fá-lo ver na placa de tempos [a indicação de diferença para o piloto que o precede] ‘+0’, ‘+0’, volta após volta. É a pior coisa que te podem mostrar quando não te sentes bem com a moto. Eu estava com dificuldades na frente da Panigale, mas sabia que ele estava a sentir-se pior do que eu por ver aquela placa com ‘+0’ todo o tempo (risos). Por isso só tive de esperar o momento certo e aproveitar para o passar, apertar um pouco o ritmo e cavar alguma diferença”.

São, pois, estes jogos mentais e estratégias que significam a diferença entre a vitória e a derrota, entre ser campeão mundial ou vice-campeão. “Teoricamente, podia ter ganho todas as corridas do fim de semana se, no domingo, tivesse sido mais agressivo no início para tentar chegar à frente da corrida. Mas não podes tomar sempre a decisão de dar esse passo de risco adicional. Hoje, o ritmo da corrida foi mais elevado que no sábado e eu não estava a par disso. Eu nunca penso que o ritmo da segunda corrida é mais elevado, mas é quase sempre isso que acontece. Foi isso que aprendi hoje o que é bom. Agora sei que tenho de dar esse passo na segunda corrida”.

A imagem que impera na cabeça de Redding e dos ‘Ducatisti’

Trio para o título

E o futuro dará apenas Rea, Redding e Toprak? “Eu disse no início da época que as vitórias deveriam ser discutidas entre nós, e ocasionalmente o [Michael Ruben] Rinaldi e o [Andrea] Locatelli. Mas em termos de consistência para vencer o campeonato, atualmente, nós os três estamos um nível acima do resto da grelha. Estamos muito juntos e sempre em luta, o que é fantástico para o campeonato… mas não tão bom para os meus níveis de stresse e do deles (risos). Sei que em cada corrida que alinhar me terei de bater com aqueles dois. Tenho isso bem aceite dentro da minha cabeça e sei desde a grelha de partida que vai ser assim. Já o aceitei. Nunca penso que me vou isolar na frente ao fim de duas voltas e vai ser um passeio. Estar preparado para o encarar e fazer três vezes por fim de semana… não vai ser bom para os cabelos brancos que estão a aparecer”.

Redding é um dos pilotos com mais seguidores. Os comissários de (qualquer) pista adoram o britânico.

Embraiagem temperamental

E contar com os imponderáveis como a partida adiada porque Kohta Nozane deixou  calar o motor da sua R1. “F***-se nem me fales nisso! O bandeirinha não saia da frente e tu sabes que a embraiagem da Panigale é muito temperamental. Estava indeciso em meter em ponto morto, mas e se as luzes do semáforo acendessem? A partida foi adiada e isso deu-nos mais uma volta de reconhecimento, mas logo nas primeiras curvas a embraiagem estava a patinar. Ainda bem que arrefeceu no resto da volta e ficou tudo bem para o arranque”.

Com a volta descontada daria para ganhar? “Não… quando chegas a esse ponto na corrida [segundo com o primeiro à vista] consegues, no máximo, ganhar duas décimas de segundo por volta, a menos que alguém esteja a debater-se com problemas de pneus que te permita ganhar meio segundo para o piloto à tua frente”.

O campeonato está ao rubro e vai assim para Nevers Magny-Cours. Conseguirá Redding encurtar ainda mais a diferença para os líderes, empatados em pontuação, tornar a ronda de Portimão na mais excitante de que há memória?

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